quinta-feira, julho 12, 2007

Se o mar a mim amasse





Se o mar a mim amasse 
como eu te amo a ti
então, oh meu amor
tu serias o mar.
Se o sol amasse a mim 
como eu te amo a ti
então, oh meu amor,
tu serias o sol.
Se o ar a mim amasse
como eu te amo a ti
então, oh meu amor,
tu serias o ar.
Se a flor amasse a mim
como eu te amo a ti
então, oh meu amor,
tu serias a flor.

Se tu a mim amasses
como eu te amo a ti
e o mar amasse o sol
e o sol amasse o ar
e o ar amasse a flor
e a flor amasse o mar
então, oh meu amor,
seria bom amar-te
seria bom amar.

Geraldes de Carvalho

de 20 poemas de muito amor e quase nenhuma circunstância

sexta-feira, junho 29, 2007

Aqui deixo para as pessoas que manifestaram interesse -e também para as pessoas que tenham interesse embora ainda o não tenham manifestado - e ainda para as pessoas que venham a ter interesse e ainda ...-basta !- o endereço onde podem adquirir o meu livro :
http//artesdoespectaculo.com.sapo.pt/ae410encomendas.htm

geraldes de carvalho

quinta-feira, junho 28, 2007

Eu sei





Eu e só eu
apenas eu
sei
como é difícil amar
e parecer
ao mesmo tempo,
não se importar.

Como é difícil viver
esperando o teu olhar
e parecer
não se importar.

Como é difícil viver
com toda a alma de bruços
a chorar
e parecer
não se importar.

Como é difícil viver
fingindo representar
um amor que se tem
e que nos faz doer
mas que não se quer mostrar
e parecer
não se importar.

Como é difícil viver
a falar, falar, falar
sem nada ter que dizer
aos outros, que não a ti,
e parecer
não se importar.

Como é difícil viver
a escrever, ler
e pensar
mas ter a mente vazia,
dos outros, que não de ti,
e parecer
não se importar.

Como é difícil viver
Com o mundo à nossa volta
a passar
e nunca te ver a ti
-nunca te ver nos teus olhos -
e parecer
não se importar.

Como é difícil viver
como quem vive a sonhar
mas tem a alma desperta
para poder adivinhar,
a ti, no modo de andar
e parecer
não se importar.

Como é difícil viver
sentindo o sangue a pulsar
como se fosse morrer
de tanto ser e amar,
e parecer
não se importar.

Como é difícil viver
e parecer
não se importar.


Geraldes de Carvalho

De 22 poemas de muito amor e quase nenhuma circunstância, Ó Grabato.

quarta-feira, junho 20, 2007

Minha poesia é




Minha poesia é
como a respiração
ela me dá alento
me levanta do chão.

(Do chão em que moro
e morro)

Ela me enruga a pele
e me deixa tremendo
quando respiro fraco
por causa do vento.

( Do vento que sopra
nas minhas cavernas)

Ela me deixa aflito
quase sem coração
quando respiro fraco
por causa do grito.

( do grito que grita
caído no chão)

Ela me deixa nu
quase que sem decoro
quando respiro fraco
por causa do choro.

(E eu choro
e meu choro devoro)

E ela me deixa em pânico
ainda que em segredo 
quando respiro fraco
por causa do medo.

(E o meu medo é meu
não veio do inferno
não veio do céu)

E ela me deixa lasso 
-tu estás aqui-
quando respiro fraco
por causa de ti.

(Não ouças, escuta
quando não respiro
tu és minha força)


Mas eu tomo alento, enfim...
quando respiro forte
por causa...de mim.


Geraldes de Carvalho

De 22 ou 23 poemas de muito amor e quase nenhuma circunstância, Ó Grabato !

domingo, junho 17, 2007

Vaidades. Assim, assim...(6)

Os poetas estão dentro dos poetas
e os poemas estão dentro dos poemas
desde agora
desde sempre.
Eu estou dentro dos poetas do passado 
e do porvir
enovelado e perdido
nas mesmas ideias
esperanças
e temores que hoje tenho
e terrores que hão-de vir.
Por isso nem a Safo 
nem o Píndaro
nem Vergílio de seu nome,
-me lembrei agora-
nem D. Dinis
nem Bernardim Ribeiro
o poeta da Menina e Moça 
-mesmo que, aparentemente 
escrito -o livro- em prosa-.
Nem Gil Vicente
nem Camões
nem Shakespeare
nem Rilke
nem Wordsworth
-quando é que eu hei-de aprender estas palavras
que têm mais letras que não rimam do que ideias,
sem o mínimo desprezo pelas enormes ideias que contêm,
ideias que não cabem dentro delas
nem deles
nem de mim....
Nem o Pessoa
ou o Chinês
que com tanto mistério,
- segredo,
lá do fundo - 
se exprimiu
e a Japoneza que lhe era igual, bem...
ainda que escrevendo simplesmente
nos dois sentidos que a palavra tem.
E o Indiano
o Índio
e o Mongol...
Nem Craveirinha
ou Grabato
e todos os outros, nem...
-sempre os melhores me esquecem
sempre os melhores não sei-
-Mas melhores do que quê?
Mas melhores do que quem?-
Nenhum deles,
meus irmãos,
era melhor do que eu sou
nem será melhor
do que eu 
hei-de ser,
porque, enfim...
eram eu
e eu sou eles
e serei
assim...assim
assim assim.


Geraldes de Carvalho

De 21 poemas de muito amor e quase nenhuma circunstância, meu amigo Grabato !

quinta-feira, junho 07, 2007





Na Batalha

Que lamento doce...





Que lamento doce
que me assoma aos lábios
e me deixa tonto
de deliquescer.
Minha terna amada
minha terna amante
minha triste amada
minha triste amante
aninha-te aqui
bem dentro de mim,
deixa-te ficar 
um instante apenas
para adormecer
para me adormecer.

 Geraldes de Carvalho

de 20 poemas de muito amor e muito pouca circunstância

domingo, junho 03, 2007

Vem




Vem meu amor
tágide minha
minha nereide
minha deusa:
Vénus , Afrodite.
Vem e toma-nos a todos.
Vem e renova-te de nós.
Torna-te novamente divina
e derrama sobre nós a tua divindade.
Queremos desaparecer
ficar completamente
inteiramente em vós.
Que o nosso sexo
esteja em vós.
Que os nossos olhos vejam apenas
as olímpicas lonjuras
que os vossos olhos criam,
os nossos ouvidos ouçam apenas
as elêusicas melodias
que os vossos ouvidos modelam
e os nossos músculos desenhem
rítmicas e eróticas volutas
simétricas convosco e em vós.
Vem meu amor
mil vezes santa
mil vezes deusa
prostituta magnífica
celestial
vem, entrega-te a nós
e toma-nos em paga.
Queremos celebrar este mistério
convosco
em vossa honra
em vós
em nós.

Geraldes de Carvalho

quarta-feira, maio 30, 2007

segunda-feira, maio 28, 2007

domingo, maio 20, 2007

27. Este privilégio criava-me, no entanto, alguns deveres que eu cumpria digamos, para não fugir à regra, gostosamente. Entre todos a minha predilecção ia para as visitas de cortesia. E não irei adiante sem me referir, muito secretamente, à que fiz ao secreto Instituto de Pesquisas Científicas:


A 1ª visita _ Esperavam-me todos no fundo da escadaria interminável. Avancei o pé direito e atirei-me suavemente no espaço; planei durante alguns segundos antes de atingir o pavimento atapetado com uma muito ligeira flexão que não alterou a dignidade do meu porte.
Rodearam-me imediatamente exprimindo por leves risos a alegria que lhes dava a visita da minha excepcional personalidade.
O director avançou um pouco e disse depois de uma saudação discreta:
_Recebemos com jubilosa surpresa a notícia da vossa visita. Ela é para nós motivo de grande felicidade que saberemos merecer, estai certo. Agradeço-vos em nome de todos e dos nossos filhos e dos filhos dos nossos filhos.
Aplaudi com um curto movimento de cabeça; a comoção que me provocaram aquelas nobres palavras impediu-me de responder imediatamente. A referência aos filhos dos filhos deles intrigava-me no entanto.
Depois que consegui articular o meu discurso seguimos por um comprido corredor.
Reparei que íamos perdendo alguns companheiros absorvidos, ao que parecia, por vagos corredores abertos regularmente nas paredes laterais que levavam, conjecturei, aos aposentos interiores.
Fiquei só com o director que não cessava de dar-me explicações de tudo e de nada. Comecei a dar-lhe atenção quando entramos na sala principal. Dizia:
_É nossa convicção -hipótese nunca antes formulada- que a única diferença sensível entre nós e os animais é o uso da fala. Suspendeu-se para que eu aprovasse; aprovei.
_Propomo-nos eliminar essa diferença e contribuir para o progresso da humanidade acrescentando-a, por assim dizer, com o imenso potencial daqueles a quem chamam irracionais. Sorriu sem ironia e suspendeu-se para que eu aprovasse ; aprovei.
_Temos aqui alguns exemplares de antropóides superiores de diferentes espécies. Apercebi-me vagamente deles de um lado e do outro da sala, subdividida em pequenos compartimentos envidraçados contendo, além de outros objectos menores, um leito e uma árvore bastante esquemáticos. Na verdade pareceram-me todos macacos vulgares embora, repito, apenas vagamente me tivesse apercebido deles. O director apontou-me um à direita que, sem ser o maior, era o mais visível - o único que eu via realmente. Explicou-me:
_ Este chama-se...Não percebi o nome e tive acanhamento de pedir-lhe que o repetisse
_É o nosso melhor aluno e já conseguimos que pronunciasse correctamente o nome dele. Há-de convir que não é um nome fácil de pronunciar; calculei que sim que não fosse e exprimi-lho com um gesto. Olhei para o macaco e surpreendi-lhe um rápido pestanejar que me era especialmente dirigido. O director, notando-o, retirou-se delicadamente para a sala próxima de onde provinha um ruído regular.
Aproximei-me. Aquele cujo nome não pude perceber, olhava em volta receosamente. Os seus lábios articulavam palavras que não compreendi imediatamente.
Dizia:
_ Salve-nos. Estamos presos e não nos deixam dizer uma palavra. Notando que o director se aproximava continuou:
_Recebemos com jubilosa surpresa a notícia da vossa visita. Ela é para nós motivo de grande felicidade que saberemos merecer, estai certo. Agradeço-vos em nome de todos e dos nossos filhos e dos filhos dos nossos filhos...
Comoveram-me as suas últimas palavras mas fiquei intrigado com a referência aos filhos dos filhos deles. Presenteei-o com algumas palavras do meu discurso.
O director aproximou-se com um largo sorriso:
_ Jurava que esse malandro tem estado a dizer mal de nós e a pedir-lhe para o ajudar a sair daqui, disse. Faz isso com todos os visitantes mas gosto dele. Note que é o único de quem já conseguimos arrancar uma palavra; tenho de gostar dele.
Pensei que devia indignar-me e chamar à ordem aquele sorridente director mas como aquilo não era nada comigo e a minha intervenção podia ser interpretada como falta de urbanidade, calei-me e assenti com um sorriso.
Passamos à sala próxima; menor repleta de máquinas e instrumentos. De encontro a uma das paredes notei quatro animais sentados sobre as patas de trás, iguais, imóveis e atentos.. A forma característica do focinho, como uma rodela de limão, permitiu-me identificá-los sem surpresa.
Apurei o ouvido às explicações do director; mostrava-me uma complicada máquina ao centro:
É um electroencefalógrafo quase vulgar. Sabe que normalmente os eléctrodos são apertados de encontro à cabeça do paciente mas, como todos os tecidos, e especialmente o ósseo, são absorventes das ondas cerebrais, praticamos nos nossos hóspedes uma antiga operação que nos permite colocar os eléctrodos em contacto directo com o cérebro. Apontou para um recipiente contendo algumas calotes cranianas e interrompeu-se sorrindo. Pareceu-me que devia sorrir mas, antes que o conseguisse, continuou:
_ É pena que ainda não tenhamos encontrado maneira de nos servirmos correctamente desta maravilhosa máquina . Se anestesiamos o paciente não obtemos senão fracas emanações cerebrais, SE operamos sem anestesia obtemos um reacção demasiado viva.
_ Creio, porém, que estou em vias de encontrar a solução.
_ Nesta câmara, apontou-me, está um símio sem crânio em absoluta imobilidade alimentado artificialmente. Espero que a incisão operatória sare completamente e então poderei observá-lo ali. É muito difícil conseguir; morrem, observou. Não me foi difícil admiti-lo.
Entretanto os quatro animais que eu havia notado começaram a agitar-se tremendo e ronronando surdamente. Uma luz apareceu numa tela em frente que escureceu. Olhei e distingui perfeitamente, três letra luminosas: S.O.S...
Alarmei-me um pouco mas o director explicou tranquilamente:
_ Mais um terramoto ou qualquer outra grande catástrofe ; os nossos aparelhos são tão sensíveis que podem captar qualquer pedido de socorro mesmo que seja puramente mental, desde que seja feito, simultaneamente por um certo número de pessoas angustiadas... É pena quer não seja da nossa competência prestar qualquer ajuda, ajuntou tristemente.
A luminosidade das letras diminuía. _ Estão a morrer, disse; se os tivessem salvo as letras ter-se-iam apagado de uma só vez.
Ficamos a assistir. Quando a tela ficou vazia indiquei que acabara a minha visita. Atravessei a sala grande lançando um olhar de esguelha para ver se via aquele cujo nome não pude perceber; não o vi. Depressa chegamos ao corredor onde recuperamos os companheiros que saíam regularmente dos seus aposentos. Chegados junto da escadaria o director adiantou-se e disse:
_ Recebemos com jubilosa surpresa a notícia da vossa visita...,etc...,etc...
Respondi-lhe. Quando acabei estendeu-me a mão com um sorriso de cordialidade; apertei-lha a medo e não consegui retirá-la depois. O director olhava-me com um sorriso de cordialidade. Com a mão livre agarrei-me às escadas e arrastei-me por ali acima interminavelmente. O director seguia-me de rastos sorrido e todos sorrindo agarrados uns aos outros arrastavam-se atrás de mim.
Cheguei ao cimo ofegante. Num supremo esforço libertei-me do director empurrando-o com o pé.
Quando chegaram ao fundo levantaram-se prestos e acenaram-me amistosamente. Levantei-me e acenei-lhes do mesmo modo.

Do meu livro "O caminho"

segunda-feira, maio 14, 2007

Rimas em ava e em ia






Não sei se a rosa chorava
nessa madrugada fria,
fria para quem ficava
fria para quem partia;
só sei que quando a beijava
me molhava
me molhava e me sabia
na boca com que a beijava,
como saber me soía
o choro da minha amada
quando sem querer padecia 
daquilo a que ela chamava
poesia.
Agora eu triste partia
e ela sozinha ficava
eu, dizendo que voltava
e ela, que não mais me via.
E isto chorando me dava
aquela rosa sombria
que chorava
ou parecia...

Geraldes de Carvalho

Do livro "Sombras de Alma" publicado em 1955

domingo, maio 13, 2007

Tinha uma marca na cara...






Tinha uma marca na cara
e por ela o conheci
porque era uma marca igual 
a outra, que outrora eu vi.
Uma marca singular 
como ela não há igual
para quem a saiba ver
por inteiro,
ao natural.
Estava cravada na cara 
que eu via no espelho.
Não era uma marca bela
pelo contrário é que era.
Por isso arrancá-la eu queria
mas não podia.
Não queria vê-la 
não queria,
mas não podia não vê-la.
Era uma marca sombria
que toda a cara cobria
de tal modo
que a cara já não se via,
só a marca
que eu conhecia.
E nem sabia 
se a cara ainda existia.
De maneira
que o melhor era amá-la,
àquela marca
que antes me aborrecia.
Dei-me a amá-la por isso
e hoje não sei se viveria
sem ela.
Ela
esta bela marca 
que eu vejo
no meu espelho.


Geraldes de Carvalho

De "20 poemas de muito amor e quase nenhuma circunstância"

segunda-feira, maio 07, 2007

Apenas V. quero dizer que tive de alterar a configuração da página porque o programa com que explorava a internet avariou-se um pouco e no novo programa a antiga página ficava praticamente ilegível.

Vosso
geraldes de carvalho

quinta-feira, maio 03, 2007

Teus seios ó Lara Croft






Teus seios ó Lara Croft
são a minha à perdição
eles me sugam o corpo
desde o coiso ao coração.

E porque o meu coiso é firme
e o meu coração não
meu corpo fica sugado
mesmo até à consumpção.

Porque o meu coiso diz sim
e o coração diz que não
fica o meu corpo sugado
até à contradição....

O coiso perde a firmeza
e nesta atrapalhação
o coração diz que sim
o coiso diz-me que não!...


Geraldes de Carvalho

segunda-feira, abril 30, 2007

O meu amor agora é como um rio





O meu amor agora é como um rio
que nasce breve e fundo nas montanhas
saltita enquanto engrossa,
desnivela.
Nada vê
só a ideia de um cheiro a sal
o orienta,
caindo lá do alto
em torrentes tumultuosas
até aos rápidos e às cataratas.
Corre e discorre sem nexo sobre os vales
como se se esquecesse de ser rio
mas volta sempre e sempre ao mesmo lago,
lago que são mil lagos na verdade,
como se se esquecesse de ser rio,
ainda que já sonhando com o mar.
Depois volta a espraiar-se noutros vales
correndo ora uniforme como um rio
ora como uma onda ou uma ideia
que de ser rio
se esquecesse
ou não quisesse ser.
Até que confluindo para o mar
se encontra enfim
e se desfaz
em ti
em ti
em mim.


Geraldes de Carvalho


de "18 poemas de muito amor e quase nenhuma circunstância"

quinta-feira, abril 26, 2007

Sistema psicossocial de chamar o nosso criado




Ó meu irmão da cor da noite
ó meu irmão vencido
escarnecido, envilecido.

Ó meu irmão espezinhado
escravizado,
sofredor
de todas as palavras de humilhação
que terminam em ado e em ido
e em ão,
sem esquecer o palavrão.
Ó comedor de bananas
e peixe seco
e carne seca e salgada
e farinha
e o tanas,
que em calão quer dizer nada.

Ó do pé leve,
ó corpo de danças
que são a longa preparação
para o acto breve,
em que se fazem crianças.

Ó filósofo da vida simples
e da fingida resignação,
preto da cidade,
irmão traidor do teu irmão.

Ó bebedor de cerveja
e cabanga,
enganador da fome.

Ó mandrião,
apreciador honesto
do valor do trabalho
- que não é nenhum –
mata-borrão do sol.

Ó nu de tanga
com gravata de cores.

Ó de óculos escuros
sobre olhos
inexpressivos como furos.

Ó olhos expressivos de ignorância
e de credulidade e dor.

Ó matador de branco
lá no teu coração,
vingador como Jeová
mas que teme o trovão.

Ó número inconsciente
de dezena
de centena
de mil
de milhão.

Ó imbecil,
ó moleque,
vem cá ao teu patrão.


Geraldes de Carvalho

Do livro "Novos e velhos cantos"

terça-feira, abril 17, 2007

Assim…Assim ...3


Sempre me escondo de ti,
sempre me escondo de mim,
para que não possas ver
quanto, como te amo
assim.

Porque se visses,
se me visses
e me amasses
como eu te amo a ti,
quanto eu te amo a ti,
eu ficaria em ti
escravo em ti
senhor em ti
como tu estás em mim,
não seria mais eu,
não poderia amar-te
assim.

Não te enganes por isso
se me ouvires cantar-te
o meu amor,
se me ouvires dizer-te
como, quanto te amo
porque aquele que diz
é o que diz e canta
não o que ama.

Assim
fico livre para amar-te.
não tanto
mas mais do que te digo
eu, o que não diz
o que se esconde de ti
o que vive em si
assim, assim
assim, assim…

Geraldes de Carvalho

De 18 Poemas de muito amor e quase nenhuma circunstância

sábado, abril 14, 2007

Agora é assim que escrevo. Não sei bem se melhor se pior mas, assim...assim.








Assim, assim…2



O que eu sou
não era há pouco
porque o só de pensar nisso
me transformou e deixou
como outro que eu não era
nem queria nunca ser,
ou quisera...
Dizei-me por isso agora
como vou poder viver
sem ser o que era há pouco
mas tendo disso o saber
como se fora
se fora
o meu neto
o meu avô
e, enfim
sabendo todo o futuro
e o passado também
como se a minha ascendência
e a minha descendência
vivessem dentro de mim
e eu fosse outro mas o mesmo
assim, assim...

gdec - Geraldes de Carvalho

1 dos 18 registados sob o título provisório de " 18 poemas de muito amor e muito pouca circunstância"

domingo, abril 01, 2007

Dialogo

O Diálogo


Por gdec






Quando era estudante, eu tinha uma enorme dificuldade com as línguas estrangeiras . Para alguns dos meus companheiros, aquilo era canja, como diziam.
Aí, arranjei uma teoria para me justificar. E era esta :
Saber uma língua estrangeira não era verdadeiro saber, era apenas ter um instrumento com o qual podia –ou podia não- aprender-se alguma coisa.
E tantas vezes exprimi esta ideia que acabei mesmo por acreditar nela.
Uma língua, argumentava eu, nada nos diz sobre o mundo em que vivemos, sobre quem somos ou sobre as ideias que temos .
Podemos utilizá-la para escrever um livro mas, para isso precisamos de ter o que dizer e o que dizemos com aquela língua não é a língua mas o, aquilo que com ela dizemos.
Podemos utilizá-la para ler um livro mas o que aprendemos lendo esse livro, é aquilo que está escrito e não a língua que foi usada para o escrever.
Por isso, dizia eu, se compreende bem como é que os textos usados para aprender as línguas eram tão estúpidos; do género: Eu escrevo com um lápis azul e o meu tio escreve com uma caneta amarela.
Felizmente, para mim, eu era um pouco melhor aluno da língua portuguesa.
Assim fui reparando que à medida que aprendia alguma coisa, por exemplo de física ou de geografia, eu ia incluindo as novas matérias na língua com que as falava, algumas vezes aprendendo palavras novas ou, mais comummente, enriquecendo as velhas com esses novos saberes.
Reparei, ainda, que os portugueses se entendem porque percebem, mais ou menos, o mesmo núcleo do significado das palavras mas que, na verdade, cada um acrescenta às palavras tudo o mais que viveu e aprendeu sobre a vida e o mundo, de maneira que não existe apenas uma língua portuguesa mas tantas e tão diversas como são diversos os nossos conhecimentos e as nossas experiências, se forem efectivamente diversos e na medida em que o sejam.
Que por isso é uma aventura ler um livro de um bom autor porque temos de adivinhar o significado de cada uma das palavras o que por vezes só se consegue à segunda ou á terceira leitura percebendo o significado de umas pelo significado das outras e aprendendo também, o significado das palavras, pelo conhecimento da vida e do mundo que o autor, com elas, nos transmite.
Que assim cada livro se multiplica pelo número dos leitores e das leituras e há mesmo quem acredite que algumas leituras podem melhora-lo
Mas que, verdadeiramente, nenhuma leitura chega a ser exactamente a reprodução do pensamento de quem escreveu o texto
Que, muitas vezes, o nosso diálogo é como se fosse entre surdos e muito nos espantamos porque não nos entendemos sem repararmos que estamos a falar de coisas diferentes ainda que com palavras aparentemente iguais.
Que, assim, para aprendermos uma língua estrangeira – ou, mais geralmente, para entendermos o outro - temos de aprender a cultura do povo que a fala – ou do outro- porque , se apenas aprendemos o pequeno significado nuclear das palavras, seremos sempre incapazes de exprimir os nossos sentimentos, as nossa ideias e as nossas intenções nessa língua e de compreender os sentimentos , as ideias e as intenções de quem a fala.
E entendi, assim, quase completamente – deixem-me acreditá-lo - porque é que aquele poeta. que todos nós amamos, disse que a sua pátria era a língua portuguesa.
E comecei a entender que, é verdade que Portugal está difundido por todo o mundo porque a língua portuguesa se fala por todo o mundo e quanto somos privilegiados porque, quando vos falamos, estamos a espalhar a nossa cultura e, quando vos ouvimos estamos a aprender a vossa.
Na medida em que nos entendemos.
Na medida em que nos entendamos.


gdec

Vivi 22 anos em Moçambique . Há dois ou três anos uma amiga minha foi lá para fazer uma série de palestras sobre a língua portuguesa. Ela é professora e escritora. Pediu-me um texto para ler .Dei-lhe este . Ela me disse que algumas pessoas que a ouviram ainda se lembravam de mim. Eu fiquei todo vaidoso...

gdec