
A
edium tem o prazer de anunciar a edição da
Antologia Poética 2008, Amante das Leituras, para o próximo dia 31 de Maio.
Este ano, a Antologia contará com as participações dos seguintes autores:
Alexandra Oliveira, Ana Maria Costa, Carlos Alberto Roldán (Argentina), Carlos Luanda, Denilson Neves (Brasil), Geraldes de Carvalho, Jorge Vicente, José-Augusto de Carvalho, José Dias Egipto, José Gil, Manuel C. Amor, Maria João Oliveira, Maria Rita Romão, Mónica Correia, Paulo Themudo, Samuel Gomes, Túlio Henrique Pereira (Brasil) e Vera Carvalho
Sou eu, sou eu...
( 3ª ou 4ª correcção)
Sou eu
o anjo ou o demónio
ou a serpente
que a Eva ofereceu
o fruto da ciência
e, por isso,
ou outra coisa igual,
o tal deus
me castigar.
-E não é erro não
porque deus não tem tempo
e é, por isso
o verbo inconjugado
no infinito eterno...-
Que homem, esse deus!
Certamente queria
ficar com todo o saber
para vos manobrar
como, se ,lhe apetecer.
E também
me é difícil entender
porque é que o tal deus
me castigou
se conhecia
que o homem
apenas mastigou
o fruto que, de verde, mal sabia
-e, se bem bonito parecia
era, afinal bichado-
e o cuspiu no rosto da mulher.
-Pobre mulher cuspida
por dar a maçã e a vida-
Apenas engoliu,
o homem bruto,
um pouco desse sumo
que lhe ficou na boca
da maçã mastigada
que nascera na árvore
mal formada
desse mundo
que o tal deus criara.
E o pior foi que com esse sumo
ainda engoliu
- e é com isso que me nutro-
o bicho que ali vivia
e a viver continuou
lá -cá- dentro
do homem bruto.
E foi assim, posso afirmar
que foi criado o mundo
para o homem habitar
Mundo horroroso enfim
em que todos os animais
se comem uns aos outros
e também a mim
assim, assim...
Geraldes de Carvalho
PS.
Melhor fora, talvez
que a deus comessem
e acabassem
com a criação
de vez.
gdec
Lá longe
Estamos aqui tão longe
tão quentinhos.
Nem ouvimos as bombas
os morteiros
os gritos
os urros
os lamentos
os estertores.
Poderemos achar
que uns têm razão
e os outros não.
E o que é bom
é nós podermos
saborear
e engolir mesmo
a nossa poesia
com palavras bonitas
e difíceis
plenas de fantasia
sem horrores
que credo !
Jesus !
são lá longe
tão longe...
bem longe...
lá longe.
Geraldes de Carvalho
Queria dormir para sonhar
(melhorado)
Queria dormir para sonhar
que isto não aconteceu .
Que não foste tu
quem me não amou não
Não foi o meu vizinho
nem foi o meu amigo
nem foi o meu irmão.
Nâo foi o meu parente
nem este
nem aquele
qualquer,
nem o outro
que é homem
ou a outra
mulher.
Que não foi nenhum de vós
quem me não, não amou .
Nenhum deles, ó céus !
Foi o que vivi eu
enquanto não sonhava
que isto
não
aconteceu.
Geraldes de Carvalho
...é velho
Meu coração é velho .
Não como são velhas as coisas e mesmo as ideias mas como são velhos os sentimentos, as sensações.
Ele é velho.
Às vezes custa-me bastante carregá-lo porque ele pende de todos os lados, escorre e fica-se pelos caminhos .
É preciso voltar para trás, apanhá-lo, aconchegá-lo, moldá-lo naquela forma que é característica, só dele, coração .
Ele não chora, não sussurra, não pede. Grita, exige como se fora novo, como se fosse novo . Mas
é velho, muito velho.
Meu pobre coração é velho.
Meu coração não cabe dentro de mim . Extravasa para ti, por ti, para o outro para a outra para toda a gente. Tu não o queres, eu sei, mas ele extravasa e
é velho.
Meu coração estranha-se de ti em ti e entranha-se também em ti e estranha-se nele mesmo como nele mesmo se entranha.
Onde estarás tu, meu coração?
Meu coração é velho.
Perdi-te nos labirintos do meu não ser, coração.
Quem te encontrará, meu coração ? Quem perscrutará os arcanos do seu sentimento em busca de ti, meu coração ?
Sendo grande como é
meu coração
cabe bem
na palma da minha mão
mas é velho.
02-12-08
Geraldes de Carvalho
Vem, ó vem
Vem, vem, vem
minha senhora poesia.
Vem
estou aqui
nu
pronto para te receber
e celebrar contigo
os secretos mistérios
da desencarnação.
Vem, vem
minha querida
ninguém perturbará
os sonhos
que são nossos
e temos de sonhar.
Vem vem
dormir
nos meus braços
ouvir o doce acalanto
que desde o princípio do tempo
te estou a sussurrar,
no vento.
Vem
meu amor
meu coração te espera
com doces palpitações
que se ouvem
em todo o universo,
cá perto
lá longe.
Quero sentir-te
aqui
junto do peito
aninhada
como se fosses
a lobazinha
que é minha
porque me está destinada.
Vem e toma-me
sou teu
já não sou meu
já não sou eu.
Geraldes de Carvalho
(de 48 poemas de muito amor e pouca futilidade)
Aos que não entendo
Ó como gostaria entender-te, meu bom amigo
descobrir nas tuas palavras um sentido lógico
ou, pelo menos, discernível
que me revelasse um pouquinho do teu pensamento
e também, se possível , dos teus sonhos .
Não ficar a olhar para elas como um tolo ignorante
de boca aberta.
Descobrir o teu sentido da vida
dessa vida que só posso imaginar
que será como um palácio do Sec. XVIII
e próxima dos deuses que habitam na tua mente,
suponho eu .
Mas não
não consigo senão ler um amontoado de palavras
que na maior parte das vezes nem rimam com a música que ouço no universo
e muito menos me dizem o que quer que seja que se passa nas tuas ruas
e ainda menos o que late no teu coração
o qual, no entanto, me parece sincero
e morto por dizer qualquer coisa que eu entenda.
Um coração que apesar de não o entender
me apetece acariciar
porque suspeito que é bom e honesto
e cheio de compreensão por um homem como eu
que não sabe exprimir-se sem se dar a conhecer.
Ficaremos condenados meu amigo,
meu bom amigo,
a passarmos um ao lado do outro
como se não pertencêssemos à mesma espécie
como um burro que sou eu
ao lado do homem que tu és
fazendo o favor de não me cavalgar
e mostrando-me mesmo um sorriso que é bom
e amistoso,
eu suponho.
Geraldes de Carvalho
Soneto -que não cheguei a escrever-
Hoje vou escrever um bom soneto
uma bandeira contra a obscuridade
soneto onde lampeje a claridade
nas coisas que sabemos em secreto.
Um soneto em que só diga a verdade
desta mentira a que me não submeto.
Um soneto que seja tímido e discreto
mas que se ouça bem alto na cidade.
Mas, meu amor, para escrever assim
seria necessário -ó meu amor-
que eu fosse O que não quero acreditar.
Sou apenas poeta e sou, enfim
que o meu amor e os céus, maior,
maior que deus, igual ao meu sonhar.
Geraldes de Carvalho
perdi meu eu
(poema em obras)
Meu eu
já não é meu
meu eu
morreu.
Agora o que é que sou ?
Não sei.
Talvez seja
o que ficou
do que foi
e morreu...
Meu eu
não choraremos, não
viveremos assim
como se nunca
o tivéssemos conhecido
pois então.
Ele não nos amava
-pobre de mim-
Às vezes arremedava
gostar de nós
é bem verdade
Era um intrometido
disfarçado
de amigo
mas quando lhe cheirava
a esturro
olhava outro lado
como se não
nos conhecesse
e era tudo.
Ora assim não importa,
ora assim não interessa,
vá bater a outra porta
que está fechada,
esta.
Bem sei
que fiquei pobre
eu
mas que hei-de fazer
É bem melhor
ser pobre
do que viver emprestado
com o que é nosso
mas nunca nos foi dado.
E se alguém nos olhar
nos nossos olhos
saiba, de vez,
que não estão a chorar
embora lhes apeteça
...talvez.
Geraldes de Carvalho
...amarelou
ou
o outro canto do cisne
O cisne quando cantou
amarelou.
Ele sabia que era
um cisne
e não podia cantar
por isso teve de amarelar
para se disfarçar.
Cantava assim :
Quem me dera não ser cisne
negro ou branco
não queria...
Sei que sou belo é verdade
mas não canto
nem parece que sou ave
esta é a realidade.
Posso pensar
já se sabe
mas pensar
não é próprio
de mim
que sou ave
assim, assim
mas não canto...
Posso exibir
meu pescoço
longo
flexível
esguio
próprio de deusa
...e cantar
mas não canto.
Seria bom existir
mesmo no fundo do poço
sem que ninguém o soubesse
se eu ali pudesse estar
a cantar
-cantava ele
sem que, porém, o soubesse-.
E amarelou
sem saber que amarelava.
E pensou
mas não sabia
que pensava.
Era cisne
e lhe bastava.
Mas como não parecia
e tinha uma graça tanta
espantava
e encantava
quem o via
quem o ouvia.
Será que ainda hoje espanta?
Será que ainda hoje encanta?
Geraldes de Carvalho
Espasmo ôntico
Como um tal
meu pensamento tremula
quase desmaia
e eu no meio
ali sem nada saber.
Ó, quem dera não o ter!
Melhor fora
ser saudável
e gostar do futebol
ir às festas e bailar
que, como um louco, pensar
em coisas que nem eu sei
me deixam assim parado
como doente espasmado
a pensar se existo ou não
se sou homem se sou cão.
Cão eu deveria ser
gosto dos ossos que tem
meu pensamento
meus dentes são fortes são
cadelinhas são meu fito...
Cadelinhas são meu rito.
Podem os homens morrer
nas guerras que organizam
e as crianças padecer
cheias de fome nas pontes
-quando há rio...-
Eu cá por mim não me importo
enquanto estou a sofrer
enquanto estou a gozar
como um bônzio
neste meu espasmo ôntico.
Que merda, ein!
Geraldes de Carvalho
(de quarenta e tantos poemas de muito amor...Jul./08)
Vento verde. Assim,assim...
Perguntam se há vento verde...
O tenho dentro de mim.
Vento verde é desespero
de viver sem ti.
Vento verde é amargura
de ter-te a ti
mas não ter-te
dentro de mim.
Vento verde é esperança
de um dia chegar-me a ti
dizer-te
te quero muito.
-Tu não me queres a mim-
Vento verde, verde vento
porque não mudas de cor ?
Só se fosses amarelo
é que serias pior.
Se fosses branco
meu vento
podia passar por ti
e nem te ver
e no entanto
te ter
escondido
aqui,
aqui.
Vento azul
vento no ar
vento azul não quero não
não me apetece voar
-também não sei
é de ver.
Vento negro
é o que corre
não dentro mas sobre mim
vai-te embora vento preto
não te quero a ti, aqui.
O vento vermelho é luz
e para a ter
a gente vai a voar
de encontro a ela
e quando está a chegar
apaga-se
ficamos cegos
no ar...
Vento vermelho não quero
tenho muito que aprender
para o poder
ter.
Vento magenta
é carmim
é o que quero
mas não
não gosta de mim.
Não julguem que é porque rima
porque é mesmo assim
assim.
Vejamos
que outra cor há
que o vento possa ter ?
Cor de burro?
pode ser.
É cor de menino infante
como sou
ou gostaria ...
Mas cor de burro não quero
é burra
e eu sou esperto
ou era
quando menino...
agora não posso ser
penso demais
aí está.
Quem demais pensa
embrutece
é claro.
E se for o vento
motivo do pensamento
emburrece
e voa, aboa
não vai parar a Lisboa.
-Mas se fosse?-
Que pena que o vento verde
não mude de cor e assim
não mude
não mude
a mim
Assim, assim...
assim, assim...
Geraldes de Carvalho
Será ?
Platão, meu sábio amigo
meu velho companheiro velho,
senta-te aqui
ao pé de mim
e responde-me só
a uma pergunta
que é simples
para ti :
Agora,
neste tempo
nesta hora
em que a tua caverna
cresceu até à lua ,
...e um tanto para lá .
Agora, que as sombras que vislumbraste,
e vislumbrar podemos,
estão para além dos confins impossíveis do universo
aonde não nos perdemos,
não vestem de preto e branco
mas desfilam vaidosas,
preciosas,
caprichosas
enfeitadas
com todas as cores do photoschop
e parecem,
como aparecem,
quando aparecem
estrelas, quasares
planetas , nebulosas e buracos negros...
Será que ainda acreditas
que é tudo fantasia
e que a verdadeira realidade
está dentro da tua cabeça,
que é necessário abrir
com o martelo da instrução elaborada
para aí a descobrir
maravilhosa
mas, também ela
-digo eu, ó meu!-
fantástica
fantasiosa .
Será , Platão
...ou não ?
Geraldes de Carvalho
(de 42 poemas de muito amor e pouca futilidade)
Eu escrevo cão...
Eu escrevo cão
ele mia
se escrevo gato ladra
já se sabe.
Nada é como pensei
Mesmo eu sou
um tanto desencontrado
porque se quero sonhar
penso nisso
e no pensar
lá se vai o meu sonhar
Se pensar é o que quero
já sei ponho-me a sonhar
e no sonhar
não penso nada que preste
lá se vai o meu pensar.
Mas construo um outro mundo
que não vos posso mostrar.
Mesmo se quero dormir
penso como deve ser
dormir é bom,
deve ser,
porém dormir não consigo
fico acordado, é de ver.
Também quando quero amar
não sei a quem
mas amo quando não quero
amo
mesmo que não tenha
ninguém.
Para amar eu não preciso
de ter um outrem a quem
- podemos mesmo amar-Nos
ainda que não seja bem-
...ou será?
Mas amar quando não quero...
e quando te tenho a ti
é uma mania chinfrim
digo assim
assim...assim.
Geraldes de Carvalho
(de 40 ou 41 poemas de muito amor e bastante promiscuidade)
Está tudo louco. Assim, assim...
Saí agora
do estaminet
- que palavrão
congeminei -
e encontrei
o mundo louco
Pois é :
Minha mulher
já não tem boca
para eu beijar
ela está louca.
Pode não estar?
E as loucas pedras
do em..empedrado
põem-se em frente
de mim, coitado.
Os transeuntes
trocam os passos
trocam os pés
trocam as pernas
e cada um
vai com as dos outros.
- estão todos loucos -
Minhas palavras
já não se entendem
umas co...com as outras...
Só me apetece
mais um copinho
mas vinho é, é... louco
e louco é, é... vinho.
E até a lua
ó minha mã...mã e
julgo que está
louca também.
Estava ao sul
ali ao fundo
daquele paul
-lin...linda palavra
aquela ao sul -
Estava ao norte
ali no cimo
daquele porte
...porta.
Aonde está?
Está louca, sim
mas para mim
já tanto dá
já tanto importe
...importa.
Olho para ela
não posso olhar
seu brilho louco
vai-me cegar
E te encontrei
a...migo meu
anda práqui
que pago eu.
Mas quem és tu
a...migo meu
não te conheço
serás um louco
que me encontrou?
Loucos não quero
ao pé de mim
foge. Ttrim-trim
É a sirene
não toca bem
creio que está
louca também
Vem-me buscar
a ambulância
toca trim- trim
assim, assim...
Geraldes de...de...Carvalho
( de quarenta –ou coisa assim- poemas de muito amor e pouca promiscuidade )
peixe no poço
Lá no meu poço
havia havia
um peixe obscuro
que não mexia.
E tão obscuro
era esse peixe
que parecia...
Que parecia
nem peixe ser
até que um dia
senti mexer.
Peixe tão belo
não pode haver.
Queria vê-lo.
Fui lá ao fundo
do poço meu
mas nenhum peixe
apareceu.
Ó, onde estás
meu peixe amado ?
quero-te aqui
bem a meu lado.
E o peixe disse
-isso ouvi eu-:
Também a mim
me pareceu
que havia um homem
aí no céu.
E fui lá ver
mas nenhum homem
apareceu
Voltei aqui...
Homem é sonho
no mundo meu.
Geraldes de Carvalho
Ps.:
Se fosses peixe
bem te comia
mas tu és sonho
que eu bem sabia,
respondi eu.
Geraldes de Carvalho
(de quase quarenta poemas de amor e alguma fantasia)
Aves,aves,aves
Aves azuis
que mal se vêem
no céu azul
são minhas marcas de ser.
Vermelhas fossem
era melhor.
E se eu me alegro
as minhas aves
mudam de cor
Voam rasteiro
pousam em mim
de que cor são?
Se me entristeço,
aves que são,
bicam-me aqui
no coração.
Por isso voo
ao fim do mundo
bicando aqui
bicando ali
com bico agudo
pois ave sou
do coração.
Mesmo ave sendo
medo lhes tenho
se são escuras
e barulhentas
como são, são.
Geraldes de Carvalho
(de trinta e nove -ou coisa assim- poemas de muito amor e pouca promiscuidade)
Assim, assim...
Meu louco pensamento
cresce cresce e arrebenta.
Espalha esporos
dos limítrofes para o centro.
Esporos que hão-de germinar
e gerar
mais pensamento
até me sufocar,
me afogar.
Poetisa
vem até mim
por favor
a cantar
velhíssimas romanças.
Fala-me brando
diz-me que sou o teu amor
para que eu possa adormecer
e por fim
nada mais ser
e nada mais
pensar
assim, assim.
Geraldes de Carvalho
Aonde estás, ó ar
Dentro de casa
não posso estar
preciso de ar.
Saí para a rua
mas não achei
caminho meu
Cá nesta rua
há muita gente
anda despida
é indecente.
E mesmo eu
estou sem chapéu
estou sem gravata
por isso estou
aqui sentado
envergonhado.
Vesti gravata
pus um chapéu
já não sou eu.
Pus-me a andar
e a respirar
isto é bem giro
ó pistotiro.
Ó pistotiro
grabato eu
o eu que eu fui
está no céu.
Vim num andor
recomendado
pelo prior.
Encontrei deus
que foi eleito
pelos seus
disse sou bom
eu não achei
e desandei
-O eu que fui
não me obriguem
a repetir
porque não rima-
Disse-lhe adeus
ao deus dos céus.
Precisei de ir
lá à privada
mas estava toda
emporcalhada.
Ó quem me dera
em casa estar
mas não me encontro
tenho só ar.
Ar não me falta
só falto eu.
Quem me perdeu ?
geraldes de carvalho
...não me comas
Não, não me comas
olhos de lua
essa é a minha alma
não é a tua.
Se me quiseres
fica emprestada
por três mil beijos
é quase dada .
Quando eu quiser
estás avisada
das-ma de volta
mas bem beijada.
Geraldes de Carvalho
de 33 ou 34 poemas de muito amor e pouca trivialidade
Assim, assim...-5
Ó terra
minha mãe
minha irmã
minha vida
minha amada
minha tudo
e nada
porque nada sou
porque não sou nada.
E porém
o nada de que sou
construido
é tudo à minha volta
e faz sentido.
Terra,
terra castanha escura
dos meus terrores
e verde ou amarela dos meus sonhos
e negra dos meus outros sonhos
de todas as cores.
Como me esqueço de ti
como me esqueço de mim.
Porque me esqueço de ti?
Porque me esqueço de mim.
De ti nasci
A ti beijei
e abracei
e engoli
até que em ti fiquei
até que tu ficaste
em mim.
Por isso é que te esqueço
por isso te esqueci.
assim, assim
assim, assim...
Geraldes de Carvalho
27-03-08
O nosso amor não é...não
O nosso amor não é como o sonhamos, não
nos arroja no chão.
O nosso amor não nos permite o céu
ele é o inferno, teu
e meu.
O nosso amor não nos dá paz
a guerra, é o que traz.
O nosso amor não é para cantar
é para gritar
de dor.
Assim é nosso amor.
O nosso amor à noite se serena.
Às vezes
ó por vezes,
muitas vezes,
a noite é tão pequena !
O nosso amor não nos deixa esquecer
o que não queremos ser
mas somos porque somos
somos, fomos, somos.
Por vezes, meu amor
não te conheço
nem te reconheço.
E no entanto amor
ó meu amor
meu amor,
meu amor
meu amor...
Diz-me quem sou
porque sem ti não sou.
Ensina o meu falar
Mostra-me como é olhar
Guia as minhas mãos
Afina o meu gostar
Aprende-me e ensina-me
a ouvir
Apura o meu cheirar
Mostra-me como é andar
Porque sem ti
não sou,
não estou
aqui,
nem quero
estar.
Geraldes de Carvalho
M E T A M O R F O S E





METAMORFOSE
DE MIM -com a câmara do computador
PARA MIM -com a ajuda do Grafhic Converter
Geraldes de Carvalho
Ó GENTE DA MINHA TERRA
- ASSIM, ASSIM...-
ou
UM PÉ NA PATA OUTRO NA POÇA
“Ó gente da minha terra
agora é que eu percebi”
que quem te cantava assim
pouco sabia de ti.
cantava porque soava,
e acompanhava,
o tlim-tlim .
Minha terra, minha terra
quem te conhece
hoje
a ti ?
Quem sabe das tuas gentes
que sofrem nos lodaçais
-ainda que não chova agora
parece que nunca mais-
e que apesar disso cantam
para não sofrerem mais .
-ora, ora...-
Quem sabe das tuas gentes
nunca chega a perceber
porque é que as tuas gentes
nunca param de sofrer
- não sofreríamos nós mais(?)
-se soubéssemos sofrer...-
Mulheres vestem casacos
de cambraia
e amam os aventais
mas por debaixo da saia
rodada ,
nada, nada têm mais.
E há quem diga que são lindas
assim...
Dançam de braços no ar
sorriem como quem tem
mas quem as conhece bem
sabe que vão a chorar
-porque já não têm mais...-
Não têm nada de seu
salvo sejam os seus filhos
que trazem como empecilhos
pendurados nos seus peitos
E há quem diga que são lindas
assim...
-E há quem diga que são jeitos...-
Vão aos superes comprar
compram o que não precisam
e que não podem pagar
pagam com cartão bancário
com os juros a dobrar,
juros que nós pagaremos
a somar...com o capital
-Ó bancos da minha terra
só agora percebi
como se ganha dinheiro
e nada parece mal .-
Quem é que nos manda a nós
-quem é que te manda a ti-
termos o que elas não têm ?
Bem sabem elas que a gente
tem o que não pode ter
Sofrem elas (?), indecente(!)
nós devíamos sofrer ...
-digo isto, mas não ouvi -.
E os homens?
Ó os homens são iguais
se não são ainda mais
Ó gente da minha terra
só agora percebi
como acabava a cantiga
que ela cantava
assim, assim...
Geraldes de Carvalho
...ou talvez a gente dela
ou talvez a terra dela
não seja a mesma de mim
E por ela, a gente dela,
e por ela, a terra dela,
canta ela,
chora ela
assim assim...
Geraldes de Carvalho
13-02-08
Simples lírica -
I
À beira da tua porta
há um assento de pedra
onde de noite me assento
à tua espera.
Mas se dentro, em tua casa
sinto falar ou bulir,
finjo estar adormecido
para não ter de fugir.
II
Sob o reverde cintilar
das árvores azuis
na manhã clara,
meu límpido olhar
de boas intenções
sabiamente isento,
nem olha nem não olha,
apenas olha
soberbas sombras
que, só de olhar, desdenha...
Geraldes de Carvalho
de "novos e velhos cantos" Évora 2006
Post. em 01-02-08 : Tenho a certeza que V.mcês não suportam a prosa abaixo -prosa, abaixo!- . Eu também não . Tenho a certeza -estas minhas certezas!- de que gostarão muito mais destes versos da minha juventude :
O segundo cântico da humilhação
De borco , caído
no chão da agonia,
a pó que eu mordia
que bem me sabia
a pó da agonia.
Chamei-te; chamava:
Maria! Maria!
Ninguém acordava
na noite
que ouvia
espantada.
Chamei-te; vieste
na pó que eu mordia
quando abria a boca ...
Que bem me sabia
o pó da agonia!
Deitei-me de costas
para ver se dormia.
Pela madrugada
o pó me cobria,
o pó me tragava,
o pó me mordia!
Chamei-te; chamava:
Maria! Maria!
O mundo acordava
ninguém se detia.
Chamei-te; vieste
no pó que eu vestia ...
Que bem que eu sabia
ao pó da agonia!
Geraldes de Carvalho
de "Sombras de Alma" Coimbra 1955
Post. em 28-01-08 :
Do conhecimento... - I -
A análise dispersa o nosso conhecimento no afã de o estender, de conhecer mais, de conhecer até ao fim; dispersa-nos. A síntese pelo contrário reúne-nos porque tomamos as pontas do conhecimento e as amassamos fazendo dele uma bola de concretude.
O problema é que para conseguirmos a síntese - a segunda, a final - temos de nos arriscar na análise para criar as pontas, a massa da amassadura em que, as mais das vezes, nos perdemos: Por causa disso a vida, a vida do pensamento é uma aventura tão perigosa.
E é por essa razão que muitas vezes, por preguiça e por medo, preferimos ficar na síntese inicial ou dispersos, na análise.
Há assim três tipos de pessoas :
As superficiais que tratam as primeiras sínteses, as meras percepções dos sentidos, como se fossem a realidade e as combinam em sínteses complexas afastando-se cada vez mais da verdadeira realidade . Aqueles que param na análise e combinam as pontas da realidade criando cada vez mais pontas em que, finalmente, se perdem e finalmente os que fazem as sínteses finais chegam ao conhecimento real o qual, porém, gera um conhecimento contraditório que precisa de ser superado por um novo processo de síntese análise e síntese, indefinidamente.
É claro que nenhum destes tipos de pessoas existe efectivamente. Existem apenas como possibilidades de ser. Se a percepção é simples podemos fazer a análise e a síntese final sem dar por isso . Se é um pouco mais complexa podemos parar na análise convencidos de que chegamos ao fim do processo do conhecimento. Mas, por vezes, já a sensação é tão complexa que, só ela, nos cansa e não nos animamos a ir mais longe.
O que distingue as pessoas é que algumas são capazes de passar à análise num caso em que outras se ficam pela primeira síntese e outras são capazes, por vezes, de ir até ao fim nos casos em que outras se ficam pela análise ou mesmo pela primeira síntese. Poucos são aqueles que ousam tentar ultrapassar as contradições até porque para isso precisam de voltar àquilo que parece ser o princípio se não se tiver um olho arguto capaz de perceber que esse princípio está num plano superior .
Que chatice ein ! Será que serei capaz de passar à análise...(?)
Geraldes de Carvalho
Do conhecimento - II -
Temo que tenham ficado com uma ideia errada -simplista, logo errada- sobre a maneira como concebo a génese do pensamento.
Na verdade expressei-me muito mal dando a impressão que penso que o pensamento é uma actividade individualista e que há “pessoas” que são capazes de levar o pensamento mais longe do que outras. E outras que são mesmo capazes de o levar até ao fim.
Isto pode ter sido verdadeiro até ao séc. 17 ou 18 mas, entretanto, deixou pouco a pouco de sê-lo -verdadeiro-.
O conhecimento é hoje uma actividade colectiva de maneira que sobre um determinado assunto -o pensamento, por ex. - alguns sábios -chamemos-lhe assim- formulam apenas as sínteses iniciais -ou seja dizem coisas- que depois os outros pegam -ou não- e analisam exaustivamente, análises que outras pessoas pegam, ou não, dedicando-se a construir as sínteses finais depois de se desfazerem da muita tralha em que a análise vem quase sempre envolvida.
E é claro que a ganga que inquina o conhecimento aparece muitas vezes logo na primeira síntese que pode revelar-se completamente imprópria para qualquer análise ou na síntese final que pode ser absolutamente não exigida pela análise. Acontece também que por vezes estes erros se revelam, mais tarde, ser falsos erros, erros que só foram entendidos como tais devido ao facto de um incompetente raciocínio ou de um raciocínio inquinado pelas incompletudes do conhecimento. Daí que se retomem muitas primeiras sínteses, análises e sínteses finais, antes indevidamente abandonadas algumas vezes por canhestrice -a palavra não existe mas gosto dela- outra vezes porque teve mesmo de ser assim.
Não falta por isso quem diga que a ciência é o estudo dos erros do processo de conhecer.
Algumas vezes os cientistas, filósofos e epistemólogos têm consciência da impossibilidade de se dedicarem ao estudo da realidade por completo principalmente quando trabalham em conjunto -num instituto científico ou filosófico ou lá o que seja. Outra vezes porém não se apercebem do fenómeno e tentam efectivamente realizar todo o processo o que na verdade só os faz perder tempo porque resulta muita coisa inútil ou já sabida, daquilo que tentam fazer .
E isto passou a ser assim devido à extensão desmedida do conhecimento e às relações estreitas que há entre um conhecimento e todos os outros de maneira que se chega à conclusão de que existe um conhecimento só, que ninguém consegue abarcar . O processo complica-se ainda mais para aqueles que conseguem ver as contradições que resultam das sínteses “finais” formulando assim novas primeiras sínteses que necessitarão de novas análises etc, etc.
É claro que actualmente já se não formulam as primeiras primeiríssimas sínteses porque o pensamento é uno não só em extensão mas também em profundidade, quero dizer -e não sei se digo- ao longo do tempo e dos tempos.
É também claríssimo que há sectores do pensamento que avançam mais rapidamente do que outros e por isso acontece muitas vezes que é preciso refazer esses sectores do conhecimento que avançaram sem atender às ligações necessárias com outros sectores como acima já dei a entender.
No entanto, desses sectores que é necessário deitar fora, fica sempre alguma coisa ; pelo menos a boa vontade dos que neles trabalharam.
É o que espero que fique deste meu esforço...
Geraldes de Carvalho
do conhecimento –III- ...e da realidade
Como se sabe- quem sabe- Sócrates, ou Platão por ele, ou ambos os dois -o tipo que
inventou o pleonasmo não tinha a mínima sensibilidade literária- acreditavam na
reencarnação -ou se quiserem, mais bonito, na metempsicose . Por isso é que o seu -de
Sócrates - tipo de ensino consistia na ajuda ao parto de antigos saberes - e não julguem
que eu não conheço o termo maiêutica : sei muito mais do que vós imaginais, ainda que
não tanto como Vosmeçês, é claro.
Na verdade eles, com a cabeça cheia das estórias dos deuses, mal podiam acreditar que se
pudesse avançar na ciência das coisas senão através de meios tão maravilhosos como elas
- as estórias dos antigos deuses . Não podiam acreditar que a realidade estivesse mesmo
em frente dos seus olhos. Essa realidade parecia-lhes demasiado mesquinha comparada
com as histórias dos seus deuses .
E tinham razão porque a realidade era demasiadamente mesquinha. E porquê ?
Porque eles não inventaram o microscópio para ver o infinitamente pequeno nem o
telescópico para ver o infinitamente grande. E por que é que não inventaram, eles que
eram tão infinitamente -gostei da palavra- dados à meditação ? Pois porque tinham a
escravatura.
É preciso dizer aqui que a escravatura começou por ser uma boa coisa. No princípio dos
princípios -do homem- quando duas tribos -chamemos-lhes assim à falta de melhor -
também lhes podíamos chamar bandos -o que não sei se melhor seria- se encontravam,
não se reconheciam como pertencentes à mesma espécie e por isso a vencedora eliminava
a vencida e comi-a.
Ai aconteceu que um génio -que abundavam muito naqueles tempos- percebeu que afinal
eles -os vencidos-seriam capazes de trabalhar para os vencedores e passaram a capturá-
los para o efeito .Esta escravatura era portanto boa de acordo com os nossos valores
actuais porque substituía a morte pela vida.
Foi um belo progresso.
Nessa altura ainda não teriam percebido que os vencidos também eram homens - porque
afinal eles já domesticava -agora estou a inventar - alguns animais para trabalhar para
eles. De qualquer maneira eles descobriram a humanidade dos cativos quando estes
aprenderam a sua -dos vencedores - linguagem .
Só que, quando descobriram que os escravos também eram homens já tinham gozado
muito os nefandos prazeres de terem quem trabalhasse para eles e não abandonaram a
escravatura e isso foi uma autentica calamidade para o processo do conhecimento. E
porquê ?
Porque os homens que trabalhavam com o cérebro não eram os mesmos que trabalhavam
com as mãos. Aí as mãos zangaram-se -porque tinham sido feitas pelo seu amigo
cérebro e o cérebro zangou-se porque havia sido feito pelas suas amigas mãos.
As mãos fizeram as guerras, de que as actuais são filhas directas -ou, podemos mesmo
dizer, dilectas- e o cérebro...sem as mãos, deixou de inventar o microscópio e o
telescópio... e passou a trabalhar no vago e no vácuo com a habilidade que lhe é própria e
inventou a metafísica. -Espero que não tomem demasiado à letra estas minhas
parábolas...- .
Ora quando alguns homens perceberam isto -a ratoeira em que havia caído o
conhecimento- começaram a utilizar o cérebro e as mãos e as mãos e o cérebro e
inventaram o microscópio e o telescópio. Descobriram então que a realidade era tão
maravilhosa como o mundo dos deuses, começaram a abandonar estes e a olhar cá para
baixo e lá para cima -para os astros- e começaram-apenas começaram- a ver que afinal
o conhecimento seguia a mesma via da realidade. Também a realidade é, ao princípio, a
primeira síntese do que nos parece que é. Deve ser sujeita a uma análise que nos mostra
que afinal as coisas são bastante diferentes e por fim a uma segunda síntese que acaba
por nos mostrar que a realidade já não é o que era, precisa de um segunda análise e
assim sucessivamente.
Não quero que fiquem a pensar que penso nestas coisas como se elas acontecessem
cronologicamente. Mesmo na antiga Grécia já nasceu Heráclito -gosto mais da palavra
esdrúxula - só que não vingou, imediatamente pelo menos - porque o terreno não lhe era propício .
Ó caraças, já estou cansado.
Vossas mercês -meus queridos dois leitores- também...suponho.
Geraldes de Carvalho
28-01-07