Terça-feira, Julho 14, 2009
Domingo, Julho 12, 2009
Amo-te tanto
Amo-te tanto, meu amor
com tanta concentração
que às vezes nem sei se existes
ou não.
O mundo desaparece
não distingo nada
não.
Então
meu eu
também me esquece
e ao esquecer-me
se relembra
de mim
de ti.
Vejo então
que estão
tu e eu
dentro de mim
e é bom.
Geraldes de Carvalho
Segunda-feira, Junho 29, 2009
foi ontem
Foi ontem que nos casamos
E meio século se passou
sem que o sintamos.
Ontem éramos meninos
hoje somos ainda
mais pequeninos.
Ás vezes nos zangamos, é verdade
mas depois nos beijamos
de felicidade .
Outro meio século viveremos
eu e tu
depois virá uma estrela
ou uma simples quasar
e ficaremos eternamente
no ar.
Geraldes de Carvalho

Quinta-feira, Junho 11, 2009
8º evento -que é o mesmo que dizer 8º penduricalho-
O meu penduricalho mais barulhento começou hoje a queixar-se de que não lhe dou atenção alguma e que assim, disse, desisto, vou-me embora, deserto, abandono-te, deixo-te...
Espera aí, espera aí , disse eu : Vais-te embora como ? Como é que vais viver sem mim, tu que és apenas um pedacinho desprezível da minha mente ?
Ai, desprezível ? E esta dor, aguentas ?
Ai, ai, aiiii
E esta angústia aguentas ?
Aaaaaaiii...Pára com isso, pára com isso, por favor .
Vou hoje contar aquela coisa horrível que me fizeste tresanteontem , mas depois não te queixes.
Coisas horríveis eu gosto mesmo .
E foi assim que...Logo que me deitei comecei a sonhar uma coisa disparatada de que me não lembra nadinha mesmo .
Não me digam que vou ficar toda a noite nisto e vou acordar estourado de todo e, ainda por cima, sem saber porquê?
Não, não, disse a garota que estava a passear ao meu lado e ligeiramente à frente . Sabemos que és um rapazinho muito bem comportado mas isso será de dia, quando estás acordado , disse ela cantando e perlongando aquela vogal que rimava, assim: acordaaaaaaado.
Ó, ó parece que vou ter sorte, pensei eu e fui-me chegando . A verdade porém é que parece que nunca mais chegava junto dela embora me aproximasse cada vez mais.
Não me digam, meditei que estou aqui a encontrar aquele absurdo paradoxo da lebre que não pode agarrar a tartaruga porque ... ( bem . V.cês conhecem o paradoxo, ou não? ).
Apressei o passo e ela começou a rir . Era um riso de gozo, indecente e debochado . Reparei nos seus dentes podres que soltavam um cheiro insuportável.
Apesar de tudo continuava muito excitado a procurar apanhá-la e estava quase a tocar-lhe no braço quando o mesmo se desfez escorrendo para o chão com aquele mesmo cheiro que provinha dos dentes podres . Estava quase a apanhar-lhe o ombro mas aconteceu a mesma coisa. E foi acontecendo o mesmo enquanto eu estava quase a apanhar-lhe as mais diversas partes do corpo. Por fim ficou apenas a boca e os dentes podres com os quais ela conseguia continuar com aquele descarado riso. E eu, excitado e enojadíssimo, procurava agarrá-la pelos dentes quando acordei todo assarapantado, todo excitado, todo molhado.
ugsugsrrrsss...
Geraldes de Carvalho
Quarta-feira, Junho 10, 2009
7º evento
Esta noite não me deitei. Tinha muito que fazer no meu escritório . Faço muitas vezes estas directas e sinto-me bem . A questão é que possa dormir bastante nos dias seguintes.
Mas esta noite por volta das três horas deu-me um sono terrível. Procurei lutar contra ele mas foi impossível e acabei por por a testa em cima do teclado. Algumas das letras do dito começaram a fazer-me cócegas . O pior foi que o R começou a arranhar-me. Ele é nitidamente onomatopaico . Basta-nos olhar para ele para começarmos a coçar-nos . O meu azar foi que fiquei com o olho esquerdo mesmo encostado ao dito R e como não tinha premida a tecla das maiúsculas fiquei efectivamente encostado ao r , um r que, por ser pequenino, faz ainda uma comichão mais irritante .
Comecei a pensar como é que devia livrar-me daquilo . Uma solução seria a de desfazer-me do computador e voltar a escrever à mão com um lápis ou uma caneta e foi isso que imediatamente pus em prática
para descobrir, com o desgosto que imaginam, que dessa maneira já não sei escrever nada que uma pessoa normal possa ler.
Também podia tentar escrever ignorando propositadamente o r mas verifiquei que então se me tornava impossível escrever a palavra amor e ficaria com o meu pior ar de tonto escrevendo amo, amo . Ora sem amor nem vale mesmo a pena escrever. Sem amor nem mesmo somos nós mesmos mas um outro que inteiramente desconhecemos e com o qual até nos podíamos dar muito mal . Não não, concluí . Sem amor não, vale mais a comichão. E fiquei muito contente com esta rima involuntária que embora seja uma rima da mais baixa categoria me deixou tão satisfeito que até esqueci a comichão.
A comichão, concluí exultante não é senão a falta de amor. E fiquei a cantar : A falta de amor, a falta de amo..r..r..r.
A chatice toda foi que acordei enquanto esfregava o olho esquerdo, furiosamente.
Geraldes de Carvalho
Terça-feira, Junho 09, 2009
alma fugida
O que tenho de mim menos
é a alma.
Ela não aparece
quando eu estou.
Meus olhos não a vêem
nem é sensível
à minha apalpação.
Teus olhos não a vêem
nem é sensível
à tua apalpação.
Se um amigo se afasta
chora às vezes
mas logo se retrai se é apanhada.
Finge não existir
quando eu a quero.
Só no silêncio da noite me incomoda
Murmura aos meus ouvidos
sentidos indecisos
que me fazem acordar sobressaltado
pensando que sonhei,
não a senti.
Mas, alma minha
quando eu morrer
tu ficarás
na lembrança dos que me conheceram
dos que ouviram falar de mim
dos que me leram.
E ali viverás eterna
imorredoura
um ano, pelo menos...
Geraldes de Carvalho
Quinta-feira, Maio 21, 2009
...a perna e o quadril.
És tu, és tu ainda ?
És tu que estás aqui ?
És tu que me não larga ?
O que queres de mim. ?
Não te basta meu peito?
A perna e o quadril ?
e a mão que era guardada
no fundo do redil?
Queres também a alma
que eu fingia não ter ?
queres comer-me o olhar ?
a voz queres comer ?
talvez o meditar
também queiras comer
talvez tu queiras mesmo
comer o meu sonhar (?)
Estou aqui mulher
de ti não vou fugir
Vem mulher, estou aqui
brilhando
a refulgir.
Geraldes de Carvalho
Terça-feira, Maio 19, 2009
As palavras são ou não são ...?
Sim,
as palavras são demais
quando há amor.
Deixam sempre um resquício
um depósito
que não podemos aproveitar
nem para queimar
e aquecer-nos no inverno.
O amor necessita viver nas profundezas
de nós
lá onde não chega o som
nem, dos seres sonorosos, o vibrar
lá onde tu estás estática
como deusa ebúrnea
que todos nós
beijamos sem tocar
beijamos, assim, no ar
para não soar
e distrair-nos de amar .
Amar...?
Mas amar a quem ?
A uma deusa ebúrnea?
Bem...
Prefiro amar a ti
-um outro a ti-
de sangue quente
e vibrante
ainda que o meu amor
não seja puro
e o teu
não seja puro também.
Beijar-nos-emos assim
impuramente
tocar-nos-emos com nossos dedos
impuros
zangar-nos-emos às vezes
para podermos
beijar-nos e tocar-nos
mais
quando fizermos as pazes
que não serão cerúleas
não;
nos arrojarão
no chão.
Ali no chão
onde as nossas, muitas
palavras,
jazerão.
Geraldes de Carvalho
(de 41 poemas de muito amor e pouca futilidade)
Sexta-feira, Maio 15, 2009
Domingo, Maio 10, 2009
A tragédia da alegria -nova versão muito aumentada e modificada
A tragédia da Alegria
Quando o meu coração se enche de amor
a alegria extravasa pelos meus olhos
arrepanha-me os lábios
enche de sons a minha garganta
dilata-me o peito .
As minhas pernas saltam
os meus pés dançam
e eu me extasio.
Discretamente caminho pelas ruas
fazendo um enorme esforço
para não disparar.
O meu céu fica cheio de pássaros cantantes
as árvores cheias de frutos suculentos
e cada folha é uma flor.
Serão elas que eu ouço cantar
por todo o céu?
Elas as folhas-flores
As aves-frutos ?
As pessoas olham para mim
com olhar prazenteiro
Alguns desconhecidos
chegam a cumprimentar-me
Como está? Está bem ? dizem-me.
As crianças brincam comigo seus jogos prazerosos
Os velhos oferecem-me os seus últimos sorrisos
As mulheres... ó as mulheres, as mulheres.
Meu coração está cheio a rebentar.
A quem é que eu devo dar o meu amor ?
Aonde estás tu
aquela que eu amei sonhar
e amar ?
Como penteias os teus cabelos ?
Como desenhas o teu riso ?
O que pensas ?
como caminhas ?
Porque não vens ?
Devias vir
e dar sentido à minha alegria.
Devias vir
e dar a voz a este canto
Devias vir
comer os frutos suculentos na minha boca
Devias vir morder meus lábios arrepanhados.
Devias vir encher meu peito
apertar minhas pernas
beijar meus pés
cocegar minha barriga.
Devias vir
ameigar as aves
que adejam à minha volta
mas não pousam.
Devias vir
brincar comigo
feita como eu
uma criança.
Devias vir
aparar o riso dos avós
não os deixar dizer adeus.
Devias vir
devias vir
tu mulher
mulher
mulher.
Talvez assim
a minha alegria
não fosse
a tragédia
alegria.
Geraldes de Carvalho
foi ontem
Foi ontem que nos casamos
E meio século se passou
sem que o sintamos.
Ontem éramos meninos
hoje somos ainda
mais pequeninos.
Ás vezes nos zangamos, é verdade
mas depois nos beijamos
de felicidade .
Outro meio século viveremos
eu e tu
depois virá uma estrela
ou uma simples quasar
e ficaremos eternamente
no ar.
Geraldes de Carvalho
foi ontem
Foi ontem que nos casamos
E meio século se passou
sem que o sintamos.
Ontem éramos meninos
hoje somos ainda
mais pequeninos.
Às vezes nos zangamos, é verdade
mas depois nos beijamos
de felicidade .
Outro meio século viveremos
eu e tu
depois virá uma estrela
ou uma simples quasar
e ficaremos eternamente
no ar.
Geraldes de Carvalho
Domingo, Maio 03, 2009
6º evento
Quando hoje me levantei ainda estava com muito sono. Que é isto ? Parece que as noites não me servem para dormir mas sim para encher a cabeça de coisas atabalhoadas .
Calculem que esta manhã tinha uma quantidade de ideias na cachimónia que lutavam umas com as outras para conseguir assomar à borda da tampa e conseguir respirar um pouco.
Com estas ideias, vermelhas, congestionadas com o ar já respirado, não me admira que me sinta como se prestes a morrer afogado .
Mas havia uma ideia que parecia ter um pouco mais de fôlego do que as outras e as suplantava a todas. Era ela a ideia da minha importância no contexto social em que vivo. Que parvoíce ! Que importância pode ter um sujeito que nem sabe precisamente aonde põe os pés ?
Que importância pode ter um sujeito que nem sabe se os vizinhos o conhecem bem ou mesmo se o conhecem apenas ?
Ora aí é que tu te enganas, respondi-me. Quando penso em importância não quero dizer que seja muita . Pode ser muito pouca e até nenhum.Mas bem mostras que és homem porque importância só tem para ti o valor de IMPORTÂNCIA.
Mas que importância é que isso pode ter?
Pronto, já estás a sair pela esquerda baixa, pelo caminho dos jogos de palavras.
Não, não se trata precisamente de um jogo de palavras mas da constatação de que tenho de ser importante porque sou único. Já pensaste tu, eu, que estas ideias tontas que estás a ter são tontas mas são únicas de maneira que havendo, como há, biliões de pessoas nenhuma delas está a escrever as mesmas ideias neste momento .
E como é que tu sabes isso ?
É claro que tem de ser assim porque senão não teríamos importância nenhuma.
Lá isso é verdade, concluí antes de morrer sufocado.
Sábado, Abril 18, 2009
1º evento
Tenho a minha cabeça tão cheia destes acontecimentos nocturnos que vivo no terror de que rebente se não os despejar aqui neste papel que por sinal nem é muito apropriado .
Devia ter começado este relato já há mais tempo porque na verdade me esqueci já de muitos pormenores dos acontecimentos que me acontecem e aconteceram , de maneira que é perfeitamente natural que alguns deles, por que truncados , vos pareçam inverosímeis mas a verdade é que quanto menos consigo discernir os pormenores mais os acontecimentos me perturbam parecendo até que não estão dentro da minha cabeça mas fazem apenas parte dela assim como penduricalhos que apenas lhe entravam os movimentos .
De maneira que eu pareço eu e mais tantos, quantos os penduricalhos que arrasto na minha mente alguns do quais são tão diferentes dela mesma que ela mesma os estranha e tenta repeli-los o que não parece possível pois não só tais penduricalhos estão agarrados à minha mente como parecem ter raízes nela o que não me permite por vezes distinguir o que é a mente, o que são os penduricalhos e o que é cada um deles e o que é a minha cabeça.
Como isto me dói !
No entanto será necessário que eu comece por algum lado. Vou então começar pelo lado mais extremo de um desses penduricalhos para ver se não vem algum pedaço da minha mente agarrado a esta minha descrição .
Lembro-me perfeitamente de que esta complicação toda começou precisamente há vinte anos mas não me lembro se este episódio se deu há vinte anos ou vinte dias ou até, sei lá, há vinte horas.
Foi o caso que logo que me deitei ouvi uma voz a chamar-me que parecia vinda de debaixo da cama . Mas como sei muito bem que não tenho qualquer sentido de orientação levantei-me e dirigi-me para a porta da rua a qual no entanto, não me lembro de ter abrido ; não me lembro de ser aberta por mim -é assim que eu engano o meu computador que não sabe português e por isso marca a palavra abrido com um sublinhado vermelho o que é bem feito para a palavra abrido que é horrorosa - .
A verdade verdadeira porém é que me encontrei face a face com o meu velho professor da instrução primária, na pequena sala de estar dele. Ajeitava na mão a sua pequena mas grossa régua e queria saber se eu sabia o que era um advérbio. Ainda bem que o Sr. me pergunta isso porque ando há mais de meio século com ela entalada; desde que me perguntou o mesmo quando o visitei depois de entrar no liceu. Mas então diz-me lá o que é , insistiu ele batendo com a régua na própria palma da mão. E eu pensei : Vou-lhe dizer que é um adjectivo de um verbo para ver como é que ele se amanha com esta.
Apareceu porém por ali a linda mulher dele que trazia um prato de biscoitos na mão os quais me souberam tão bem que me esqueci do professor e dos seus advérbios os quais, bem lá no fundo do meu penduricalho, continuei a pensar que eram os adjectivos com que os verbos gostavam de brincar . Mas isso eu gostaria era de dizer ao ouvido da linda mulher do professor e parece que ele percebeu porque se retirou elegantemente deixando-me só com ela o que muito me surpreendeu porque sabia que ele não era grande amante de tais delicadezas.
Procurei então aproximar-me dela, a linda mulher do professor, mas a verdade é que quanto mais andava para ela mais me distanciava Olhei então para mim mesmo e descobri que isso era devido ao facto de que a cada passo que dava me encolhia de maneira que já estava mais pequenino do que quando entrei para a escola a primeira vez . Que chatice. Desta maneira se não me precato ainda entro na barriga da minha mãe -não pensei eu, porque não tinha, então, idade para pensar tal coisa -
A linda mulher do professor parecia-me agora era uma linda senhora, muito distante, à qual só me apetecia beijar os pés. Também era verdade que com a minha altura não lhe poderia chegar a outro lado do corpo que merecesse ser beijado, pensei eu muito admirado como é que, com tal altura, conseguia ter pensamentos tão marotos.
Comecei por isso a tentar afastar-me dela e a crescer à medida que me afastava . Tive por isso o desprazer de voltar a ver o professor que dizia qualquer coisa que eu não podia compreender . Também eu lhe respondi qualquer coisa que na verdade me saia da boca do fim para o princípio e da mesma maneira se processavam os meus pensamentos os quais só pude supor que não eram amigáveis . Em breve cheguei à porta da rua que se fechou à minha frente quando eu já estava dentro de casa . Muito me admirava como é que não tropeçava num dos muitos móveis que tenho na sala e no corredor embora o meu andar fosse ao para trás.
Em breve me encontrei deitadinho na minha cama e muito contente por estar a dormir tão profundamente que era um regalo.
Catrapaz...(corrigido)
Paz paz paz
ratapaz paz paz
catrapaz paz paz !
É assim
no nosso mundo
a paz.
Contradiz-me
se és capaz.
- não a mim...-
Nisto me fundo
porque o papa
papa papa
rapa rapa
e tudo esconde
em sua alva saca.
Porque o rei
o rei é roque
ou nem é rei
nem é roque
(talvez escroque)
E o presidente-ministro
não preside não ministra
insisto
não ministra não preside
catrapisca pro seu bolso
pro seu bolso
fundo e falso.
O banqueiro
é um senhor
que se amanha
com o suor
de outras testas
sim senhor .
E os outros
mercantilistas
capitalistas
pois então
são artistas
da rapinagem
ladroagem
é o que são.
Tu és branco?
Ratrapaz.
Amarelo?
Catrapaz.
És vermelho ?
Catrapaz.
Tu és preto ?
Ratrapaz, paz, paz-
Trazes cruz ?
Raprapaz, catrapaz.
Trazes lua ?
Catrapaz, ratrapaz.
Tu vens livre ?
Livre estás ?
Catrapaz e ratrapaz ...
E querem vocês a paz
ratapaz ?
É o que querem
catrapaz,
paz, paz e paz ?
Geraldes de Carvalho
Quinta-feira, Abril 16, 2009
2º evento
Meu sono, porém não durou tanto como eu queria.
Voltei a acordar surpreendido por um som que parecia mesmo o chorar de uma criança. Este sim, que vem mesmo de debaixo da cama, pensei eu.
Levantei-me e introduzi-me num alçapão que sem surpresa, encontrei ao lado dos meus sapatos.
Andei um bom bocado por um terreno bastante árido até que encontrei ali o Rodrigues que parecia vir de um encontro com um grupo de terroristas . Arfava ruidosamente como se estivesse a ter um ataque de asma e produzia um som que agora me parecia mais semelhante ao miar de um gato. Pedi-lhe que me contasse o que lhe acontecera. Ele fez-me um gesto que significava que não podia falar porque não tinha ar suficiente no peito.
Esperei um bom bocado até que finalmente se tranquilizou ao mesmo tempo que a sua cara se transformava de maneira que me parecia ser o Guedes .
Como podia ter-me enganado tanto, pensei, uma vez que o Guedes não é nada parecido com o Rodrigues . Mas quando abriu a boca reparei que o seu tom de voz era mesmo o do Rodrigues . Não importa cogitei eu então. Tanto me faz que seja o Guedes como que seja o Rodrigues . A questão é que me conte rapidamente o que lhe aconteceu, antes que me aconteça também a mim .
Tal pensamento pareceu-me muito engraçado e tanto que comecei a rir descontroladamente fechando os olhos . Acabei de rir ainda com os olhos fechados e, na verdade, sem saber porque me rira e comecei a ficar com o medo de que o Guedes-Rodrigues tivesse desaparecido.
Depois de um grande esforço consegui abrir o olhos e mesmo na minha frente estava o Guedes-Rodrigues que com a voz deste me disse, ao mesmo tempo que me abraçava, que estava vindo da festa da nossa anual reunião de curso. Que eu fora muito indecente por não ter querido ir apesar da insistência dele mas que afinal ninguém reparara na minha falta nem perguntara por mim. Nem mesmo, disse, a tua antiga namorada, que engordou brutalmente.
Aquilo irritou-me sobremaneira de modo que o sacudi firme mas disfarçadamente . Foi então a vez dele começar a rir fazendo uma cara muito feia com a boca aberta e os olhos fechados. Fiquei a olhar para ele como que fascinado com aquele esgar e demorei a perceber que ele não saía dele. Óh diabo, pensei, isto é um bocado perigoso o melhor é eu ir-me deitar na minha caminha.
E assim fiz . Adormeci rapidamente e dormi tão profundamente que era, foi, um regalo.
Geraldes de Carvalho
Terça-feira, Abril 14, 2009
3º evento
Acordei de manhãzinha cedo e ainda cheio de sono não percebo porquê pois dormi quase nove horas e não tive, que me lembre, sonho algum. Deve ser por isso mesmo porque ouvi dizer que os sonhos nos fazem muito bem.
Pus-me depois a meditar sobre o penduricalho que devia usar na minha próxima descrição.
E resolvi utilizar um que pende demasiadamente do lado direito do coração, direito para quem esteja dentro dele, é de ver.
Vejamos pois o que o penduricalho diz:
Que estou enganado sobre tudo o que escrevi até agora. Que nada daquilo é o sonho que eu, sub-repticiamente, queria que vomecês julgassem que era. Que nenhum sonho se processa daquela maneira . Que em todos os sonhos nós matamos a nossa mãe ou, pelo menos, o nosso pai ou um tio ou uma tia se eles é que fizeram de pai ou mãe . Que na nossa descrição nem a mãe nem pai, nem o tio nem a tia sofreram a mais leve beliscadura e que por tanto, por conseguinte, o nosso texto não passava de uma droga, que era, na verdade, um texdroga ou uma drogtexta .
Não me zanguei com aquilo . Efectivamente eu mesmo, ou seja o lado monolítico do meu cérebro, concordava com cada palavra, ponto por ponto.
Como é que eu ia descalçar aquela bota ? A verdade é que eu não matara nenhum dos meus progenitores nem tinha tios ou tias que pudesse matar e não podia dizer o contrário porque a verdade acima de tudo, acima de tudo a verdade.
Bom, se é preciso matar alguma coisa vou contar como é que, com a ajuda do penduricalho, tive de matar o gato da minha vizinha. Foi o caso que o mesmo, maldito, resolveu vir parir os seus gatinhos dentro do meu quintal. Descobri-o infelizmente já muito tarde quando ele, ela, já tinha parido meia dúzia de gatitos . Estava enfiada no meio da lenha que tenho amontoada a um canto do quintal e mal me tentei aproximar começou a bufar como uma danada . Afastei-me prudentemente mas naquilo que na altura me pareceu o dia seguinte voltei lá. Ela afastara-se certamente para procurar comida em algum lado e eu aproveitei para me aproximar do gatinhos, peguei um deles e pû-lo, por cima da parede, no quintal do vizinho que era onde eles pertenciam.
Voltei ao monte de lenha e peguei outro gato. Foi então que a gata apareceu e se atirou a mim enraivecida.
Opus-lhe o braço direito que sacudi violentamente e foi bater com força no muro do jardim que estava perto.
Ficou um bocado assarapantada e eu aproveitei esse facto para me desfazer do gatinho que tinha na mão esquerda e apanhar um pau que estava ali à mão de semear.
Ainda antes que a gata se levantasse mandei-lhe uma bordoada que a imobilizou definitivamente.
Peguei então nela e nos outros gatitos todos e foi tudo para o quintal do vizinho aonde pertenciam.
Vejamos o que dizer desta descrição :
Em primeiro lugar usei por engano um penduricalho do coração em vez de um penduricalho da mente .
Surpreendentemente o penduricalho do coração foi mais violento do que os penduricalhos da mente .
Este evento não aconteceu à noite mas de dia, embora num dia bastante chuvoso, deve dizer-se.
O evento deixou-me com uma fome de morrer .
Geraldes de Carvalho
Sábado, Abril 11, 2009
Quinta-feira, Abril 09, 2009
O 5º evento
Quando acordei a meio da noite apenas vi um olho. Duvidei que fosse o meu próprio e suspeitei que era do outro, esse tal que me espreita todo o dia. Que estaria ele a espiar ?
Daí a pouco comecei a perceber porque me vi a curta distância nu e deitado de barriga para baixo. O que é que eu estarei ali a fazer, me perguntei .
Esperei que me mexesse e esperei muito
mesmo e tanto que acabei por adormecer. Ainda bem porque logo me apercebi de que estava a espreitar, atentamente, a terra à frente do meu nariz . Que poderia eu encontrar ali . Só terra ou algum bicho insignificante.
E tinha razão porque depressa comecei a ver um bichito que se movia decididamente mas sem direcção definida.
Interessante aquele bicho, porque parece mover-se com a desenvoltura de um homem .
Afinei melhor a vista daquele olho e vi que na realidade aquele bicho era um homem que crescia à medida que eu sintonizava o olho para aquela imagem.
Aonde vai ele, o homenzarrão ? Na verdade parecia que eu andava por ali sem nenhuma razão . Andava por aqui e por ali.
Óh assim não! pensei. Para me ver assim, não preciso de dormir e acordar e adormecer outra vez. A minha desorientação é apenas aparente. Há muitos lugares para ir desde o céu até ao inferno.
Mas quê? Que céu ? Mas quê ? Que inferno?.
Que mania aquela, daqueles bichitos. Não se contentam com menos. Só palavras grandes é que têm naquelas cachimónias.
O céu é aquele pedaço de terra que tem em frente dos
olhos e o inferno, idem, idem, aspas, aspas.
Como eu gostaria de dizer isto, aquele bichinho. Mas não podia, não senhor. Eu estava dormindo atrás daquele olho que pertencia aquele outro.
E continuei ali deitado de borco a contemplar um bicho que andava por ali bastante às aranhas procurando pelo céu.
Ou seria pelo inferno ?
Geraldes de Carvalho
Sábado, Abril 04, 2009
Germina na minha cabeça um poema
que não semeei .
Talvez saia uma monstruosidade
ou qualquer outra coisa,
que não sei.
Talvez saia uma estrela do mar
ou uma estrela
que seja quasar
ou aquela que tenho no peito
e se demora muito a mostrar .
Talvez saia apenas uma flor
que solicite chorando
ser regada
já
antes que, meu amor,
se desfaça
em puro olor .
Mas seria, amor, uma pena
porque não lembraria
o poema.
Geraldes de Carvalho
Quinta-feira, Março 26, 2009
Foder é uma exaltação
é uma festa no fim deste mundo
do mundo que começa e acaba
nas nossas cabeças .
É a foder que nos conhecemos a nós mesmos .
Não nos é permitido fingir ou disfarçar
porque é o momento de morrer,
o momento da última seriedade .
A foder nos desfazemos de nós
de tudo o que está velho
e mesmo podre
para nos reinventarmos
e morremos velhíssimos
e renascemos menininhos.
Foder não é metafísico
não.
É dialéctico
como tudo o que é são .
Geraldes de Carvalho
Quarta-feira, Março 25, 2009
Queria esquecer, amor
que me esqueceste...
O nosso amor foi lindo, amor.
Andamos numa roda gigante
e fomos do inferno para o céu
apenas num instante.
E eu ao ouvir apenas
a tua voz
fiquei logo a saber
que eras tu
o feiticeiro de Oz.
Um feiticeiro diferente
porque senhor
verdadeiro
de feitiços de amor
e, além disso,
vidente.
E só de olhar apenas
os lábios teus
me ajoelhei ouvindo-te
como se fosses deus.
E é por isso
que eu queria esquecer
que fui esquecido
assim .
Embora eu sempre diga
que tu não és ruim.
Quem é ruim
sou eu
que te deixei esqueceres-te
de mim
Geraldes de Carvalho
Domingo, Março 22, 2009
-ode-
Quando o meu coração se enche de amor
a alegria extravasa pelos meus olhos.
Arreganha-me os lábios
até ao céu.
Enche de sons a minha garganta.
O meu peito rebrilha, como uma estrela.
As minhas pernas saltam.
Os meus pés dançam
e eu me extasio .
Discretamente caminho pelas ruas
fazendo um enorme esforço
para não disparar .
O meu céu fica cheio de pássaros cantantes .
As minhas árvores cheias de frutos suculentos
e para cada folha há uma flor.
Serão elas as que eu ouço cantar ?
As pessoas reparam em mim com olhar prazenteiro .
Alguns desconhecidos chegam mesmo a cumprimentar-me.
As crianças brincam comigo seus jogos esfuziantes .
Os velhos oferecem-me os seus últimos sorrisos .
As mulheres ... ó as mulheres as mulheres...
A quem é que eu devo dar o meu amor ?
Meu coração está cheiinho a rebentar.
Aonde estás tu aquela que eu sonhei amar ?
Como penteias os teus cabelos ?
Como é o teu sorriso ?
O que pensas ?
O que sonhas, tu ?
Como caminhas ?
Por que me não ouves ?
Porquê ?
Será que até a minha alegria
terá de ser mesclada de tristeza
quando o meu coração se enche de amor ?
Geraldes de Carvalho
E foi então que
quando a tua boca se aproximava
me esqueci de ti
-de quanto queria
beijá-la-.
Quando a tua mão se estendia
me esqueci de que sentia
-de quanto queria apertá-la-.
Quando os nossos olhares se cruzaram
me esqueci
de que sabia olhar
-de quanto queria abraçá-los
e afundar-me neles-.
Quando a palavra soou
me esqueci
de que sabia ouvi-la
-de quanto queria guardá-la
e cantá-la também-.
Por que será meu amor
que quase quero
quase te quero
quase te abraço
e te beijo
quase te ouço
e te vejo
quase te guardo
e te amo
meu amor!
Geraldes de Carvalho
Sexta-feira, Julho 25, 2008
Você responde como se fosse carne, mas é luz.
E a luz não se esgota quando a pensamos. Ela dá mil voltas ao universo e continua luz. Assim todo o universo será um dia luz. Nesse dia os sonhos serão a realidade e nós nos sentiremos grandes perante ela. Porque ela seremos nós.
E que será então feito das palavras? Ó as palavras se extinguirão porque elas não conhecem a luz. Persistirá apenas a Palavra . Não a de qualquer deus mas a nossa, depurada pela luz, feita luz.
E como será a poesia então ? A poesia seremos todos nós porque a nossa vida será um cântico perpétuo.
E vem longe, essa tua visão ?
Não. Perto. Não mais do que um milhão dos teus anos . Será apenas um sonho. Podes vivê-lo numa só noite.
Geraldes de Carvalho
Peço muita desculpa mas retirei todas as fotografias iniciais porque produziam a ilusão de que nada fora publicado depois delas .
E se bem que seja verdade que nada do que foi publicado vale mais do que elas a verdade é que o que foi publicado precisa por isso mesmo mais do blog do que elas.
Entenderam ? Eu não...
Domingo, Janeiro 27, 2008

A edium tem o prazer de anunciar a edição da Antologia Poética 2008, Amante das Leituras, para o próximo dia 31 de Maio.
Alexandra Oliveira, Ana Maria Costa, Carlos Alberto Roldán (Argentina), Carlos Luanda, Denilson Neves (Brasil), Geraldes de Carvalho, Jorge Vicente, José-Augusto de Carvalho, José Dias Egipto, José Gil, Manuel C. Amor, Maria João Oliveira, Maria Rita Romão, Mónica Correia, Paulo Themudo, Samuel Gomes, Túlio Henrique Pereira (Brasil) e Vera Carvalho
Sou eu, sou eu...
( 3ª ou 4ª correcção)
Sou eu
o anjo ou o demónio
ou a serpente
que a Eva ofereceu
o fruto da ciência
e, por isso,
ou outra coisa igual,
o tal deus
me castigar.
-E não é erro não
porque deus não tem tempo
e é, por isso
o verbo inconjugado
no infinito eterno...-
Que homem, esse deus!
Certamente queria
ficar com todo o saber
para vos manobrar
como, se ,lhe apetecer.
E também
me é difícil entender
porque é que o tal deus
me castigou
se conhecia
que o homem
apenas mastigou
o fruto que, de verde, mal sabia
-e, se bem bonito parecia
era, afinal bichado-
e o cuspiu no rosto da mulher.
-Pobre mulher cuspida
por dar a maçã e a vida-
Apenas engoliu,
o homem bruto,
um pouco desse sumo
que lhe ficou na boca
da maçã mastigada
que nascera na árvore
mal formada
desse mundo
que o tal deus criara.
E o pior foi que com esse sumo
ainda engoliu
- e é com isso que me nutro-
o bicho que ali vivia
e a viver continuou
lá -cá- dentro
do homem bruto.
E foi assim, posso afirmar
que foi criado o mundo
para o homem habitar
Mundo horroroso enfim
em que todos os animais
se comem uns aos outros
e também a mim
assim, assim...
Geraldes de Carvalho
PS.
Melhor fora, talvez
que a deus comessem
e acabassem
com a criação
de vez.
gdec
Lá longe
Estamos aqui tão longe
tão quentinhos.
Nem ouvimos as bombas
os morteiros
os gritos
os urros
os lamentos
os estertores.
Poderemos achar
que uns têm razão
e os outros não.
E o que é bom
é nós podermos
saborear
e engolir mesmo
a nossa poesia
com palavras bonitas
e difíceis
plenas de fantasia
sem horrores
que credo !
Jesus !
são lá longe
tão longe...
bem longe...
lá longe.
Geraldes de Carvalho
Queria dormir para sonhar
(melhorado)
Queria dormir para sonhar
que isto não aconteceu .
Que não foste tu
quem me não amou não
Não foi o meu vizinho
nem foi o meu amigo
nem foi o meu irmão.
Nâo foi o meu parente
nem este
nem aquele
qualquer,
nem o outro
que é homem
ou a outra
mulher.
Que não foi nenhum de vós
quem me não, não amou .
Nenhum deles, ó céus !
Foi o que vivi eu
enquanto não sonhava
que isto
não
aconteceu.
Geraldes de Carvalho
...é velho
Meu coração é velho .
Não como são velhas as coisas e mesmo as ideias mas como são velhos os sentimentos, as sensações.
Ele é velho.
Às vezes custa-me bastante carregá-lo porque ele pende de todos os lados, escorre e fica-se pelos caminhos .
É preciso voltar para trás, apanhá-lo, aconchegá-lo, moldá-lo naquela forma que é característica, só dele, coração .
Ele não chora, não sussurra, não pede. Grita, exige como se fora novo, como se fosse novo . Mas
é velho, muito velho.
Meu pobre coração é velho.
Meu coração não cabe dentro de mim . Extravasa para ti, por ti, para o outro para a outra para toda a gente. Tu não o queres, eu sei, mas ele extravasa e
é velho.
Meu coração estranha-se de ti em ti e entranha-se também em ti e estranha-se nele mesmo como nele mesmo se entranha.
Onde estarás tu, meu coração?
Meu coração é velho.
Perdi-te nos labirintos do meu não ser, coração.
Quem te encontrará, meu coração ? Quem perscrutará os arcanos do seu sentimento em busca de ti, meu coração ?
Sendo grande como é
meu coração
cabe bem
na palma da minha mão
mas é velho.
02-12-08
Geraldes de Carvalho
Vem, ó vem
Vem, vem, vem
minha senhora poesia.
Vem
estou aqui
nu
pronto para te receber
e celebrar contigo
os secretos mistérios
da desencarnação.
Vem, vem
minha querida
ninguém perturbará
os sonhos
que são nossos
e temos de sonhar.
Vem vem
dormir
nos meus braços
ouvir o doce acalanto
que desde o princípio do tempo
te estou a sussurrar,
no vento.
Vem
meu amor
meu coração te espera
com doces palpitações
que se ouvem
em todo o universo,
cá perto
lá longe.
Quero sentir-te
aqui
junto do peito
aninhada
como se fosses
a lobazinha
que é minha
porque me está destinada.
Vem e toma-me
sou teu
já não sou meu
já não sou eu.
Geraldes de Carvalho
(de 48 poemas de muito amor e pouca futilidade)
Aos que não entendo
Ó como gostaria entender-te, meu bom amigo
descobrir nas tuas palavras um sentido lógico
ou, pelo menos, discernível
que me revelasse um pouquinho do teu pensamento
e também, se possível , dos teus sonhos .
Não ficar a olhar para elas como um tolo ignorante
de boca aberta.
Descobrir o teu sentido da vida
dessa vida que só posso imaginar
que será como um palácio do Sec. XVIII
e próxima dos deuses que habitam na tua mente,
suponho eu .
Mas não
não consigo senão ler um amontoado de palavras
que na maior parte das vezes nem rimam com a música que ouço no universo
e muito menos me dizem o que quer que seja que se passa nas tuas ruas
e ainda menos o que late no teu coração
o qual, no entanto, me parece sincero
e morto por dizer qualquer coisa que eu entenda.
Um coração que apesar de não o entender
me apetece acariciar
porque suspeito que é bom e honesto
e cheio de compreensão por um homem como eu
que não sabe exprimir-se sem se dar a conhecer.
Ficaremos condenados meu amigo,
meu bom amigo,
a passarmos um ao lado do outro
como se não pertencêssemos à mesma espécie
como um burro que sou eu
ao lado do homem que tu és
fazendo o favor de não me cavalgar
e mostrando-me mesmo um sorriso que é bom
e amistoso,
eu suponho.
Geraldes de Carvalho
Soneto -que não cheguei a escrever-
Hoje vou escrever um bom soneto
uma bandeira contra a obscuridade
soneto onde lampeje a claridade
nas coisas que sabemos em secreto.
Um soneto em que só diga a verdade
desta mentira a que me não submeto.
Um soneto que seja tímido e discreto
mas que se ouça bem alto na cidade.
Mas, meu amor, para escrever assim
seria necessário -ó meu amor-
que eu fosse O que não quero acreditar.
Sou apenas poeta e sou, enfim
que o meu amor e os céus, maior,
maior que deus, igual ao meu sonhar.
Geraldes de Carvalho
perdi meu eu
(poema em obras)
Meu eu
já não é meu
meu eu
morreu.
Agora o que é que sou ?
Não sei.
Talvez seja
o que ficou
do que foi
e morreu...
Meu eu
não choraremos, não
viveremos assim
como se nunca
o tivéssemos conhecido
pois então.
Ele não nos amava
-pobre de mim-
Às vezes arremedava
gostar de nós
é bem verdade
Era um intrometido
disfarçado
de amigo
mas quando lhe cheirava
a esturro
olhava outro lado
como se não
nos conhecesse
e era tudo.
Ora assim não importa,
ora assim não interessa,
vá bater a outra porta
que está fechada,
esta.
Bem sei
que fiquei pobre
eu
mas que hei-de fazer
É bem melhor
ser pobre
do que viver emprestado
com o que é nosso
mas nunca nos foi dado.
E se alguém nos olhar
nos nossos olhos
saiba, de vez,
que não estão a chorar
embora lhes apeteça
...talvez.
Geraldes de Carvalho
O cisne quando cantou
amarelou.
Ele sabia que era
um cisne
e não podia cantar
por isso teve de amarelar
para se disfarçar.
Cantava assim :
Quem me dera não ser cisne
negro ou branco
não queria...
mas não canto
nem parece que sou ave
esta é a realidade.
Posso pensar
já se sabe
mas pensar
não é próprio
de mim
que sou ave
assim, assim
mas não canto...
Posso exibir
meu pescoço
longo
flexível
esguio
próprio de deusa
...e cantar
mas não canto.
Seria bom existir
mesmo no fundo do poço
sem que ninguém o soubesse
se eu ali pudesse estar
a cantar
-cantava ele
sem que, porém, o soubesse-.
E amarelou
sem saber que amarelava.
E pensou
mas não sabia
que pensava.
Era cisne
e lhe bastava.
Mas como não parecia
e tinha uma graça tanta
espantava
quem o via
quem o ouvia.
Será que ainda hoje espanta?
Geraldes de Carvalho
Espasmo ôntico
Como um tal
meu pensamento tremula
quase desmaia
e eu no meio
ali sem nada saber.
Ó, quem dera não o ter!
Melhor fora
ser saudável
e gostar do futebol
ir às festas e bailar
que, como um louco, pensar
em coisas que nem eu sei
me deixam assim parado
como doente espasmado
a pensar se existo ou não
se sou homem se sou cão.
Cão eu deveria ser
gosto dos ossos que tem
meu pensamento
meus dentes são fortes são
cadelinhas são meu fito...
Cadelinhas são meu rito.
Podem os homens morrer
nas guerras que organizam
e as crianças padecer
cheias de fome nas pontes
-quando há rio...-
Eu cá por mim não me importo
enquanto estou a sofrer
enquanto estou a gozar
como um bônzio
neste meu espasmo ôntico.
Que merda, ein!
Geraldes de Carvalho
(de quarenta e tantos poemas de muito amor...Jul./08)
Vento verde. Assim,assim...
Perguntam se há vento verde...
O tenho dentro de mim.
de viver sem ti.
Vento verde é amargura
de ter-te a ti
mas não ter-te
dentro de mim.
Vento verde é esperança
de um dia chegar-me a ti
dizer-te
te quero muito.
-Tu não me queres a mim-
porque não mudas de cor ?
Só se fosses amarelo
é que serias pior.
meu vento
podia passar por ti
e nem te ver
e no entanto
te ter
escondido
aqui,
aqui.
vento no ar
vento azul não quero não
não me apetece voar
-também não sei
é de ver.
é o que corre
não dentro mas sobre mim
vai-te embora vento preto
não te quero a ti, aqui.
e para a ter
a gente vai a voar
de encontro a ela
e quando está a chegar
apaga-se
ficamos cegos
no ar...
Vento vermelho não quero
tenho muito que aprender
para o poder
ter.
é carmim
é o que quero
mas não
não gosta de mim.
Não julguem que é porque rima
porque é mesmo assim
assim.
que outra cor há
que o vento possa ter ?
pode ser.
É cor de menino infante
como sou
ou gostaria ...
Mas cor de burro não quero
é burra
e eu sou esperto
ou era
quando menino...
agora não posso ser
penso demais
aí está.
Quem demais pensa
embrutece
é claro.
E se for o vento
motivo do pensamento
emburrece
e voa, aboa
não vai parar a Lisboa.
-Mas se fosse?-
não mude de cor e assim
não mude
não mude
a mim
Assim, assim...
assim, assim...
Geraldes de Carvalho
Será ?
Platão, meu sábio amigo
meu velho companheiro velho,
senta-te aqui
ao pé de mim
e responde-me só
a uma pergunta
que é simples
para ti :
Agora,
neste tempo
nesta hora
em que a tua caverna
cresceu até à lua ,
...e um tanto para lá .
Agora, que as sombras que vislumbraste,
e vislumbrar podemos,
estão para além dos confins impossíveis do universo
aonde não nos perdemos,
não vestem de preto e branco
mas desfilam vaidosas,
preciosas,
caprichosas
enfeitadas
com todas as cores do photoschop
e parecem,
como aparecem,
quando aparecem
estrelas, quasares
planetas , nebulosas e buracos negros...
Será que ainda acreditas
que é tudo fantasia
e que a verdadeira realidade
está dentro da tua cabeça,
que é necessário abrir
com o martelo da instrução elaborada
para aí a descobrir
maravilhosa
mas, também ela
-digo eu, ó meu!-
fantástica
fantasiosa .
Será , Platão
...ou não ?
Geraldes de Carvalho
(de 42 poemas de muito amor e pouca futilidade)
Eu escrevo cão...
Eu escrevo cão
ele mia
se escrevo gato ladra
já se sabe.
Nada é como pensei
Mesmo eu sou
um tanto desencontrado
porque se quero sonhar
penso nisso
e no pensar
lá se vai o meu sonhar
Se pensar é o que quero
já sei ponho-me a sonhar
e no sonhar
não penso nada que preste
lá se vai o meu pensar.
Mas construo um outro mundo
que não vos posso mostrar.
Mesmo se quero dormir
penso como deve ser
dormir é bom,
deve ser,
porém dormir não consigo
fico acordado, é de ver.
Também quando quero amar
não sei a quem
mas amo quando não quero
amo
mesmo que não tenha
ninguém.
Para amar eu não preciso
de ter um outrem a quem
- podemos mesmo amar-Nos
ainda que não seja bem-
...ou será?
Mas amar quando não quero...
e quando te tenho a ti
é uma mania chinfrim
digo assim
assim...assim.
(de 40 ou 41 poemas de muito amor e bastante promiscuidade)
Está tudo louco. Assim, assim...
do estaminet
- que palavrão
congeminei -
e encontrei
o mundo louco
Pois é :
Minha mulher
já não tem boca
para eu beijar
ela está louca.
Pode não estar?
E as loucas pedras
do em..empedrado
põem-se em frente
de mim, coitado.
Os transeuntes
trocam os passos
trocam os pés
trocam as pernas
e cada um
vai com as dos outros.
- estão todos loucos -
Minhas palavras
já não se entendem
umas co...com as outras...
Só me apetece
mais um copinho
mas vinho é, é... louco
e louco é, é... vinho.
E até a lua
ó minha mã...mã e
julgo que está
louca também.
Estava ao sul
ali ao fundo
daquele paul
-lin...linda palavra
aquela ao sul -
Estava ao norte
ali no cimo
daquele porte
...porta.
Aonde está?
Está louca, sim
mas para mim
já tanto dá
já tanto importe
...importa.
Olho para ela
não posso olhar
seu brilho louco
vai-me cegar
E te encontrei
a...migo meu
anda práqui
que pago eu.
Mas quem és tu
a...migo meu
não te conheço
serás um louco
que me encontrou?
Loucos não quero
ao pé de mim
foge. Ttrim-trim
É a sirene
não toca bem
creio que está
louca também
Vem-me buscar
a ambulância
toca trim- trim
assim, assim...
( de quarenta –ou coisa assim- poemas de muito amor e pouca promiscuidade )
peixe no poço
Lá no meu poço
Aves,aves,aves
Aves azuis
que mal se vêem
no céu azul
são minhas marcas de ser.
Vermelhas fossem
era melhor.
as minhas aves
mudam de cor
Voam rasteiro
pousam em mim
de que cor são?
aves que são,
bicam-me aqui
no coração.
ao fim do mundo
bicando aqui
bicando ali
com bico agudo
pois ave sou
do coração.
medo lhes tenho
se são escuras
e barulhentas
como são, são.
(de trinta e nove -ou coisa assim- poemas de muito amor e pouca promiscuidade)
Assim, assim...
Meu louco pensamento
cresce cresce e arrebenta.
Espalha esporos
dos limítrofes para o centro.
Esporos que hão-de germinar
e gerar
mais pensamento
até me sufocar,
me afogar.
vem até mim
por favor
a cantar
velhíssimas romanças.
Fala-me brando
diz-me que sou o teu amor
para que eu possa adormecer
e por fim
nada mais ser
e nada mais
pensar
assim, assim.
Não, não me comas
olhos de lua
essa é a minha alma
não é a tua.
Se me quiseres
fica emprestada
por três mil beijos
é quase dada .
Quando eu quiser
estás avisada
das-ma de volta
mas bem beijada.
Geraldes de Carvalho
de 33 ou 34 poemas de muito amor e pouca trivialidade
Assim, assim...-5
minha irmã
minha vida
minha amada
minha tudo
e nada
porque nada sou
porque não sou nada.
E porém
o nada de que sou
construido
é tudo à minha volta
e faz sentido.
Terra,
terra castanha escura
dos meus terrores
e verde ou amarela dos meus sonhos
e negra dos meus outros sonhos
de todas as cores.
Como me esqueço de ti
como me esqueço de mim.
Porque me esqueço de ti?
Porque me esqueço de mim.
De ti nasci
A ti beijei
e abracei
e engoli
até que em ti fiquei
até que tu ficaste
em mim.
Por isso é que te esqueço
por isso te esqueci.
assim, assim
assim, assim...
Geraldes de Carvalho
27-03-08





DE MIM -com a câmara do computador
PARA MIM -com a ajuda do Grafhic Converter
Geraldes de Carvalho
Simples lírica -
Post. em 28-01-08 :
Quarta-feira, Janeiro 16, 2008
Geraldes de Carvalho
em “a outra luta de Jacob” - Beira-Moçambique 1964
Domingo, Janeiro 13, 2008
Quarta-feira, Janeiro 09, 2008
Quinta-feira, Dezembro 27, 2007
Quarta-feira, Novembro 28, 2007

Quadras...( Algumas não são ) populares - por antífrase -
Quarta-feira, Novembro 21, 2007
Sexta-feira, Novembro 16, 2007
Sábado, Novembro 10, 2007
Eu sou,ai eu sou...(IV)
Terça-feira, Novembro 06, 2007
Adolescente
Dos anjos...poema-prosa . Incompleto
O que mais invejo nos anjos é a possibilidade de se tornarem demónios. Qual há aí, de entre vós, que não cobice o papel que os deuses deram a Mefistófeles? Pois não somos todos uma tentativa de demónio a fugir perpetuamente de uma cruz? Mas ela acaba sempre por nos apanhar, porque os seus braços só terminam no Infinito, e por isso o nosso fracasso como demónios. Vingamos mais como deuses, à maneira de Cristo, deixando-nos crucificar. Mas ainda aí nos apanha a nossa insuficiência, porque não somos capazes de morrer antes da hora nona, e vêem os soldados para nos esmigalhar os ossos!... Então lhes mandamos um pontapé pelos queixos e lá se vai o «perdoa-lhes ... »
Ressuscitar é o que custa menos. Todos os dias ressuscitamos de nós mesmos e parece que não nos admiramos pelo facto. E quem é que nos mata? - És tu. Sim, és tu. Quem te mandou a ti obrigar-me a olhar para o alto? Quem nos mostra o céu é sempre um assassino. O ferro entra-nos pelos olhos ... da alma e o ferro tem a forma de uma cruz. E porquê uma cruz? Só a cruz é tudo ...
Geraldes de Carvalho
de Sombras de Alma -Coimbra 1955
Sexta-feira, Novembro 02, 2007
Diz-me lá -em construção mas, se eu morrer, vale mesmo assim.-
Quarta-feira, Outubro 31, 2007
Eu sou ai eu sou -VI-
Terça-feira, Outubro 30, 2007
Apaixonei-me pela tua fronte larga
Sábado, Outubro 27, 2007
Cantiga de amigo -que já foi americana -quando eu tinha medo da PIDE
Quarta-feira, Outubro 17, 2007
Eu chovo sobre ti...
Assim...assim...(4)
Hoje te vi
Domingo, Outubro 14, 2007
Olhos de mar alto
Quarta-feira, Outubro 10, 2007
Ciencia -em termos latos-
Para entender o texto não é preciso saber nada de Direito. É preciso saber um pouco de filosofia mas isso toda a gente sabe, apesar do nome pomposo que tem . É que a filosofia é apenas uma reflexão sobre a arte de viver.
PREFÁCIO DE INTENÇÃO EPISTEMOLóGICA
1. _ A Ciência Jurídica: Proposta de noção. Seu objecto:
O direito.
A Ciência Jurídica é o conjunto sistematizado de estudos e conhecimentos acerca da específica estrutura social (1) cuja função é a tutela de determinados tipos de interesses humanos através da coerção organizada e exercida por um poder de classe que, nos limites em que se acha constituído, age como soberano (2).
Na base da estrutura jurídica situam-se as relações
económicas-sociais. No topo, um sistema de concepções -uma super-estrutura ideológica - que são a transposição da matéria social para o nível da consciência social. Esta ideologia, como qualquer outra, tende a devolver-se à sociedade material realizando, na história, a sua concepção da realidade.
Os interesses humanos - objectos da tutela - estão
(1) A estrutura social em causa é o Direito.
(2) O poder de classe de que falo é o Estado.
(3) A realização de um juízo de ser é, em contrapartida, mediada não por uma
norma mas sim por uma regra, um comando hipotético ou seja um preceito de arte.
presentes no todo da estrutura jurídica; na base, como matéria das relações sociais e na super-estrutura, como ideia, sob a forma de juízos de valor.
O juízo de valor, enquanto componente de uma ideologia, não é, cabe adverti-lo, o simples conhecimento do interesse na sua existência objectiva, mas a assumpção do interesse, a sua subjectivação. Daí que só os interesses assumidos pela entidade tuteladora - a classe reinante - possam ser objecto da tutela. Ideologia é pois igual a consciência de classe.
A objectivação da ideologia - a sua devolução à realidade material- porque realização de juízos de valor, é, necessariamente, normativa (3).
A norma, nexo entre a ideologia jurídica e a sua base material, mediadora da acção que a super-estrutura exerce na realidade empírica, compartilha assim o seu modo de ser ideológico com o da matéria social a que se refere: é um ser cultural. Torna-se por isso objecto privilegiado da ciência jurídica.
Na verdade a norma, sendo, por um lado, valor mas objectivado - comando - permite tomá-lo -ao valor- como objecto de conhecimento e, sendo, por outro lado, matéria mas referida, nominada, ou seja num primeiro grau de conhecimento, permite um conhecimento teorético ou de segunda - ou ulterior - intenção.
2. - A Ciência Jurídica é possível em diversos planos de intenção e níveis de abstracção.
No plano da intenção devemos distinguir:
2.1. - Os estudos e conhecimentos que se ocupam de Direito como sendo um objecto específico que é necessário classificar dentro da ordem geral das realidades afins e em relação ao qual importa determinar a função que cumpre nos diversos contextos a que pode ser referido. Teremos assim, por exemplo: uma antropologia do Direito, uma história ou uma sociologia do Direito, etc.
2.2. - Os estudos que se propõem o Direito enquanto problema prático a resolver, ou seja, que se ocupam dos problemas suscitados pela «vida jurídica», pelo Direito no acto de se realizar. Neste plano de intenção o Direito não é propriamente o objecto do estudo mas um dado. O objecto será o caso - problema - jurídico, real ou hipotético, a resolver. Este é o plano dos juristas, o pensamento jurídico, um pensamento de Direito e não sobre o Direito. Resta saber se tal pensamento pode ser considerado uma ciência (da prática jurídica) ou se não é apenas um pensamento de intenção (método?) científica.
3. - No que respeita ao nível de abstracção que se propõe alcançar poderemos, talvez, considerar na ciência jurídica três planos fundamentais:
3.1. - O da análise exegética, lógico-dedutiva, através da qual apreendemos o que já é conhecimento, realidade mentada ou cultural; por ex.: o que comandam as normas ou qual o modelo formal de uma relação jurídica abstractamente nelas regulamentada.
3.2. - O da formulação dos conceitos através dos quais ordenamos um conjunto de fenómenos significantes, já nomeados, num sistema unitário de significações, sistema cuja coerência interna assim nos é dado compreender - é o nível das teorias.
3.3. - Finalmente poderemos considerar a formulação dos juízos - ou hipóteses - mais gerais e englobantes sobre o Direito, na base dos conhecimentos obtidos nos estudos jurídicos e sobre o jurídico nos seus diversos planos de intenção e níveis de abstracção e também a partir de uma posição sobre o sentido geral da vida e das sociedades humanas. É o nível filosófico.
4. - Do método em Geral.
A Ciência Jurídica é, na actualidade, um empreendimento colectivo. Os estudos aos diferentes níveis de intenção e abstracção só podem ser considerados como tarefas parcelares daquele mesmo empreendimento. Os resultados obtidos dependem da interacção dialéctica que entre tais estudos se estabelece. Assim por ex.: a conceitualização sistematizada a partir das normas, e mesmo a validade de tal forma de conhecer o Direito, é, desde o início, determinada pelo estatuto ontológico que o estudioso fixa ao direito - ideia objectivada (?) simples fenómeno empírico no acto de acontecer (?) realidade histórica plasmada em juízos de valor (?). Por outro lado a validade dos conceitos obtidos depende de se ter tomado em conta e se ter operado conjuntamente com os elementos funcionais que só a história e a sociologia podem fornecer. O pressupor da função é condição indispensável do conhecimento de uma estrutura a realizar-se, do movimento que é o modo de ser da sua existência real.
A interacção dialéctica de todas as formas e níveis de conhecimento de Direito e sobre o Direito, multiplica-se infinitamente pois é necessário não considerar a ciência jurídica isolada de todas as outras formas de conhecimento. Da mesma maneira se deve ver a relação entre a ciência jurídica com a prática que ela vai, por sua vez, modificar. E isto, quer essa prática seja a realização da ciência do Direito quer seja a realização do Direito ele mesmo.
5. - O objecto deste trabalho: Ciência prática e método.
O pensamento jurídico, como ciência prática, segue metodologicamente o movimento da própria formação e realização do Direito.
O juízo de valor jurídico, construído sobre a matéria dos interesses humanos concretos que se digladiam na sociedade real, nega esses interesses transmutando-os em ideia social, abstractizando-os e generalizando-os. A norma, por sua vez, nega o juízo realizando-o na vida material. Esta negação da negação é um regresso...progresso dialéctico pois a realização do Direito é uma tutela de interesses concretos mas no plano mais elevado da assimilação pela via genérica.
Como, porém, o juízo de valor não é pura ideia mas ideologia - existente na contingência da realidade histórica - a sua realização não pode impor-se com a força da necessidade, antes tem necessidade da força para se impor. Força que, para a classe que a actua, é uma exigência da própria existência - a classe existe quando objectiva a sua consciência de classe - e para a classe que a sofre é uma negação que exige ser superada - e é - por uma nova ideologia, a qual, no esforço de realizar-se, faz o movimento da história.
O jurista puro seria um instrumento da classe titular do Direito para a tarefa da sua realização formal (1) e também da sua realização material objectiva (2) - a realização subjectiva dos valores é moral-. No processo da formação do direito, ou seja da sua realização formal, caber-lhe-ia organizar os materiais: objectivar os juízos de valor sob a forma de proposições normativas, deduzindo; referi-los a matéria dos interesses que tipifica, induzindo.
No processo da realização material executaria operações análogas: «subir» do caso para a norma - subsumir -e «descer» da norma para o caso- interpretar; subida e descida que um mesmo processo comporta muitas vezes e que é, por isso, mais propriamente, um movimento de vai-vem. Porém nenhum destes processos lógicos permite, por si só, realizar o que quer que seja - são processos de conhecer e não de realizar.
Na verdade a ideia, sendo formada a partir da matéria
(1) É o papel do jurista
legislador.
(2) É o papel do jurista
juiz, do jurista advogado, etc.
em perpétuo movimento - e o devir da matéria social é particularmente fluído - não pode reflectir um ser que já não é no momento em que é pensado; reflecte antes um vir a ser, um tornar-se. Ora, se é certo que todo o tornar-se se nos apresenta, à posteriori, como determinado, à priori - e portanto na ideia - já assim não é, antes de mais porque toda a ideia é abstracção, mutilação da realidade material. Esta apresenta-se-nos pois como um vir a ser indeterminado, um feixe de probabilidades. Actuar é intervir para realizar uma das possibilidades de ser - é assim verdadeiro que todo o real é racional mas não é verdade que todo o racional seja real; venha a ser realizado. Desta maneira uma actividade, como é a prática jurídica, jamais se pode reduzir a qualquer forma de processo cognitivo dada a relativa indeterminação de todos os conceitos.
Assim o jurista puro é uma pura abstracção. O jurista real é ele mesmo homem, membro de uma sociedade e de uma classe e por isso chamado a constituir ele próprio o Direito nos limites da indeterminação dos conceitos com que trabalha. Daí a sua responsabilidade.
Geraldes de Carvalho
Do meu livro "Introdução ao método de aplicação científica do Direito"
Foi também a minha contribuição para o Congresso de Ciência Jurídica em Haia-1977
Quando ela me deixou. Assim, assim...7
Terça-feira, Setembro 25, 2007
Dicionário...ou dois poemas num só
Domingo, Setembro 16, 2007
de SORTILETEJO
Tacitamente o Mário e a Adélia tinham combinado que a menina não os trataria por pai e mãe antes de ser adoptada de maneira que não conhecia tais palavras tratando-os pelos nomes próprios, como eles lhe ensinaram.
A Adélia levava-a sempre que saía e fazia-o, pelo menos uma vez por dia, por volta das seis horas da tarde, de modo que a criança contactava com muita gente uma vez que a Adélia conhecia todos os vizinhos e dava-se bem com eles. Mimavam a Elsa mas sempre sob o olhar atento da Adélia pois que, na verdade, alguns deles procediam de uma maneira tão desastrada, ora semelhando estar muito atentos ora distraindo-se logo a seguir porque outro motivo lhes chamara a atenção, que mais parecia serem também crianças do que pessoas adultas.
Continuava a gostar muito de passear junto ao Tejo e agora nunca via as águas encapeladas e da cor do chumbo.
Enquanto caminhava tagarelava com a Elsa:
Estás a ver, querida menina, este grande rio que se chama Tejo.
Trás a água de Espanha e recolhe também a desta parte, central, de Portugal. E nota que embora muita dela, venha da terra espanhola, nunca constou que tivesse havido alguma aljubarrota entre essa água e a que nasce no solo português. Pelo contrário, junta-se aqui toda de maneira que ninguém será capaz de distinguir a espanhola da portuguesa e parece um mar - ainda que seja possível ver, bastante bem, as casas que ficam daquele lado, acrescentou decorrido um longo momento.
E quando chegam aqui as águas do rio, as sereiazinhas, que nascem lá para riba, em Vallermoso perto da longínqua Serra de Albarracin e em Villalba e cerca de Aranjuez, junto daquele belo concerto, e em Aldeanueva de Barbarroya e em Alcântara, mesmo por debaixo da majestosa e velhíssima ponte e perto do Rosmaninhal e em Belver e no belíssimo Zêzere em Maxial de Além e em Vila Nova da Barquinha e ali mesmo dentro do misterioso castelo de Almorol, vêm já grandinhas e aqui crescem até ocuparem toda a nossa imaginação.
Há também quem fale em monstros; mas quem acredita nisso neste princípio do terceiro milénio?, não me saberás dizer ?
Os edifícios ganharam novas cores e gostava especialmente daqueles que tinham mazelas no reboco porque lhe pareciam reflectir múltiplos arcos íris.
E continuava a falar:
Repara, querida Elsa, nestas casas que já parecem velhinhas de tão derrocadas que estão. Mas se fores ver por dentro, a maior parte delas são ainda bastante confortáveis mesmo que tenham salas pequeninas e muitas escadas bastante empinadas.
Estás a ver aquelas cortinazinhas, arrendadas e tão bonitas? Pois toda ela deve ser assim no interior. Cheia que nem um ovo com cadeirinhas, mezinhas, caminhas e aparadorzinhos tudo muito arrendado e bonitinho.
Muitíssimo interessante seria conhecermos as pessoas que habitam nelas porque algumas têm maniazinhas tão arrendadas como as suas cortinas. Não acreditas?
A ponte velha ao longe, semelhava um grito, vermelho.
E ela dizia:
Estás a ver ali, ao longe, a velha ponte? Ela ficou velha de um dia para o outro quando construíram a outra que agora é a nova. Mas não te deixes enganar. Ela é muito grande e, principalmente, muito alta. Mas nota que daqui podes brincar com os automóveis que passam por cima dela ainda que só com os teus queridos olhinhos.
Geraldes de Carvalho
de SORTILETEJO
Domingo, Setembro 09, 2007
... a hora
Sexta-feira, Agosto 24, 2007
Epitáfios
Assim -com maiúsculas e tudo-:
AQUI VIVEU O GRANDE POETA GERALDES DE CARVALHO . TINHA UM METRO E SESSENTA E SEIS DE ALTURA E NÃO SABIA NADA DE NADA .
E aí vai também outro epitáfio que escrevi há muitos anos e coloquei agora no livro "Novos e velhos cantos"
Domingo, Agosto 19, 2007
Pequena parte do meu novo romance : SORTILETEJO
Eram sonhos bastante interessantes que ele gostava de recordar e que algumas, poucas, vezes contou aos amigos. Deixou porém de fazê-lo porque notava que eles não acreditavam que ele tivesse efectivamente sonhado com todos os pormenores de que se lembrava.
Recorda que uma das vezes um amigo comentou: Tens uma imaginação efectivamente prodigiosa, mas fê-lo com tal acento de admiração que o Mário não teve coragem de se zangar.
Deixou então de se interessar por esses sonhos, que por isso depressa esquecia e parecia-lhe mesmo que deixara de os sonhar.
Ultimamente, porém, os sonhos que deixara de ter transformaram-se pouco a pouco em pesadelos que na verdade se repetiam até à exaustão ainda que com ligeiras alterações...
Num deles antecipava o parto da Adélia . E havia duas coisas que o afligiam muito naquele sonho . Uma delas era que ele assistia ao parto dissimuladamente sem que a Adélia soubesse e desse por ele . A outra questão inquietante era que, por mais que tentasse, nunca conseguia ver a criança que nascia e ele dava-se a pensar, no meio do pesadelo, se ela seria realmente uma criança . Se não seria já um adulto, ou mesmo outra monstruosidade qualquer .
A Adélia, no sonho, parecia não sofrer nada com tudo aquilo. Ria-se mesmo. Umas risadas esganiçadas, a avaliar pelos esgares que fazia, o que não era nada dela. Pareciam de outra pessoa e, reparando bem, também ela não era ela, por vezes.
E este pesadelo nocturno transformava-se em pesadelo de dia pois não podia contá-lo a ninguém nem o esquecia porque quando isso estava prestes a acontecer voltava a sonhá-lo.
Outro pesadelo era bastante mais estranho porque não parecia ter nada a ver com as suas preocupações, no momento.
Via ele um homem que não reconhecia sabendo, embora, que era seu amigo, conduzindo um velho acorrentado que sabia ter sido condenado à morte. E ao mesmo tempo que sabia que o seu amigo – que, no entanto, não identificava - era obrigado, por dever...oficial, digamos assim, a conduzir aquele homem, não deixava de achar muito estranho que o fizesse pois sabia-o contrário a tal penalização.
Entretanto verificava-se uma altercação entre aquele par que ele contemplava a uma certa distância. Via então o seu amigo conduzir nervosamente o homem para o encostar a uma parede . Retira uma pistola do bolso e aproxima-lha agitadamente da têmpora. Não atira porém. Coloca-se ele próprio no muro, ao lado do homem acorrentado e encosta agora a pistola à sua própria têmpora.
O Mário não ouve o tiro – todos estes pesadelos são completamente mudos - nem vê cair o seu amigo porque acorda sufocado de angústia.
GERALDES DE CARVALHO
Terça-feira, Agosto 14, 2007
Como me perdi
Domingo, Agosto 12, 2007
Conversa de bêbado
Sexta-feira, Agosto 10, 2007
Quarta-feira, Agosto 01, 2007
Sem palavras-poema novo sobre raízes velhas
Domingo, Julho 29, 2007

Vou publicar aqui o 1º capítulo e parte do 2º do meu livro "O caminho" . Estes textos já tinham sido publicados mas geralmente como imagens o que tornava um pouco difícil a sua leitura Consegui agora o OCR para o meu MAC e por isso já posso publicar os textos como...textos. Apaguei as imagens mas conservei os comentários.
PRIMEIRO CAPÍTULO
Feitos de nada. para nada idos.
Revestidos de nada caminhamos
Caminhar é que é ser, em todos os sentidos;
Só andando é que estamos.
I. Caminhava e caminhava indefinidamente.
Devo dizer, em abono da verdade, que caminhava bem. É certo que ao princípio, me limitava, como os outros, a avançar sem curar de conhecer as regras e os métodos. Tal sistema, se a isto se pode chamar sistema, dava fracos resultados. Não é, evidentemente, apoiando todo o corpo sobre o solo e avançando, ao acaso, mãos e pés, procurando firmar-se ou agarrar, que conseguimos progredir. O que se consegue, às vezes, são espinhos pelo corpo e pedaços de terra nos olhos e na boca. Por isso eu costumo dizer que foi mais pelos inconvenientes de tal sistema - supondo que é permitido dar-lhe esse nome- do que pelas vantagens que o novo me oferecia, que, pouco a pouco, me decidi a abandoná-lo.
2. Mas poderei eu dizer que o abandonei?
Não será por acaso verdade que desde o princípio fiz todos os esforços para me libertar dos espinhos e da terra, esquivando como podia o corpo os olhos e a boca? Que era pois o meu novo sistema, senão uma forma aperfeiçoada do anterior? Não é certo que muito caminhei ainda ao acaso, tendo apenas o cuidado de manter acima do solo, meu corpo, meus olhos e minha boca?
3. Desde quando soube eu realmente, aonde punha as mãos e os pés? Desde quando soube que devia avançar simultaneamente a mão direita e o pé esquerdo, e que bem apoiado nos quatro membros, devia então, com um único impulso do corpo contendido, impulso que me elevava ligeiramente, inverter a posição enquanto expirava? E que devia inspirar em repouso momentâneo, relaxando o corpo e deixando os membros flectir-se até ao ponto de dar a impressão que recuava, a tomar alento para o movimento seguinte?
Desde quando?
4. Para sabê-lo, seria preciso que eu tivesse a faculdade de parar para pensar ou pudesse olhar para trás. Nada disso me era permitido nem o desejava. Sabia, e bastava-me, que caminhava e caminhava bem. Embora não me pudesse ver, sentia que o meu corpo avançava ondulando ritmicamente, e a graciosidade deste movimento de modo algum me deixava indiferente; enchia-me de orgulho. Por vezes dava por mim a lamentar que não tivesse cauda; percorri longas distâncias imaginando como coordenaria então os movimentos; via-a caída no momento do salto, inclinada à esquerda quando o pé direito estivesse recuado e vice-versa. Percorri longas distâncias enlevado no pensamento inconsentido deste secreto desejo.
5. Pois em que poderia eu pensar? Empregava todo o corpo aproveitando ao máximo a capacidade de cada uma das partes; como aspirar a qualquer aperfeiçoamento senão imaginando-me diferente e mais complexo?
6. Entretanto avançava, e posso dizer que avançava rapidamente. Não que eu perdesse o
meu tempo a procurar um ponto de referência na monotonia do caminho, mas bem via como os outros ficavam para trás, arrastando-se miseravelmente na terra e nos espinhos. Poderei descrever a alegria que me dava a constatação deste facto? Oh ! Como eu ia ligeiro e leve, deixando a perder de vista os que comigo haviam partido, e ultrapassando facilmente os que tinham saído mais cedo e mais cedo! ...
7. Deverei deter-me agora para contar como evitava tocá-los pois me produziam uma sensação de indizível repugnância'? E deverei dizer que nem sempre me era fácil deixar de passar por cima daqueles que mais directamente encontrava no meu caminho'? Não, não creio que tal relato possa despertar o mínimo interesse.
8. Talvez que se a meu lado alguém caminhasse como eu, ligeiro e leve, me sentisse tentado a estender-lhe amigavelmente um membro, ou talvez não. Muitas vezes me tinha feito esta pergunta:
Caminho só porque caminho assim, ou caminho assim, porque caminho só ?
9. Mentiria se dissesse que procurava resposta para esta ou qualquer outra das minhas muitas
interrogações.
Por exemplo:
Não seria certamente descabido que eu dissesse agora para onde caminhava; mas como, se eu próprio o não sabia? No entanto eu tinha uma boa razão para prosseguir por ali: Olhai a gota de água numa corrente caudalosa; será possível vê-la correr para montante ou mesmo imaginar-lhe semelhante desejo?
10. Não admira pois que eu não procurasse resposta para as minhas interrogações, e que estas fossem apenas uma espécie de jogo, com que procurava distrair-me de obsessões como
o desejo da cauda.
11. Mas poderão evitar-se as respostas quando se encontram atravessadas no nosso caminho? É preciso, porém, não exagerar. Poderá chamar-se realmente uma resposta àquilo que como tal se considerou, ainda que durante muito tempo? Poderei eu mesmo falar em respostas, se sempre caminhei ? - Esta é a verdade, diga eu o que disser, venha eu a dizer o que vier.
12. Mas vale mais que eu conte de uma vez o
que vi ou aonde cheguei e não fique aqui, como quem diz, às voltas sobre uma coisa de nada, atitude inconveniente, por certo, para quem como eu caminhava realmente numa direcção bem definida.
13. Antes porém, gostaria ainda de fazer uma pergunta: Será que poderei dizer que cheguei àquela cidade, ou mesmo que era uma cidade, só porque em determinado momento me dei conta de que os outros iam e vinham e se juntavam e dispersavam para se reagrupar de novo em grupos que ora se fraccionavam ora se fundiam para novamente se dispersar'? E outra: não estarei eu com palavras, procurando esconder o que quero dizer, o que devo dizer, o que não posso calar, o que realmente é importante, o que aconteceu de facto; enfim não estarei propositadamente a retardar, a protelar o momento em que terei de e serei obrigado a, sob pena de não poder prosseguir, revelar que estas pessoas avançavam mas avançavam mais lestas, mais gráceis, mais elegantes e mais ligeiras e leves do que eu ? Como poderia humilhar-me tanto, que dissesse sem rodeios, que aquela gente inconcebível conseguia caminhar assim, utilizando apenas os pés e reservando as mãos para conseguir uma série de efeitos surpreendentes e outras mirabolantes distracções. Oh ! Como os invejei e como os amei, porque me pareciam grandes e belos e porque iam depressa! Não que me tivesse imediatamente apercebido que o defeito estava na maneira de caminhar, não; procurei até aperfeiçoá-la; consegui músculos mais tensos, inspirações mais profundas, movimentos mais alongados, corpo mais maleável; mas logo reparei que tudo o que se passava ali, àquela altura do solo, estava praticamente fora do alcance de visão dos habitantes da cidade. Enquanto eu saltava e cabriolava no ar, eles passavam ao meu lado, à minha frente, sobre mim, longe de mim.
SEGUNDO CAPÍTULO
Alegro-me porque poderei agora vingar-me da humilhação relatada na última parte do pequeno capítulo anterior, contando como consegui pôr-me de pé:
1. Aconteceu que por acinte ou acaso alguém passou verdadeiramente junto de mim. Ferrei-lhe os dentes; Tentou sacudir-me batendo nervosamente com a perna enquanto caminhava, mas não o larguei. Parecia não me dar muita atenção. De quando em vez batia com mais força a perna no chão, e eu segurava-me. Numa segunda investida lancei-lhe as mãos. Desta vez, com os movimentos mais presos, parou para considerar; agarrei-o melhor. Pareceu decidido a livrar-se definitivamente de mim - tê-lo-ia conseguido pois dificilmente me equilibrava naquela crítica posição - desistiu porém deste intento e, inexplicavelmente, agarrou-me pelos cabelos e pôs-me de pé. Beijei-lhe as mãos.
2. Continuámos juntos.
3. Pouco a pouco adquiri maior segurança quer em manter o equilíbrio, quer na maneira de pisar. Constatei então que até ali andara errado - conquanto no único caminho, permita-se-me este pequeno paradoxo. A sabedoria não estava em aproveitar ao máximo as possibilidades de cada uma das partes do corpo e concentrá-las num esforço comum, mas em dar a cada uma o seu emprego mais adequado: as pernas e os pés para andar, as mãos para agarrar, e a espinha dorsal para dobrar usando todas as imensas virtualidades da sua maravilhosa articulação.
4. Tanto me aperfeiçoei que não tardei a verificar que não era já eu que me apoiava ao meu companheiro, mas ele que se apoiava em mim. Sendo assim era evidente que eu estava a avançar menos do que as minhas possibilidades me permitiam. Sacudi-o com facilidade.
5. Entretanto cheguei a uma das praças da cidade. Ali fiz um discurso, um discurso histórico ou mais precisamente, da história da minha vida. Comecei: Caminhava e caminhava indefinidamente - uma frase de lindo efeito - e continuei por ali adiante, omitindo apenas alguns pormenores de somenos importância.
6. Ninguém me ouviu como é costume, mas depois dos aplausos um velhinho aproximou-se e disse: Não tem razão, ao que respondi:
Evidentemente que não tenho, espero não ter afirmado o contrário. E ele: Alegra-me que saiba reconhecer um bom argumento. E assim nos tornamos amigos. Disse-me que tinha uma filha encantadora e convidou-me a conhecê-la.
7. Acompanhei-o a casa. Não quero faltar à verdade dizendo que fui com ele, e a própria palavra acompanhar necessitaria uma árdua exploração. Ainda julguei que talvez pudesse dizer que o segui, mas logo vi quanto andaria longe da verdade; pior seria se dissesse que fui seguido por ele. Bem, tudo se resume a pouco mais do que termos partido e chegado ao mesmo tempo, com breves e ocasionais contactos pelo caminho que ele aproveitava para me impingir, por sua vez, o seu discurso. Isto não significa que eu não tivesse tentado regular o meu passo pelo dele, observando-lhe minuciosamente todos os movimentos:
8. Avançava com passo miudinho e levantava o
pé preso ao que me parecia de preguiça tão irremediável, que era para suspeitar que não chegasse a pousá-lo, o que distraindo-me, me impedia de ver como o pousava realmente. Iludido por este pormenor, não admira que retraído, me deixasse ficar para trás ou que
reagindo, em vez de agir como devia, me lançasse numa cega perseguição ultrapassando-o sem vontade nem remédio. Mas o pior ainda é que como não sabia o caminho era então obrigado a parar, o que significava perder toda a vantagem adquirida e permitir-lhe que, alcançando-me, me despejasse nos ouvidos um parágrafo inteiro da sua oração.
9. E repetia-se este processo de retracção, reacção e paragem, enquanto me esforçava por surpreender o momento decisivo, em que ele pousava o pé, e assim desvendar o segredo daquela forma de caminhar. No entanto era bem claro que jamais o conseguiria enquanto não acreditasse que tal momento ocorria realmente. Que cegada !
10. À falta de melhor, dei-me a elaborar uma hipótese:
Creio já ter dado a entender que no difícil processo de caminhar, sempre cercara de especial cuidado e ponderação o acto de pousar os pés - ou as mãos -. Atira-se um membro para o ar sem medo e com alegria, mas é sempre mais difícil recolocá-lo no chão. Como poderemos saber o que iremos encontrar debaixo? Os perigos disfarçam-se sob a poeira do caminho e alguém que pisemos é bem capaz de nos ferrar à traição e sem dó, numa perna, os dentes agressivos. Jamais os que são sempre calcados se resignam à sua natural condição e uma vez ou outra, há um que nos faz lamentar amargamente qualquer descuido.
Tal pois foi a hipótese que a respeito do andar do velho elaborei: Por qualquer estranha razão ele pisava sem temor, como se estivesse seguro de ter o caminho limpo de obstáculos. E tal foi
o que cheguei a descobrir, confirmando a minha suspeita: Que servos devidamente ferrados o precediam por onde quer que fosse, reduzindo todo o caminho, ao mesmo pó uniforme e macio que ele gostava de pisar. Gostei daquela sabida técnica e eu mesmo a vim a aplicar, oportunamente, com assinalado êxito.
11. Enquanto pensava nisto e naquilo o velhinho estacou e eu, que iniciara então uma vigorosa perseguição, parei também, mas, é claro, não a tempo de ficar junto dele. Voltei-me surpreendido para saber que força poderia assim ter detido quem caminhava com tanta - diria bem, tão sábia - determinação. A causa de tamanho efeito era uma personagem aparecida.
12. Não perderei, por ora, tempo a descrevê-la. Gosto de descrever as pessoas pela forma como caminham - e julgo desnecessário explicar o porquê ? - e, por enquanto, sobre aquela forma de caminhar, tinha só uma indirecta indicação: não a pressentira chegar. Se vim depois a saber o motivo, não deverei revelá-lo agora para não ser acusado de usar precipitar-me sobre os meus próprios passos, defeito grave para quem, concretamente, pretenda avançar.
13. Recuei - que não se tome demasiado à letra esta palavra - a tempo de assistir a uma representação interessante : o velho estacara, mas ou fosse pela posição do corpo ou pela subcutânea palpitação muscular, adivinhava-se que continuava preso - como direi ? - por um fio, ao movimento.
14. Outro tanto acontecia com ela, a quem um impulso contido parecia dever arrastar dali para muito longe, de um momento para outro. Todavia nenhum deles conseguia avançar, porque animados de energia contrária na direcção, mutuamente se anulavam os efeitos; ou seja em termos mais correctos: cada um puxava para seu lado. Mas inadvertidos como estavam do equilíbrio das respectivas forças, nela por serem mais violentas e nele porque mais eficazmente comandadas, ambos se esforçavam por arrastar o outro consigo - o que não era senão uma forma de evitar ser arrastado - dando-se mútuas marradinhas na cabeça que procuravam, suponho, provocar-se pequenas libertações de energia ou uma espécie de relaxamento nervoso e assim, mais pela persuasão do que pela violência declarada, enfraquecer-se.
15. Esta técnica favorecia visivelmente o meu velhinho, a quem a perda de energia não afectava, excepto se viesse a descer abaixo do ponto crítico em que se tornasse inoperante qualquer utilização, por mais criteriosa que fosse.
16. Perante o momentâneo impasse é que eu intervim, a convite do velho, e com um subtil toque da minha mão na dela, decidi o prélio a nosso favor -o meu, o do leitor e o do velhinho
17. Passou então a gravitar à nossa volta como um satélite, o que é uma forma de dizer não muito distante da verdade. Mas o seu peso - dela - contrabalançando a minha indisciplinada energia, permitia-me agora acompanhá-los com satisfatória facilidade. E foi assim que chegámos, por milagre juntos, a casa deles, e ali nos dispersámos, pouco, por aqui e por ali.
18. Seria talvez agora altura de descrevê-la, porque já devia ter do seu andar alguma observação. Mas não tinha. Embora lhe sentisse muito impressivamente a constante presença, por alguma difícil razão, só vagamente a via. Matutando sobre o caso acabei por concluir que o que ma encobria era a própria proximidade. Eu explico: a força da sua atracção obrigava-me a reproduzir-lhe quase textualmente os movimentos e assim nunca me encontrava bastante distanciado para poder apreendê-la completamente. Aí está! Não obstante eram-me bem visíveis certas particularidades, o que, claro, pouco adianta para quem deseja saber sobre a forma de caminhar.
19. É certo que eu poderia subtrair-me-lhe voltando-lhe as costas. Mas pouco tempo permaneceria nessa posição, fosse pela instante necessidade de completar a observação das particularidades vistas ou, porque não confessá-lo?, pela atracção que aquela atracção sobre mim exercia.
20. Foi assim que me encontrei a executar uma série de movimentos incontroláveis, mas caracterizados pela riqueza rítmica de uma variada simetria, resultado simples, como vim a saber, de sermos dois a executá-los, sem que eu, então, disso me apercebesse.
21. O que com ela se passava de semelhante era diferente porque não movida por qualquer acção que sobre ela se exercesse mas por uma vontade má de exercê-la e uma secreta consciência de que só poderia consegui-lo se me mantivesse na ignorância dos seus processos; é simples! Por isso se me voltava e me afastava, se voltava e se afastava sabendo que não tardaria a segui-la para que me fugisse e me apanhasse.
22. Entretido como estava neste minucioso jogo, nem me apercebi de como os nossos movimentos se repetiam em ritmo que gradual e perigosamente se acelerava ...
23. Seria necessário que eu repetisse agora a descrição dos movimentos que melhor exprimem esta fase das nossas relações, para dar delas uma ideia mais perfeita, e voltasse a repetir antes de continuar. Veremos se aconselharei ao editor uma cópia e recopia sucessivas deste trecho da minha caminhada. Entretanto, antes que o termine, convém dizer que nem por um momento deixei de prosseguir - faço questão em insistir neste ponto. Fui até levado a assistir à lição pública de ginástica.
24. Começava na posição de pé concentrado e quieto alguns instantes compridos; a um sinal do instrutor avançávamos a perna esquerda ligeiramente (I." tempo); depois recuávamos a perna direita assentando apenas o bico do pé e nessa posição flectíamos ambas as pernas até ficar com o joelho direito assente no chão (2." tempo); por fim, num só movimento, o mais difícil, colocávamos o joelho esquerdo ao lado do direito (3." tempo), tendo o maior cuidado em não levar as mãos ao chão o que comprometeria a nobreza do exercício. Devíamos permanecer a maior parte do tempo nessa posição, mas o exercício repetia-se quatro ou cinco vezes. A instrutora - instrutora tanto quanto as vestes amplas permitiam distinguir - dirigia o exercício por gestos e palavras que só uma meia dúzia de privilegiados entendia; os outros limitavam-se a imitá-los. Simultaneamente ia comendo e bebendo, para poupar tempo, suponho. Era bastante frugal conquanto abastada a avaliar pela sumptuosidade da baixela a qual devia ter herdado dos antepassados, pois era de fino lavor como se costuma dizer.
25. A lição de ginástica permitiu-me conhecer muitas pessoas e fazer bons negócios. Aproveitava também os assistentes para ouvintes dos meus discursos, ou antes do discurso que eu teimava em repetir e aperfeiçoar e burilar tendo conseguido obter uma agradável variedade pela maneira como começava. ora no princípio, ora no meio da narrativa e mesmo no fim, fazendo múltiplas regressões ou adiantando-me de propósito à sequência dos factos para me permitir regressar de novo. Obtinha assim uma dicção rítmica e ondulante que me recordava o tempo em que trotava alegre e só, pelo caminho que ali me tinha trazido.
26. Tão rico de ensinamentos sobre a forma de caminhar, remédio para todas as aflições, solução para todos os problemas, o discurso guindou-me rapidamente ao primeiro lugar entre os meus concidadãos. Só eu tinha agora o privilégio e o direito de discursar na praça principal!
27. Este privilégio, criava-me no entanto alguns deveres que eu cumpria, digamos para não fugir à regra, gostosamente. Entre todos, a minha predilecção ia para as visitas de cortesia. E não irei adiante sem me referir muito secretamente à que fiz ao secreto Instituto de Pesquisas Científicas :
Quinta-feira, Julho 12, 2007
Se o mar a mim amasse
Sexta-feira, Junho 29, 2007
http//artesdoespectaculo.com.sapo.pt/ae410encomendas.htm
geraldes de carvalho


