Como nasci hoje
Hoje nasci sem querer
e sem crer:
Não podia acreditar
nem me apetecia fazer.
Hoje acordei
de rabo para o ar:
Não podia ouvir ninguém
e ninguém
me podia
aturar.
Hoje acordei maior que o mundo.
Não podia aqui caber.
Os outros, outros não eram.
Eu nem os via
é verdade
e fiquei ali no meio
como se fosse
uma imensidade.
Hoje acordei a falar
tão alto falava eu
que ninguém podia ouvir
só eu.
E quando falaste tu
falavas tão pequenino
que eu não podia entender.
Não sabia se falavas
ou te calavas.
Meus braços
quando acordei
eram tão grandes
que o mundo
neles ficava pequeno
tão pequeno que nem sei.
Os meus olhos com que via
viam tão longe
que eu podia
distinguir
um sinal nas minhas costas
-e no meio nada havia-
Fui na rua passear
para ver se encontrava alguém.
Mas alguém
eu não podia encontrar.
Olhava as montras
mas montras
já não havia.
Só espelhos
é que eu via.
Eu olhava a minha cara
que bela me pareceu
até que engrandeceu
mais gorda do lado esquerdo
assim, assim
tão gorda que era eu
tão gorda que era mim.
Que chatice
aí pensei :
Isto assim já bom não é
isto não é natural
vou-me dormir para ver
se amanhã estou mais normal.
Geraldes de Carvalho
23-05-2011
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