Quarta-feira, Dezembro 02, 2009

Assim é escrever :


Hoje subi aos infernos

-aqui, cá dentro de mim-

onde estão os meus parentes

e os vossos,

e ouvi das suas bocas

silenciosas

as palavras verrinosas

-e também as graciosas-

com que componho os poemas.


Não me culpeis pois por eles

eles os vossos parentes,

eles os meus ascendentes,

eles poemas que escrevo,

elas palavras dizentes

palavras em que por vezes,

muitas vezes,

até

me enredo.


Geraldes de Carvalho


Terça-feira, Dezembro 01, 2009

Graal

Graal



Também eu persegui esse graal

cálice ou pedra verde ou livro,

sangue de um deus

que sempre se negou .

Ó minha vida !

Vem até mim

meu sangue .

Sangue que minha mãe verteu pra me parir .

Meu deus sangrando és tu .

Outro graal não quero agora

que me transtorne o espírito e o leve

onde a razão não mora.


Geraldes de Carvalho


Sexta-feira, Novembro 20, 2009

Vento sopra sobre a barca


Vento sopra sobre a barca

lento, lento


mas a barca se desloca

como louca


O que faz a barca andar(?)

é o que pergunta o mar.


Ela foge de uma ideia

que a persegue cheia cheia


de maléfica intenção

-ninguém pega a sua mão.-


Anda aqui ó barca minha.

Essa ideia, minha barca


só existe

na tua imaginação


feita vela

engravidada do vento

que se pôs nela .


Geraldes de Carvalho

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

Choro de vento

Choro de vento


Chora o vento

chora o vento

e eu adormeço a sonhar

que tu vens de passo lento

fazer o vento calar.


Mas quando acordo

horas mortas

chora o vento tanto tanto

que eu sinto escorrer-lhe o pranto

nas vidraças e nas portas.


Quem chora assim como tu

sem ter alguém por quem

chore

é sina que fique assim

chorando só para si .


Cala-te ó vento

meu vento

meu choro é aqui de dentro

não quero ver-lhe os sinais .


Choro de vento vai longe

e às vezes não volta mais .


Geraldes de Carvalho



Domingo, Novembro 01, 2009


Amo-te tanto


Amo-te tanto, meu amor

com tanta concentração

que às vezes nem sei se existes

ou não.


O mundo desaparece

não distingo nada

não.


Então

meu eu

também me esquece .

E ao esquecer-me

se relembra

de mim

de ti.


Vejo então

que estão

tu e eu dentro de mim .


E é bom.


Geraldes de Carvalho

de 84 poemas de muito amor e etc


Domingo, Outubro 25, 2009

O sim e o não

O não e o sim


Se o sim comer o não

o que fica ?

São ?


Se o não comer o sim

o que fica ?

Nin?


O não era o Abel

que só seguia deus

Só tinha não

não tinha

pensamentos seus.


E o sim era Caím

que, sendo mau

ou seja

não ligando a deus

pensava, sim.


E o sim matou o não

e desde então

os Homens são

e são

e são.


Geraldes de Carvalho

de oitenta e um poemas de muito amor e etc.


Sexta-feira, Outubro 16, 2009

Jogo

Caros confrades, amigos, vizinhos de aquém e além Minho, e amantes das belas letras em geral:

Lembram-se do divertido Sorteio do Traste Galego que, há já vários meses atrás, manteve os nossos blogues em tão grande e animada actividade, e que redundou, depois, em trocas de deliciosos produtos e iguarias regionais por toda a Península Ibérica e várias ilhas Atlânticas, além de – o melhor de tudo – em muitas novas e belas amizades? Pois o meu estimado amigo e vizinho Manuel Rodrigues acaba de me envolver num novo sorteio… desta vez, literário!

E se eu não consegui resistir, em tempos, às iguarias Galegas, Portuguesas, e outras próximas, muito menos consigo resistir, em qualquer tempo, a… delícias literárias, pelo que aqui vos deixo a explicação do corrente sorteio, nas palavras do próprio Manuel:

“Cada blog escolle un libro do mundo litetario galego (entendendo por galego aquel que emprega a Lingua Galega) ou português (que en certo modo non deixa de ser unha variante do mesmo idioma). Posteriormente pasaselle o relevo aos 5 blogues que cadaquén considere para que sigan co xogo. O día 30 de Novembro deste presente 2009 todos os mantedores sortean o libro entre os comentarios da entrada. Sería interesante que cada blog escollese un autor da súa zona…”

… e assim fazendo, declaro que a obra a que se candidata quem deixar comentários no blogue desta vossa amiga, é, nem mais nem menos, do que “Amor de Perdição”, um clássico da literatura Portuguesa, da autoria do meu ilustríssimo vizinho (praticamente paredes meias) Camilo Castello Branco!

Eu escolhi o meu livro "Novos e Velhos Cantos" porque não tinha a certeza de encontrar nas livrarias os livros de que gosto .
Geraldes de Carvalho

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

Auto-análise

Auto-análise


Assento-me no escabelo da minha consciência

e assisto

maravilhado

ao desenrolar de múltiplos e incondicionáveis acontecimentos.

Que espectáculo maravilhoso !

Mas é preciso não sofrer de vertigens para suportá-lo.

Nascem-me

não sei de onde nem como

ideias que borbulham ao princípio timidamente

para depois se imporem

e tudo ameaçarem inundar .

E assim como vieram assim se vão

deixando é certo

uma impressão de imensa frescura

mas absolutamente nada de menos indefinido .

E as lembranças (?)

que assomam de buracos imprevisíveis

como os ratos no cinema de Disney

e conforme encontram o terreno livre ou perigoso

assim se instalam mas nunca tranquilamente

ou passam correndo

apenas reconhecíveis pelo sentimento .

Também me enervam os ratos

mas não fujo para cima de nenhuma mesa.

Fico ali

assistindo a cópulas monstruosas

em que dois -ou mais-

destes seres inominados

se juntam e misturam impudicamente.

Pensamentos chamo eu

aos nascidos de partos de todas as categorias.

E, sempre sentado

no escabelo da minha consciência

assisto ao crescimento dos meus pensamentos.

Sigo-lhes a vida a par e passo .

São milhares .

Discorrem ao princípio tranquilamente

a um lado e outro lado do conhecimento

e se encontram um pequeno obstáculo

fazem dele motivo de brincadeira :

Pequenos muros que saltam como cabritos contentes

muros maiores que transpõem com galhardia

e maiores que transpõem com heroicidade .

São assim os meus pensamentos.

A sua vida é alegre

mas não muito gloriosa

até que chegam ao último obstáculo.

É um muro grande grande

de que não se vê o cimo

mas parece um muro deste lado.

Também podemos chamar-lhe o mistério

que é uma palavra

para o que não tem palavras.

E depois que lá chegaram

e o enfrentaram

sem o conseguir ultrapassar

obstinam-se louca e encarniçadamente.

Empinam-se como cavalos generosos

e batem-lhe com as patas dianteiras.

Quando reconhecem a inutilidade dos seus esforços

quedam-se e reúnem-se para deliberar.

Então começam os desentendimentos.

Cada um tem a sua própria resolução

e engalfinham-se como galos estúpidos e barulhentos.

É aí que eu me levanto do meu escabelo

e cego pela ira

-porque eu não admito violências-

procuro separar os contendores.

Luto com eles sem lhes ver a face

-irado como estou-.

É uma luta terrível e silenciosa

e subitamente

encontro-me a esbofeteá-los .

Então uma grande calma nos invade

e voltam para mim

a minha face magoada.

É por isso

é por isso que eu tenho esta face magoada...


Geraldes de Carvalho

de "A outra luta de Jacob"- Beira-Moçambique -1964




Quarta-feira, Setembro 23, 2009

Ó Tejo-mar



Ó Tejo-mar

ó Tejo meu

nas tuas águas

se afunda

o pensamento

que sou eu.

E ali

invento

o navegar

que nos levou tão longe

que não soubemos já

ficar.

E é ficar que devemos

que os outros povos têm

também

os sonhos que são seus

de mais ninguém.

Às vezes,

Tejo meu,

me apetece

em ti morrer.

Sei que me levarias para longe

lá onde mora-habita

o meu sonhar.

Longe que não existe

que seja meu

eu sei,

porque todos os longes

de além

já são de alguém.

E assim,

ó Tejo-meu

se eu quero ir longe

não será navegando.

Só pode ser voando

além do Tejo

além do mar

além do além.


Geraldes de Carvalho

Domingo, Setembro 06, 2009

bucólica

bucólica...



Ó , como luzem os campos

percorridos por Lusenda,

como verdecem os prados

em que ela se acoita e esconde

para beijar desvanecida

Rosendo que é sua vida .


Como reluzem os campos

que apenas são deles,

ambos .


Geraldes de Carvalho

de sessenta e tal poemas de muito amor e pouca futilidade


Terça-feira, Agosto 11, 2009



mundo sonhado

o homem do futuro



Do sopé ao cume

da alta montanha

menino de berço

de berço encantado

transportado ao ombro

de alta figura

figura tamanha,

vai buscando a luz

que está lá em cima,

em cima enredada

num alto pinheiro.


E chegando lá

ao pinheiro alto

menino dourado

a luz se lhe rende

menino encantado

a luz e o menino

estão de boca e peito

e tudo ligado

e o mundo desperto

o mundo acordado.


Óh mundo

tu és

o mundo que eu via

o mundo perdido

que eu conhecia?


Não, agora não sou.

Agora sou luz

pertenço ao menino

que eu abençoei

sou por ele amado.

Para vós. os homens,

os homens de agora,

eu sou ignorado

mas para o menino

sou querido

e amado.


Geraldes de Carvalho


Ps :

E assim se acabou

rimado

rimando

meu conto

meu conto

meu canto.


Geraldes de Carvalho

(de setenta e tal poemas de muito amor e pouca futilidade)

Sexta-feira, Agosto 07, 2009


O amor o amor sempre o amor


Dezembro está a cair

vem janeiro começar

fevereiro é o mês do frio

março é todo do luar

e em abril nascem as flores

que em maio estão a cantar

e em junho canta o trigo

e julho é todo de mar

agosto é o mês do sol

setembro tudo adormece

outubro pintam as folhas

que em novembro vão voar.


E tudo isto acontece

em vão

porque o amor, o amor

o amor não chega não .


geraldes de carvalho


Domingo, Agosto 02, 2009


A água que escorre...



A água que escorre

na minha janela

não não quero vê-la.


É água que cai

cá dentro de mim.

Não não quero vê-la

assim, assim...


É água que soa

quando estou calado.

Não não quero ouvi-la

não não quero vê-la

aqui ao meu lado.


É água que soa

doce murmurar.

Não não quero vê-la

não não quero ouvi-la .

Por favor calai-a

com vosso cantar.




É água que sinto

no meu corpo todo

escorrendo

escorrendo.

Óh, vinde me lavar

que essa água se vá

se vá para o mar

e que nunca mais volte .

Não queira

voltar .


Geraldes de Carvalho

PS:

A água que escorre

é meu choro

não, não quero vê-lo.

GDEC

Terça-feira, Julho 28, 2009

Estes penduricalhos perturbam-me e fazem-me perder a cabeça . Foi assim que vos brindei duas vezes com o mais horrível dos horríveis, o 8º . Vamos ver se tal não me acontece outra vez...


9º penduricalho

Um dos meus penduricalhos é mais fino do que uma lesma . Não, não, minhoca. Minhoca era o que eu queria dizer.

Não que tenha o menor interesse , a diferença, mas a verdade acima de tudo . Foi o que aprendi do meu pai e disso não abdico de forma alguma.

Durante muitos anos, ou dias ou minutos -já sabem que não tenho jeito nenhum para avaliar estas medidas do tempo - não liguei nenhuma a tal penduricalho muito embora ele badalasse de forma irritante em frente dos meus olhos . Mas hoje -ou ontem - ele exagerou o badalar .

Ai é assim(?) disse eu . Vou-me meter dentro de ti para ver como é o mundo na perspectiva de uma minhoca.

E, dito isto, ou mais depressa ainda, já me encontrava debaixo da terra engolindo uma porção dela a qual chegando ao outro extremo do meu corpo saía toda transformadinha em fértil húmus .

Ó que bela maravilha, declamei . Por todo o lado em que passo nascem pereiras e castanheiros batatas e alcachofras . E ainda dizem que deus está lá em cima . Aqui em baixo é que está. Já viram alguma alcachofra que nascesse lá em cima ? Já viram alguma batata, uma laranjeira, um pessegueiro ? Olhem aqui, se fazem favor, para de trás de mim.

E era um pomar, uma horta, uma seara a perder de vista.

As plantas nasciam e cresciam vertiginosamente e eu tinhas de engolir cada vez com maior rapidez a terra à minha frente e cagá-la com maior rapidez ainda . A certa altura não aguentei mais. Fui apanhado por uma radícula que depressa se transformou numa raiz que me enredou e me puxou para um dos vasos da seiva. E fui subindo por ali acima até ao cimo daquela árvore que por acaso era uma sequóia .

Olhei á minha volta e vi nada.

Abri a boca e nada engoli.

Áh! isto é que deve ser o tal deus .

Vou-me mas é embora para a minha caminha e nunca mais quero ver o raio do tal penduricalho

Assim fiz e depressa adormeci que foi um regalo.


Geraldes de Carvalho

Terça-feira, Julho 14, 2009


8º evento

O meu penduricalho mais barulhento começou hoje a queixar-se de que não lhe dou atenção alguma e que assim, disse, desisto, vou-me embora, deserto, abandono-te, deixo-te...

Espera aí, espera aí , disse eu : Vais-te embora como ? Como é que vais viver sem mim, tu que és apenas um pedacinho desprezível da minha mente ?

Ai, desprezível ? E esta dor, aguentas ?

Ai, ai, aiiii

E esta angústia aguentas ?

Aaaaaaiii...Pára com isso, pára com isso, por favor . Vou hoje contar aquela coisa horrível que me fizeste tresanteontem , mas depois não te queixes.

Coisas horríveis eu gosto mesmo .

E foi assim que...Logo que me deitei comecei a sonhar uma coisa disparatada de que me não lembra nadinha mesmo .

Não me digam que vou ficar toda a noite nisto e vou acordar estourado de todo e, ainda por cima, sem saber porquê?

Não, não, disse a garota que estava a passear ao meu lado e ligeiramente à frente . Sabemos que és um rapazinho muito bem comportado mas isso será de dia, quando estás acordado , disse ela cantando e perlongando aquela vogal que rimava, assim: acordaaaaaaado.

Ó, ó parece que vou ter sorte, pensei eu e fui-me chegando . A verdade porém é que parece que nunca mais chegava junto dela embora me aproximasse cada vez mais.

Não me digam, meditei que estou aqui a encontrar aquele absurdo paradoxo da lebre que não pode agarrar a tartaruga porque ... ( bem . V.cês conhecem o paradoxo... Ou não? ).

Apressei o passo e ela começou a rir . Era um riso de gozo, indecente e debochado . Reparei nos seus dentes podres que soltavam um cheiro insuportável.

Apesar de tudo continuava muito excitado a procurar apanhá-la e estava quase a tocar-lhe no braço quando o mesmo se desfez escorrendo para o chão com aquele mesmo cheiro que provinha dos dentes podres . Estava quase a apanhar-lhe o ombro mas aconteceu a mesma coisa. E foi acontecendo o mesmo enquanto eu estava quase a apanhar-lhe as mais diversas partes do corpo. Por fim ficou apenas a boca e os dentes podres com os quais ela conseguia continuar com aquele descarado riso. E eu, excitado e enojadíssimo, procurava agarrá-la pelos dentes quando acordei todo assarapantado, todo excitado, todo molhado.


Geraldes de Carvalho

Domingo, Julho 12, 2009


Amo-te tanto


Amo-te tanto, meu amor

com tanta concentração

que às vezes nem sei se existes

ou não.


O mundo desaparece

não distingo nada

não.


Então

meu eu

também me esquece

e ao esquecer-me

se relembra

de mim

de ti.


Vejo então

que estão

tu e eu

dentro de mim


e é bom.


Geraldes de Carvalho


Segunda-feira, Junho 29, 2009






foi ontem


Foi ontem que nos casamos

E meio século se passou

sem que o sintamos.


Ontem éramos meninos

hoje somos ainda

mais pequeninos.


Ás vezes nos zangamos, é verdade

mas depois nos beijamos

de felicidade .


Outro meio século viveremos

eu e tu

depois virá uma estrela

ou uma simples quasar

e ficaremos eternamente

no ar.


Geraldes de Carvalho







Quase

E foi então que
quando a tua boca se aproximava
me esqueci de ti
-de quanto queria
beijá-la-.

Quando a tua mão se estendia
me esqueci do que sentia
-de quanto queria apertá-la-.

Quando os nossos olhares se cruzaram
me esqueci
de que sabia olhar
-de quanto queria abraçá-los
e afundar-me neles-.

Quando a palavra soou
me esqueci
de que sabia ouvi-la
-de quanto queria guardá-la
e cantá-la também-.

Por que será meu amor
que quase quero
quase te quero
quase te abraço
e te beijo
quase te ouço
e te vejo
quase te guardo
e te amo
meu amor!

Geraldes de Carvalho

Quinta-feira, Junho 11, 2009

Ninguém se impressionou com o meu sétimo penduricalho .
Talvez o 8º ?


8º evento -que é o mesmo que dizer 8º penduricalho-


O meu penduricalho mais barulhento começou hoje a queixar-se de que não lhe dou atenção alguma e que assim, disse, desisto, vou-me embora, deserto, abandono-te, deixo-te...

Espera aí, espera aí , disse eu : Vais-te embora como ? Como é que vais viver sem mim, tu que és apenas um pedacinho desprezível da minha mente ?

Ai, desprezível ? E esta dor, aguentas ?

Ai, ai, aiiii

E esta angústia aguentas ?

Aaaaaaiii...Pára com isso, pára com isso, por favor .

Vou hoje contar aquela coisa horrível que me fizeste tresanteontem , mas depois não te queixes.

Coisas horríveis eu gosto mesmo .

E foi assim que...Logo que me deitei comecei a sonhar uma coisa disparatada de que me não lembra nadinha mesmo .

Não me digam que vou ficar toda a noite nisto e vou acordar estourado de todo e, ainda por cima, sem saber porquê?

Não, não, disse a garota que estava a passear ao meu lado e ligeiramente à frente . Sabemos que és um rapazinho muito bem comportado mas isso será de dia, quando estás acordado , disse ela cantando e perlongando aquela vogal que rimava, assim: acordaaaaaaado.

Ó, ó parece que vou ter sorte, pensei eu e fui-me chegando . A verdade porém é que parece que nunca mais chegava junto dela embora me aproximasse cada vez mais.

Não me digam, meditei que estou aqui a encontrar aquele absurdo paradoxo da lebre que não pode agarrar a tartaruga porque ... ( bem . V.cês conhecem o paradoxo, ou não? ).

Apressei o passo e ela começou a rir . Era um riso de gozo, indecente e debochado . Reparei nos seus dentes podres que soltavam um cheiro insuportável.

Apesar de tudo continuava muito excitado a procurar apanhá-la e estava quase a tocar-lhe no braço quando o mesmo se desfez escorrendo para o chão com aquele mesmo cheiro que provinha dos dentes podres . Estava quase a apanhar-lhe o ombro mas aconteceu a mesma coisa. E foi acontecendo o mesmo enquanto eu estava quase a apanhar-lhe as mais diversas partes do corpo. Por fim ficou apenas a boca e os dentes podres com os quais ela conseguia continuar com aquele descarado riso. E eu, excitado e enojadíssimo, procurava agarrá-la pelos dentes quando acordei todo assarapantado, todo excitado, todo molhado.


ugsugsrrrsss...

Geraldes de Carvalho




Quarta-feira, Junho 10, 2009


7º evento

Esta noite não me deitei. Tinha muito que fazer no meu escritório . Faço muitas vezes estas directas e sinto-me bem . A questão é que possa dormir bastante nos dias seguintes.

Mas esta noite por volta das três horas deu-me um sono terrível. Procurei lutar contra ele mas foi impossível e acabei por por a testa em cima do teclado. Algumas das letras do dito começaram a fazer-me cócegas . O pior foi que o R começou a arranhar-me. Ele é nitidamente onomatopaico . Basta-nos olhar para ele para começarmos a coçar-nos . O meu azar foi que fiquei com o olho esquerdo mesmo encostado ao dito R e como não tinha premida a tecla das maiúsculas fiquei efectivamente encostado ao r , um r que, por ser pequenino, faz ainda uma comichão mais irritante . 

Comecei a pensar como é que devia livrar-me daquilo . Uma solução seria a de desfazer-me do computador e voltar a escrever à mão com um lápis ou uma caneta e foi isso que imediatamente pus em prática

para descobrir, com o desgosto que imaginam, que dessa maneira já não sei escrever nada que uma pessoa normal possa ler. 

Também podia tentar escrever ignorando propositadamente o r mas verifiquei que então se me tornava impossível escrever a palavra amor e ficaria com o meu pior ar de tonto escrevendo amo, amo . Ora sem amor nem vale mesmo a pena escrever. Sem amor nem mesmo somos nós mesmos mas um outro que inteiramente desconhecemos e com o qual até nos podíamos dar muito mal . Não não, concluí . Sem amor não, vale mais a comichão. E fiquei muito contente com esta rima involuntária que embora seja uma rima da mais baixa categoria me deixou tão satisfeito que até esqueci a comichão.

 A comichão, concluí exultante não é senão a falta de amor. E fiquei a cantar : A falta de amor, a falta de amo..r..r..r.

A chatice toda foi que acordei enquanto esfregava o olho esquerdo, furiosamente.


Geraldes de Carvalho

Terça-feira, Junho 09, 2009


alma fugida


O que tenho de mim menos

é a alma.

Ela não aparece

quando eu estou.

Meus olhos não a vêem

nem é sensível 

à minha apalpação.

Teus olhos não a vêem

nem é sensível

à tua apalpação.

Se um amigo se afasta

chora às vezes

mas logo se retrai se é apanhada.

Finge não existir

quando eu a quero.

Só no silêncio da noite me incomoda

Murmura aos meus ouvidos

sentidos indecisos

que me fazem acordar sobressaltado

pensando que sonhei,

não a senti.

Mas, alma minha

quando eu morrer

tu ficarás

na lembrança dos que me conheceram

dos que ouviram falar de mim

dos que me leram.

E ali viverás eterna

imorredoura

um ano, pelo menos...


Geraldes de Carvalho



Quinta-feira, Maio 21, 2009


...a perna e o quadril.


És tu, és tu ainda ?

És tu que estás aqui ?

És tu que me não larga ?

O que queres de mim. ?

Não te basta meu peito?

A perna e o quadril ?

e a mão que era guardada

no fundo do redil?

Queres também a alma 

que eu fingia não ter ?

queres comer-me o olhar ?

a voz queres comer ?

talvez o meditar

também queiras comer

talvez tu queiras mesmo 

comer o meu sonhar (?)


Estou aqui mulher

de ti não vou fugir

Vem mulher, estou aqui

brilhando

a refulgir.


Geraldes de Carvalho

Terça-feira, Maio 19, 2009



As palavras são ou não são ...?



Sim, 

as palavras são demais

quando há amor.

Deixam sempre um resquício 

um depósito

que não podemos aproveitar

nem para queimar

e aquecer-nos no inverno.


O amor necessita viver nas profundezas

de nós

lá onde não chega o som

nem, dos seres sonorosos, o vibrar 

lá onde tu estás estática 

como deusa ebúrnea

que todos nós 

beijamos sem tocar

beijamos, assim, no ar

para não soar

e distrair-nos de amar .  


Amar...?

Mas amar a quem ?

A uma deusa ebúrnea?

Bem...

Prefiro amar a ti

-um outro a ti-

de sangue quente

e vibrante

ainda que o meu amor

não seja puro

e o teu

não seja puro também.

Beijar-nos-emos assim

impuramente

tocar-nos-emos com nossos dedos

impuros

zangar-nos-emos às vezes

para podermos

beijar-nos e tocar-nos

mais

quando fizermos as pazes

que não serão cerúleas

não;

nos arrojarão 

no chão.

Ali no chão

onde as nossas, muitas 

palavras,

jazerão.


Geraldes de Carvalho

(de 41 poemas de muito amor e pouca futilidade)

Sexta-feira, Maio 15, 2009

Mesmo correndo o risco de ser considerado em estado de senilidade, apresento-vos aqui a minha bisneta...

Domingo, Maio 10, 2009

A tragédia da alegria -nova versão muito aumentada e modificada


A tragédia da Alegria




Quando o meu coração se enche de amor

a alegria extravasa pelos meus olhos

arrepanha-me os lábios 

enche de sons a minha garganta

dilata-me o peito .

As minhas pernas saltam

os meus pés dançam

e eu me extasio.


Discretamente caminho pelas ruas

fazendo um enorme esforço

para não disparar.

O meu céu fica cheio de pássaros cantantes

as árvores cheias de frutos suculentos

e cada folha é uma flor.


Serão elas que eu ouço cantar

por todo o céu?

Elas as folhas-flores

As aves-frutos ?


As pessoas olham para mim 

com olhar prazenteiro

Alguns desconhecidos 

chegam a cumprimentar-me

Como está? Está bem ? dizem-me.

As crianças brincam comigo seus jogos prazerosos 

Os velhos oferecem-me os seus últimos sorrisos

As mulheres... ó as mulheres, as mulheres.



Meu coração está cheio a rebentar.

A quem é que eu devo dar o meu amor ?


Aonde estás tu 

aquela que eu amei sonhar

e amar ?


Como penteias os teus cabelos ?

Como desenhas o teu riso ?

O que pensas ?

como caminhas ?


Porque não vens ?


Devias vir 

e dar sentido à minha alegria.

Devias vir 

e dar a voz a este canto

Devias vir 

comer os frutos suculentos na minha boca

Devias vir morder meus lábios arrepanhados.



Devias vir encher meu peito

apertar minhas pernas

beijar meus pés

cocegar minha barriga.

Devias vir

ameigar as aves

que adejam à minha volta

mas não pousam.

Devias vir

brincar comigo

feita como eu

uma criança.

Devias vir

aparar o riso dos avós

não os deixar dizer adeus.

Devias vir

devias vir

tu mulher

mulher

mulher.


Talvez assim

a minha alegria

não fosse

a tragédia

alegria.


Geraldes de Carvalho








foi ontem




Foi ontem que nos casamos

E meio século se passou

sem que o sintamos.




Ontem éramos meninos

hoje somos ainda

mais pequeninos.




Ás vezes nos zangamos, é verdade

mas depois nos beijamos

de felicidade .




Outro meio século viveremos

eu e tu

depois virá uma estrela

ou uma simples quasar

e ficaremos eternamente

no ar.




Geraldes de Carvalho  






foi ontem


Foi ontem que nos casamos

E meio século se passou

sem que o sintamos.


Ontem éramos meninos

hoje somos ainda

mais pequeninos.


Às vezes nos zangamos, é verdade

mas depois nos beijamos

de felicidade .


Outro meio século viveremos

eu e tu

depois virá uma estrela

ou uma simples quasar

e ficaremos eternamente

no ar.


Geraldes de Carvalho 

Domingo, Maio 03, 2009


6º evento

Quando hoje me levantei ainda estava com muito sono. Que é isto ? Parece que as noites não me servem para dormir mas sim para encher a cabeça de coisas atabalhoadas . 

Calculem que esta manhã tinha uma quantidade de ideias na cachimónia que lutavam umas com as outras para conseguir assomar à borda da tampa e conseguir respirar um pouco. 

Com estas ideias, vermelhas, congestionadas com o ar já respirado, não me admira que me sinta como se prestes a morrer afogado . 

Mas havia uma ideia que parecia ter um pouco mais de fôlego do que as outras e as suplantava a todas. Era ela a ideia da minha importância no contexto social em que vivo. Que parvoíce ! Que importância pode ter um sujeito que nem sabe precisamente aonde põe os pés ? 

Que importância pode ter um sujeito que nem sabe se os vizinhos o conhecem bem ou mesmo se o conhecem apenas ? 

Ora aí é que tu te enganas, respondi-me. Quando penso em importância não quero dizer que seja muita . Pode ser muito pouca e até nenhum.Mas bem mostras que és homem porque importância só tem para ti o valor de IMPORTÂNCIA.

Mas que importância é que isso pode ter? 

Pronto, já estás a sair pela esquerda baixa, pelo caminho dos jogos de palavras.

Não, não se trata precisamente de um jogo de palavras mas da constatação de que tenho de ser importante porque sou único. Já pensaste tu, eu, que estas ideias tontas que estás a ter são tontas mas são únicas de maneira que havendo, como há, biliões de pessoas nenhuma delas está a escrever as mesmas ideias neste momento . 

E como é que tu sabes isso ? 

É claro que tem de ser assim porque senão não teríamos importância nenhuma.

Lá isso é verdade, concluí antes de morrer sufocado.


Sábado, Abril 18, 2009


1º evento

Tenho a minha cabeça tão cheia destes acontecimentos nocturnos que vivo no terror de que rebente se não os despejar aqui neste papel que por sinal nem é muito apropriado .

Devia ter começado este relato já há mais tempo porque na verdade me esqueci já de muitos pormenores dos  acontecimentos que me acontecem e aconteceram , de maneira que é perfeitamente natural que alguns deles, por que truncados , vos pareçam inverosímeis mas a verdade é que quanto menos consigo discernir os pormenores mais os acontecimentos me perturbam parecendo até que não estão dentro da minha cabeça mas fazem apenas parte dela assim como penduricalhos que apenas lhe entravam os movimentos .

De maneira que eu pareço eu e mais tantos, quantos os penduricalhos que arrasto na minha mente alguns do quais são tão diferentes dela mesma que ela mesma os estranha e tenta repeli-los  o que não parece possível pois não só tais penduricalhos estão agarrados à minha mente como parecem ter raízes nela o que não me permite por vezes distinguir o que é a mente, o que são os penduricalhos e o que é cada um deles e o que é a minha cabeça. 

Como isto me dói !

No entanto será necessário que eu comece por algum lado. Vou então começar pelo lado mais extremo de um desses penduricalhos para ver se não vem algum pedaço da minha mente agarrado a esta minha descrição .

Lembro-me perfeitamente de que esta complicação toda começou precisamente há vinte anos mas não me lembro se este episódio se deu há vinte anos ou vinte dias ou até, sei lá, há vinte horas.

Foi o caso que logo que me deitei ouvi uma voz a chamar-me que parecia vinda de debaixo da cama . Mas como sei muito bem que não tenho qualquer sentido de orientação levantei-me e dirigi-me para a porta da rua a qual no entanto, não me lembro de ter abrido ; não me lembro de ser aberta por mim -é assim que eu engano o meu computador que não sabe português e por isso marca a palavra abrido com um sublinhado vermelho o que é bem feito para a palavra abrido que é horrorosa - .

A verdade verdadeira porém é que me encontrei face a face com o meu velho professor da instrução primária, na pequena sala de estar dele. Ajeitava na mão a sua pequena mas grossa régua e queria saber se eu sabia o que era um advérbio. Ainda bem que o Sr. me pergunta isso porque ando há mais de meio século com ela entalada; desde que me perguntou o mesmo quando o visitei depois de entrar no liceu. Mas então diz-me lá o que é , insistiu ele batendo com a régua na própria palma da mão. E eu pensei : Vou-lhe dizer que é um adjectivo de um verbo para ver como é que ele se amanha com esta.

 Apareceu porém por ali a linda mulher dele que trazia um prato de biscoitos na mão os quais me souberam tão bem que me esqueci  do professor e dos seus advérbios os quais, bem lá no fundo do meu penduricalho, continuei a pensar que eram os adjectivos com que os verbos gostavam de brincar . Mas isso eu gostaria era de dizer ao ouvido da linda mulher do professor e parece que ele percebeu porque se retirou elegantemente deixando-me só com ela o que muito me surpreendeu porque sabia que ele não era grande amante de tais delicadezas.

Procurei então aproximar-me dela, a linda mulher do professor, mas a verdade é que quanto mais andava para ela mais me distanciava Olhei então para mim mesmo e descobri que isso era devido ao facto de que a cada passo que dava me encolhia de maneira que já estava mais pequenino do que quando entrei para a escola a primeira vez . Que chatice. Desta maneira se não me precato ainda entro na barriga da minha mãe -não pensei eu, porque não tinha, então, idade para pensar tal coisa - 

A linda mulher do professor parecia-me agora era uma linda senhora, muito distante, à qual só me apetecia beijar os pés. Também era verdade que com a minha altura não lhe poderia chegar a outro lado do corpo que merecesse ser beijado, pensei eu muito admirado como é que, com tal altura, conseguia ter pensamentos tão marotos. 

Comecei por isso a tentar afastar-me dela e a crescer à medida que me afastava . Tive por isso o desprazer de voltar a ver o professor que dizia qualquer coisa que eu não podia compreender . Também eu lhe respondi qualquer coisa que na verdade me saia da boca do fim para o princípio e da mesma maneira se processavam os meus pensamentos os quais só pude supor que não eram amigáveis . Em breve cheguei à porta da rua que se fechou à minha frente quando eu já estava dentro de casa . Muito me admirava como é que não tropeçava num dos muitos móveis que tenho na sala e no corredor embora o meu andar fosse ao para trás. 

Em breve me encontrei deitadinho na minha cama e muito contente por  estar a dormir tão profundamente que era um regalo.





Catrapaz...(corrigido)





Paz paz paz

ratapaz paz paz

catrapaz paz paz !

É assim

no nosso mundo

a paz.

Contradiz-me

se és capaz.

- não a mim...-

Nisto me fundo

porque  o papa

papa papa

rapa rapa

e tudo esconde

em sua alva saca.

Porque o rei

o rei é roque

ou nem é rei

nem é roque

(talvez escroque)

E o presidente-ministro

não preside não ministra

insisto

não ministra não preside

catrapisca pro seu bolso

pro seu bolso

fundo e falso.

O banqueiro

é um senhor

que se amanha

com o suor

de outras testas

sim senhor .

E os outros

mercantilistas

capitalistas

pois então

são artistas

da rapinagem

ladroagem

é o que são.

Tu és branco?

Ratrapaz.

Amarelo?

Catrapaz.

És vermelho ?

Catrapaz.

Tu és preto ?

Ratrapaz, paz, paz-

Trazes cruz ?

Raprapaz, catrapaz.

Trazes lua ?

Catrapaz, ratrapaz.

Tu vens livre ?

Livre estás ?

Catrapaz e ratrapaz ...

E querem vocês a paz

ratapaz ?

É o que querem 

catrapaz,

paz, paz e paz ?


Geraldes de Carvalho


 







Quinta-feira, Abril 16, 2009

2º evento


Meu sono, porém não durou tanto como eu queria.

Voltei a acordar surpreendido por um som que parecia mesmo o chorar de uma criança. Este sim, que vem mesmo de debaixo da cama, pensei eu.

Levantei-me e introduzi-me num alçapão que sem surpresa, encontrei ao lado dos meus sapatos.

Andei um bom bocado por um terreno bastante árido até que encontrei ali o Rodrigues que parecia vir de um encontro com um grupo de terroristas . Arfava ruidosamente como se estivesse a ter um ataque de asma e produzia um som que agora me parecia mais semelhante ao miar de um gato. Pedi-lhe que me contasse o que lhe acontecera. Ele fez-me um gesto que significava que não podia falar porque não tinha ar suficiente no peito.

Esperei um bom bocado até que finalmente se tranquilizou ao mesmo tempo que a sua cara se transformava de maneira que me parecia ser o Guedes . 

Como podia ter-me enganado tanto, pensei, uma vez que o Guedes não é nada parecido com o Rodrigues . Mas quando abriu a boca reparei que o seu tom de voz era mesmo o do Rodrigues . Não importa cogitei eu então. Tanto me faz que seja o Guedes como que seja o Rodrigues . A questão é que me conte rapidamente o que lhe aconteceu, antes que me aconteça também a mim . 

Tal pensamento pareceu-me muito engraçado e tanto que comecei a rir descontroladamente fechando os olhos . Acabei de rir ainda com os olhos fechados e, na verdade, sem saber porque me rira e comecei a ficar com o medo de que o Guedes-Rodrigues tivesse desaparecido. 

Depois de um grande esforço consegui abrir o olhos e mesmo na minha frente estava o Guedes-Rodrigues que com a voz deste me disse, ao mesmo tempo que me abraçava, que estava vindo da festa da nossa anual reunião de curso. Que eu fora muito indecente por não ter querido ir apesar da insistência dele mas que afinal ninguém reparara na minha falta nem perguntara por mim. Nem mesmo, disse, a tua antiga namorada, que engordou brutalmente.

Aquilo irritou-me sobremaneira de modo que o sacudi firme mas disfarçadamente . Foi então a vez dele começar a rir fazendo uma cara muito feia com a boca aberta e os olhos fechados. Fiquei a olhar para ele como que fascinado com aquele esgar e demorei a perceber que ele não saía dele. Óh diabo, pensei, isto é um bocado perigoso o melhor é eu ir-me deitar na minha caminha. 

E assim fiz . Adormeci rapidamente e dormi tão profundamente que era, foi, um regalo.


Geraldes de Carvalho

 

Terça-feira, Abril 14, 2009

3º evento


Acordei de manhãzinha cedo e ainda cheio de sono não percebo porquê pois dormi quase nove horas e não tive, que me lembre, sonho algum. Deve ser por isso mesmo porque ouvi dizer que os sonhos nos fazem muito bem.

Pus-me depois a meditar sobre o penduricalho que devia usar na minha próxima descrição.

E resolvi utilizar um que pende demasiadamente do lado direito do coração, direito para quem esteja dentro dele, é de ver.

Vejamos pois o que o penduricalho diz:

Que estou enganado sobre tudo o que escrevi até agora. Que nada daquilo é o sonho que eu, sub-repticiamente, queria que vomecês julgassem que era. Que nenhum sonho se processa daquela maneira . Que em todos os sonhos nós matamos a nossa mãe ou, pelo menos, o nosso pai ou um tio ou uma tia se eles é que fizeram de pai ou mãe . Que na nossa descrição nem a mãe nem pai, nem o tio nem a tia sofreram a mais leve beliscadura e que por tanto, por conseguinte, o nosso texto não passava de uma droga, que era, na verdade, um texdroga ou uma drogtexta . 

Não me zanguei com aquilo . Efectivamente eu mesmo, ou seja o lado monolítico do meu cérebro, concordava com cada palavra, ponto por ponto.

Como é que eu ia descalçar aquela bota ? A verdade é que eu não matara nenhum dos meus progenitores nem tinha tios ou tias que pudesse matar e não podia dizer o contrário porque a verdade acima de tudo, acima de tudo a verdade. 

Bom, se é preciso matar alguma coisa vou contar como é que, com a ajuda do penduricalho, tive de matar o gato da minha vizinha. Foi o caso que o mesmo, maldito, resolveu vir parir os seus gatinhos dentro do meu quintal. Descobri-o infelizmente já muito tarde quando ele, ela, já tinha parido meia dúzia de gatitos . Estava enfiada no meio da lenha que tenho amontoada a um canto do quintal e mal me tentei aproximar começou a bufar como uma danada . Afastei-me prudentemente mas naquilo que na altura me pareceu o dia seguinte voltei lá. Ela afastara-se certamente para procurar comida em algum lado e eu aproveitei para me aproximar do gatinhos, peguei um deles e pû-lo, por cima da parede, no quintal do vizinho que era onde eles pertenciam. 

Voltei ao monte de lenha e peguei outro gato. Foi então que a gata apareceu e se atirou a mim enraivecida.  

Opus-lhe o braço direito que sacudi violentamente e foi bater com força no muro do jardim que estava perto.

Ficou um bocado assarapantada e eu aproveitei esse facto para me desfazer do gatinho que tinha na mão esquerda e apanhar um pau que estava ali à mão de semear.

Ainda antes que a gata se levantasse mandei-lhe uma bordoada que a imobilizou definitivamente.

Peguei então nela e nos outros gatitos todos e foi tudo para o quintal do vizinho aonde pertenciam.

Vejamos o que dizer desta descrição :

Em primeiro lugar usei por engano um penduricalho do coração em vez de um penduricalho da mente . 

Surpreendentemente o penduricalho do coração foi mais violento do que os penduricalhos da mente .

Este evento não aconteceu à noite mas de dia, embora num dia bastante chuvoso, deve dizer-se.

O evento deixou-me com uma fome de morrer .


Geraldes de Carvalho

Sábado, Abril 11, 2009

O

4º evento
Hoje adormeci muito cedo
E muito cedo acordei sentindo que alguém mexia no meu computador que está no escritório vizinho do meu quarto . Vou lá e dou uma ensinadela àquele metediço, pensei.
Aproximei-me pé ante pé e vi o bisbilhoteiro sentado à secretária com um pijama exactamente igual ao meu . Era estranho porque não uso pijamas iguais aos dos outros transeuntes . 
O tipo não só bisbilhotava no meu computador como também no meu guarda roupa . 
Iria de volta e havia de surpreendê-lo tanto mais que estava concentrado, observando não sei o quê e escrevendo no teclado. Assim fiz, mas quando estava quase a ver-lhe a cara o tipo voltou-se ocultando-me novamente aquele rosto descarado . 
Perdi o cuidado com que até então me deslocara e corri no sentido contrário. Ele voltou-se calmamente para o computador e parecia tão encantado com o que observava que nada ligou ao barulho que eu fazia . 
Tentei aproximar-me dele mas não consegui. 
À sua volta desenhava-se um halo que embora fracamente visível era tão impenetrável como uma rocha . 
Agora entendo que afinal nada ouve do que se passa fora dele mesmo, magiquei.
Serei eu quem está ali(?), me perguntei tal como Vomeçês também já se perguntaram. Mas a mim não me parecia que fosse eu quem estava ali uma vez que poderia estar bem melhor dormindo como um anjinho . 
Concentrei a minha atenção no computador e consegui ver que ele estava a escrever um poema e vi que era exactamente o mesmo que eu escrevia quando me deu aquele sono terrível ontem à noite. Parece que afinal sou eu mesmo e está explicada a razão pela qual, por vezes, me parece que não fui eu quem escreveu aquelas coisas . 
É bom que tal aconteça. Escuso de sofrer como acontece quando escrevo acordado . 
Escrever é o demónio pensei aproximando-me devagar como quem não quer a coisa. À medida que me aproximava o eu que estava ali ia-se extinguindo e eu via as minhas pernas, os joelhos e todo o corpo a sentar-se na cadeira em frente do computador . Só não vi foi o meu rosto mas a verdade é que ninguém o vê salvo se tiver um espelho coisa que há uns tempos para cá detesto cada vez mais.

Quinta-feira, Abril 09, 2009

O 5º evento

5º evento
Quando acordei a meio da noite apenas vi um olho. Duvidei que fosse o meu próprio e suspeitei que era do outro, esse tal que me espreita todo o dia. Que estaria ele a espiar ?
Daí a pouco comecei a perceber porque me vi a curta distância nu e deitado de barriga para baixo. O que é que eu estarei ali a fazer, me perguntei .
Esperei que me mexesse e esperei muito
mesmo e tanto que acabei por adormecer. Ainda bem porque logo me apercebi de que estava a espreitar, atentamente, a terra à frente do meu nariz . Que poderia eu encontrar ali . Só terra ou algum bicho insignificante.
E tinha razão porque depressa comecei a ver um bichito que se movia decididamente mas sem direcção definida.
Interessante aquele bicho, porque parece mover-se com a desenvoltura de um homem .
Afinei melhor a vista daquele olho e vi que na realidade aquele bicho era um homem que crescia à medida que eu sintonizava o olho para aquela imagem.
Aonde vai ele, o homenzarrão ? Na verdade parecia que eu andava por ali sem nenhuma razão . Andava por aqui e por ali.
Óh assim não! pensei. Para me ver assim, não preciso de dormir e acordar e adormecer outra vez. A minha desorientação é apenas aparente. Há muitos lugares para ir desde o céu até ao inferno.
Mas quê? Que céu ? Mas quê ? Que inferno?.
Que mania aquela, daqueles bichitos. Não se contentam com menos. Só palavras grandes é que têm naquelas cachimónias.
O céu é aquele pedaço de terra que tem em frente dos
olhos e o inferno, idem, idem, aspas, aspas.
Como eu gostaria de dizer isto, aquele bichinho. Mas não podia, não senhor. Eu estava dormindo atrás daquele olho que pertencia aquele outro.
E continuei ali deitado de borco a contemplar um bicho que andava por ali bastante às aranhas procurando pelo céu.
Ou seria pelo inferno ?


Geraldes de Carvalho

Sábado, Abril 04, 2009

Germina na minha cabeça


Germina na minha cabeça um poema
que não semeei .

Talvez saia uma monstruosidade
ou qualquer outra coisa,
que não sei.

Talvez saia uma estrela do mar
ou uma estrela
que seja quasar
ou aquela que tenho no peito
e se demora muito a mostrar .

Talvez saia apenas uma flor
que solicite chorando
ser regada

antes que, meu amor,
se desfaça
em puro olor .

Mas seria, amor, uma pena
porque não lembraria
o poema.

Geraldes de Carvalho

Quinta-feira, Março 26, 2009

Foder é dialéctico

Foder é uma exaltação
é uma festa no fim deste mundo
do mundo que começa e acaba
nas nossas cabeças .

É a foder que nos conhecemos a nós mesmos .
Não nos é permitido fingir ou disfarçar
porque é o momento de morrer,
o momento da última seriedade .

A foder nos desfazemos de nós
de tudo o que está velho
e mesmo podre
para nos reinventarmos
e morremos velhíssimos
e renascemos menininhos.

Foder não é metafísico
não.
É dialéctico
como tudo o que é são .


Geraldes de Carvalho

Quarta-feira, Março 25, 2009

lindo amor

Queria esquecer, amor
que me esqueceste...

O nosso amor foi lindo, amor.

Andamos numa roda gigante
e fomos do inferno para o céu
apenas num instante.

E eu ao ouvir apenas
a tua voz
fiquei logo a saber
que eras tu
o feiticeiro de Oz.

Um feiticeiro diferente
porque senhor
verdadeiro
de feitiços de amor
e, além disso,
vidente.

E só de olhar apenas
os lábios teus
me ajoelhei ouvindo-te
como se fosses deus.

E é por isso
que eu queria esquecer
que fui esquecido
assim .

Embora eu sempre diga
que tu não és ruim.

Quem é ruim
sou eu
que te deixei esqueceres-te
de mim

Geraldes de Carvalho

Domingo, Março 22, 2009

A quase tragédia da Alegria
             -ode-



Quando o meu coração se enche de amor
a alegria extravasa pelos meus olhos.
Arreganha-me os lábios
até ao céu.
Enche de sons a minha garganta.
O meu peito rebrilha, como uma estrela.
As minhas pernas saltam.
Os meus pés dançam
e eu me extasio .

Discretamente caminho pelas ruas
fazendo um enorme esforço
para não disparar .
O meu céu fica cheio de pássaros cantantes .
As minhas árvores cheias de frutos suculentos
e para cada folha há uma flor.

Serão elas as que eu ouço cantar ?

As pessoas reparam em mim com olhar prazenteiro .
Alguns desconhecidos chegam mesmo a cumprimentar-me.
As crianças brincam comigo seus jogos esfuziantes .
Os velhos oferecem-me os seus últimos sorrisos .
As mulheres ... ó as mulheres as mulheres...

A quem é que eu devo dar o meu amor ?
Meu coração está cheiinho a rebentar.

Aonde estás tu aquela que eu sonhei amar ?
Como penteias os teus cabelos ?
Como é o teu sorriso ?
O que pensas ?
O que sonhas, tu ?
Como caminhas ?

Por que me não ouves ?
Porquê ?

Será que até a minha alegria
terá de ser mesclada de tristeza
quando o meu coração se enche de amor ?

Geraldes de Carvalho
Quase

E foi então que
quando a tua boca se aproximava
me esqueci de ti
-de quanto queria
beijá-la-.

Quando a tua mão se estendia
me esqueci de que sentia
-de quanto queria apertá-la-.

Quando os nossos olhares se cruzaram
me esqueci
de que sabia olhar
-de quanto queria abraçá-los
e afundar-me neles-.

Quando a palavra soou
me esqueci
de que sabia ouvi-la
-de quanto queria guardá-la
e cantá-la também-.

Por que será meu amor
que quase quero
quase te quero
quase te abraço
e te beijo
quase te ouço
e te vejo
quase te guardo
e te amo
meu amor!

Geraldes de Carvalho

Sexta-feira, Julho 25, 2008

...é luz

Você responde como se fosse carne, mas é luz.
E a luz não se esgota quando a pensamos. Ela dá mil voltas ao universo e continua luz. Assim todo o universo será um dia luz. Nesse dia os sonhos serão a realidade e nós nos sentiremos grandes perante ela. Porque ela seremos nós.
E que será então feito das palavras? Ó as palavras se extinguirão porque elas não conhecem a luz. Persistirá apenas a Palavra . Não a de qualquer deus mas a nossa, depurada pela luz, feita luz.
E como será a poesia então ? A poesia seremos todos nós porque a nossa vida será um cântico perpétuo.
E vem longe, essa tua visão ?
Não. Perto. Não mais do que um milhão dos teus anos . Será apenas um sonho. Podes vivê-lo numa só noite.

Geraldes de Carvalho



Peço muita desculpa mas retirei todas as fotografias iniciais porque produziam a ilusão de que nada fora publicado depois delas .
E se bem que seja verdade que nada do que foi publicado vale mais do que elas a verdade é que o que foi publicado precisa por isso mesmo mais do blog do que elas.
Entenderam ? Eu não...

Domingo, Janeiro 27, 2008






A edium tem o prazer de anunciar a edição da Antologia Poética 2008, Amante das Leituras, para o próximo dia 31 de Maio.
Este ano, a Antologia contará com as participações dos seguintes autores:
Alexandra Oliveira, Ana Maria Costa, Carlos Alberto Roldán (Argentina), Carlos Luanda, Denilson Neves (Brasil), Geraldes de Carvalho, Jorge Vicente, José-Augusto de Carvalho, José Dias Egipto, José Gil, Manuel C. Amor, Maria João Oliveira, Maria Rita Romão, Mónica Correia, Paulo Themudo, Samuel Gomes, Túlio Henrique Pereira (Brasil) e Vera Carvalho






Sou eu, sou eu...
( 3ª ou 4ª correcção)

Sou eu
o anjo ou o demónio
ou a serpente
que a Eva ofereceu
o fruto da ciência
e, por isso,

 ou outra coisa igual,

o tal deus
me
castigar.


-E não é erro não

porque deus não tem tempo

e é, por isso

o verbo inconjugado

no infinito eterno...-

 
Que homem, esse deus!
Certamente queria

ficar com todo o saber
para vos manobrar
como, se ,lhe apetecer.

 


E também
me é difícil entender
porque é que o tal deus

me castigou 

se conhecia

que o homem
apenas mastigou
o fruto que, de verde, mal sabia

-e, se bem bonito parecia

era, afinal bichado-
e o cuspiu no rosto da mulher.



-Pobre mulher cuspida
por dar a maçã e a vida-

Apenas engoliu,
o homem bruto,
um pouco desse sumo
que lhe ficou na boca
da maçã mastigada
que nascera na árvore
mal formada

desse mundo
que o tal deus criara.


E o pior foi que com esse sumo

ainda engoliu

- e é com isso que me nutro-

o bicho que ali vivia

e a viver continuou

lá -cá- dentro

do homem bruto.


E foi assim, posso afirmar

que foi criado o mundo

para o homem habitar


Mundo horroroso enfim
em que todos os animais
se comem uns aos outros
e também a mim
assim, assim...

Geraldes de Carvalho

PS.
Melhor fora, talvez
que a deus comessem
e acabassem
com a criação
de vez.

gdec





Lá longe

Estamos aqui tão longe
tão quentinhos.
Nem ouvimos as bombas
os morteiros
os gritos
os urros
os lamentos
os estertores.
Poderemos achar
que uns têm razão
e os outros não.
E o que é bom
é nós podermos
saborear
e engolir mesmo
a nossa poesia
com palavras bonitas
e difíceis
plenas de fantasia
sem horrores
que credo !
Jesus !
são lá longe
tão longe...
bem longe...
lá longe.

Geraldes de Carvalho


Queria dormir para sonhar
(melhorado)



Queria dormir para sonhar
que isto não aconteceu .

Que não foste tu
quem me não amou não


Não foi o meu vizinho
nem foi o meu amigo
nem foi o meu irmão.

Nâo foi o meu parente

nem este

nem aquele
qualquer,

nem o outro
que é homem

ou a outra
mulher.

Que não foi nenhum de vós
quem me não, não amou .

Nenhum deles, ó céus !

Foi o que vivi eu
enquanto não sonhava
que isto
não
aconteceu.

Geraldes de Carvalho







...é velho




Meu coração é velho . 

Não como são velhas as coisas e mesmo as ideias mas como são velhos os sentimentos, as sensações.

Ele é velho.

Às vezes custa-me bastante carregá-lo porque ele pende de todos os lados, escorre e fica-se pelos caminhos .
É preciso voltar para trás, apanhá-lo, aconchegá-lo, moldá-lo naquela forma que é característica, só dele, coração .

Ele não chora, não sussurra, não pede. Grita, exige como se fora novo, como se fosse novo . Mas

é velho, muito velho.

Meu pobre coração é velho.

Meu coração não cabe dentro de mim . Extravasa para ti, por ti, para o outro para a outra para toda a gente. Tu não o queres, eu sei, mas ele extravasa e

é velho.

Meu coração estranha-se de ti em ti e entranha-se também em ti e estranha-se nele mesmo como nele mesmo se entranha.

Onde estarás tu, meu coração?

Meu coração é velho.

Perdi-te nos labirintos do meu não ser, coração.

Quem te encontrará, meu coração ? Quem perscrutará os arcanos do seu sentimento em busca de ti, meu coração ?

Sendo grande como é
meu coração
cabe bem
na palma da minha mão

mas é velho.


02-12-08
Geraldes de Carvalho






Vem, ó vem 



Vem, vem, vem

minha senhora poesia.

Vem

estou aqui

nu

pronto para te receber

e celebrar contigo

os secretos mistérios

da desencarnação.

Vem, vem

minha querida

ninguém perturbará

os sonhos

que são nossos

e temos de sonhar.

Vem vem

dormir

nos meus braços

ouvir o doce acalanto

que desde o princípio do tempo

te estou a sussurrar,

no vento.

Vem

meu amor

meu coração te espera

com doces palpitações

que se ouvem

em todo o universo,

cá perto

lá longe.

Quero sentir-te

aqui

junto do peito

aninhada

como se fosses

a lobazinha

que é minha

porque me está destinada.

Vem e toma-me

sou teu

já não sou meu

já não sou eu.


Geraldes de Carvalho
(de 48 poemas de muito amor e pouca futilidade)












Aos que não entendo


Ó como gostaria entender-te, meu bom amigo
descobrir nas tuas palavras um sentido lógico
ou, pelo menos, discernível
que me revelasse um pouquinho do teu pensamento
e também, se possível , dos teus sonhos .
Não ficar a olhar para elas como um tolo ignorante
de boca aberta.
Descobrir o teu sentido da vida
dessa vida que só posso imaginar
que será como um palácio do Sec. XVIII
e próxima dos deuses que habitam na tua mente,

suponho eu .

Mas não
não consigo senão ler um amontoado de palavras
que na maior parte das vezes nem rimam com a música que ouço no universo
e muito menos me dizem o que quer que seja que se passa nas tuas ruas
e ainda menos o que late no teu coração
o qual, no entanto, me parece sincero
e morto por dizer qualquer coisa que eu entenda.
Um coração que apesar de não o entender
me apetece acariciar
porque suspeito que é bom e honesto
e cheio de compreensão por um homem como eu
que não sabe exprimir-se sem se dar a conhecer.

Ficaremos condenados meu amigo,
meu bom amigo,
a passarmos um ao lado do outro
como se não pertencêssemos à mesma espécie
como um burro que sou eu
ao lado do homem que tu és
fazendo o favor de não me cavalgar
e mostrando-me mesmo um sorriso que é bom
e amistoso,

eu suponho.

Geraldes de Carvalho






Soneto -que não cheguei a escrever-



Hoje vou escrever um bom soneto

uma bandeira contra a obscuridade

soneto onde lampeje a claridade

nas coisas que sabemos em secreto.



Um soneto em que só diga a verdade

desta mentira a que me não submeto.

Um soneto que seja tímido e discreto

mas que se ouça bem alto na cidade.



Mas, meu amor, para escrever assim

seria necessário -ó meu amor-

que eu fosse O que não quero acreditar.



Sou apenas poeta e sou, enfim

que o meu amor e os céus, maior,

maior que deus, igual ao meu sonhar.


Geraldes de Carvalho






perdi meu eu

(poema em obras)


Meu  eu

já não é meu

meu eu

morreu.


Agora o que é que sou ?

Não sei.

Talvez seja 

o que ficou

do que foi

e morreu...



Meu eu

não choraremos, não

viveremos assim

como se nunca

o tivéssemos conhecido

pois então.



Ele não nos amava

-pobre de mim-

Às vezes arremedava

gostar de nós

é bem verdade


Era um intrometido

disfarçado

de amigo

mas quando lhe cheirava 

a esturro

olhava outro lado

como se não

nos conhecesse

e era tudo.



Ora assim não importa,

ora assim não interessa,

vá bater a outra porta

que está fechada,

esta.



Bem sei

que fiquei pobre

eu

mas que hei-de fazer

É bem melhor

ser pobre

do que viver emprestado

com o que é nosso

mas nunca nos foi dado.



E se alguém nos olhar

nos nossos olhos

saiba, de vez,

que não estão a chorar



embora lhes apeteça



...talvez.


Geraldes de Carvalho



...amarelou
ou
o outro canto do cisne

O cisne quando cantou
amarelou.

Ele sabia que era
um cisne
e não podia cantar
por isso teve de amarelar
para se disfarçar.

Cantava assim :
Quem me dera não ser cisne
negro ou branco
não queria...

Sei que sou belo é verdade
mas não canto
nem parece que sou ave
esta é a realidade.

Posso pensar
já se sabe
mas pensar
não é próprio
de mim
que sou ave
assim, assim
mas não canto...

Posso exibir
meu pescoço
longo
flexível
esguio
próprio de deusa
...e cantar

mas não canto.

Seria bom existir

mesmo no fundo do poço
sem que ninguém o soubesse
se eu ali pudesse estar
a cantar

-cantava ele
sem que, porém, o soubesse-.

E amarelou
sem saber que amarelava.

E pensou
mas não sabia
que pensava.

Era cisne
e lhe bastava.

Mas como não parecia
e tinha uma graça tanta
espantava
e encantava
quem o via
quem o ouvia.

Será que ainda hoje espanta?

Será que ainda hoje encanta?

Geraldes de Carvalho




Espasmo ôntico

Como um tal
meu pensamento tremula
quase desmaia
e eu no meio
ali sem nada saber.

Ó, quem dera não o ter!

Melhor fora
ser saudável
e gostar do futebol
ir às festas e bailar

que, como um louco, pensar

em coisas que nem eu sei
me deixam assim parado
como doente espasmado
a pensar se existo ou não

se sou homem se sou cão.

Cão eu deveria ser
gosto dos ossos que tem
meu pensamento
meus dentes são fortes são
cadelinhas são meu fito...

Cadelinhas são meu rito.

Podem os homens morrer
nas guerras que organizam
e as crianças padecer
cheias de fome nas pontes
-quando há rio...-

Eu cá por mim não me importo
enquanto estou a sofrer
enquanto estou a gozar
como um bônzio

neste meu espasmo ôntico.

Que merda, ein!

Geraldes de Carvalho
(de quarenta e tantos poemas de muito amor...Jul./08)



Vento verde. Assim,assim...


Perguntam se há vento verde...
O tenho dentro de mim.

Vento verde é desespero
de viver sem ti.
Vento verde é amargura
de ter-te a ti
mas não ter-te
dentro de mim.
Vento verde é esperança
de um dia chegar-me a ti
dizer-te
te quero muito.
-Tu não me queres a mim-

Vento verde, verde vento
porque não mudas de cor ?
Só se fosses amarelo
é que serias pior.

Se fosses branco
meu vento
podia passar por ti
e nem te ver
e no entanto
te ter
escondido
aqui,
aqui.

Vento azul
vento no ar
vento azul não quero não
não me apetece voar
-também não sei
é de ver.

Vento negro
é o que corre
não dentro mas sobre mim
vai-te embora vento preto
não te quero a ti, aqui.

O vento vermelho é luz
e para a ter
a gente vai a voar
de encontro a ela
e quando está a chegar
apaga-se
ficamos cegos
no ar...
Vento vermelho não quero
tenho muito que aprender
para o poder
ter.

Vento magenta
é carmim
é o que quero
mas não
não gosta de mim.
Não julguem que é porque rima
porque é mesmo assim
assim.

Vejamos
que outra cor há
que o vento possa ter ?

Cor de burro?
pode ser.
É cor de menino infante
como sou
ou gostaria ...
Mas cor de burro não quero
é burra
e eu sou esperto
ou era
quando menino...
agora não posso ser
penso demais
aí está.
Quem demais pensa
embrutece
é claro.
E se for o vento
motivo do pensamento
emburrece
e voa, aboa
não vai parar a Lisboa.
-Mas se fosse?-

Que pena que o vento verde
não mude de cor e assim
não mude
não mude
a mim
Assim, assim...
assim, assim...

Geraldes de Carvalho


Será ?


Platão, meu sábio amigo
meu velho companheiro velho,
senta-te aqui
ao pé de mim
e responde-me só
a uma pergunta
que é simples
para ti :

Agora,
neste tempo
nesta hora
em que a tua caverna
cresceu até à lua ,
...e um tanto para lá .
Agora, que as sombras que vislumbraste,
e vislumbrar podemos,
estão para além dos confins impossíveis do universo
aonde não nos perdemos,
não vestem de preto e branco
mas desfilam vaidosas,
preciosas,
caprichosas
enfeitadas
com todas as cores do photoschop
e parecem,
como aparecem,
quando aparecem
estrelas, quasares
planetas , nebulosas e buracos negros...

Será que ainda acreditas
que é tudo fantasia
e que a verdadeira realidade
está dentro da tua cabeça,
que é necessário abrir
com o martelo da instrução elaborada
para aí a descobrir
maravilhosa
mas, também ela
-digo eu, ó meu!-
fantástica
fantasiosa .

Será , Platão

...ou não ?

Geraldes de Carvalho
(de 42 poemas de muito amor e pouca futilidade)




Eu escrevo cão...

Eu escrevo cão
ele mia
se escrevo gato ladra
já se sabe.
Nada é como pensei
Mesmo eu sou
um tanto desencontrado
porque se quero sonhar
penso nisso
e no pensar
lá se vai o meu sonhar
Se pensar é o que quero
já sei ponho-me a sonhar
e no sonhar
não penso nada que preste
lá se vai o meu pensar.
Mas construo um outro mundo
que não vos posso mostrar.
Mesmo se quero dormir
penso como deve ser
dormir é bom,
deve ser,
porém dormir não consigo
fico acordado, é de ver.
Também quando quero amar
não sei a quem
mas amo quando não quero
amo
mesmo que não tenha
ninguém.
Para amar eu não preciso
de ter um outrem a quem
- podemos mesmo amar-Nos
ainda que não seja bem-
...ou será?
Mas amar quando não quero...
e quando te tenho a ti
é uma mania chinfrim
digo assim
assim...assim.
Geraldes de Carvalho
(de 40 ou 41 poemas de muito amor e bastante promiscuidade)



Está tudo louco. Assim, assim...
Saí agora
do estaminet
- que palavrão
congeminei -
e encontrei
o mundo louco
Pois é :
Minha mulher
já não tem boca
para eu beijar
ela está louca.
Pode não estar?
E as loucas pedras
do em..empedrado
põem-se em frente
de mim, coitado.
Os transeuntes
trocam os passos
trocam os pés
trocam as pernas
e cada um
vai com as dos outros.
- estão todos loucos -
Minhas palavras
já não se entendem
umas co...com as outras...
Só me apetece
mais um copinho
mas vinho é, é... louco
e louco é, é... vinho.
E até a lua
ó minha mã...mã e
julgo que está
louca também.
Estava ao sul
ali ao fundo
daquele paul
-lin...linda palavra
aquela ao sul -
Estava ao norte
ali no cimo
daquele porte
...porta.
Aonde está?
Está louca, sim
mas para mim
já tanto dá
já tanto importe
...importa.
Olho para ela
não posso olhar
seu brilho louco
vai-me cegar
E te encontrei
a...migo meu
anda práqui
que pago eu.
Mas quem és tu
a...migo meu
não te conheço
serás um louco
que me encontrou?
Loucos não quero
ao pé de mim
foge. Ttrim-trim
É a sirene
não toca bem
creio que está
louca também
Vem-me buscar
a ambulância
toca trim- trim
assim, assim...
Geraldes de...de...Carvalho
( de quarenta –ou coisa assim- poemas de muito amor e pouca promiscuidade )


peixe no poço

Lá no meu poço
havia havia
um peixe obscuro
que não mexia.
E tão obscuro
era esse peixe
que parecia...
Que parecia
nem peixe ser
até que um dia
senti mexer.
Peixe tão belo
não pode haver.
Queria vê-lo.
Fui lá ao fundo
do poço meu
mas nenhum peixe
apareceu.
Ó, onde estás
meu peixe amado ?
quero-te aqui
bem a meu lado.
E o peixe disse
-isso ouvi eu-:
Também a mim
me pareceu
que havia um homem
aí no céu.
E fui lá ver
mas nenhum homem
apareceu
Voltei aqui...
Homem é sonho
no mundo meu.
Geraldes de Carvalho
Ps.:
Se fosses peixe
bem te comia
mas tu és sonho
que eu bem sabia,
respondi eu.
Geraldes de Carvalho
(de quase quarenta poemas de amor e alguma fantasia)


Aves,aves,aves

Aves azuis
que mal se vêem
no céu azul
são minhas marcas de ser.
Vermelhas fossem
era melhor.
E se eu me alegro
as minhas aves
mudam de cor
Voam rasteiro
pousam em mim
de que cor são?
Se me entristeço,
aves que são,
bicam-me aqui
no coração.
Por isso voo
ao fim do mundo
bicando aqui
bicando ali
com bico agudo
pois ave sou
do coração.
Mesmo ave sendo
medo lhes tenho
se são escuras
e barulhentas
como são, são.
Geraldes de Carvalho
(de trinta e nove -ou coisa assim- poemas de muito amor e pouca promiscuidade)


Assim, assim...

Meu louco pensamento
cresce cresce e arrebenta.
Espalha esporos
dos limítrofes para o centro.
Esporos que hão-de germinar
e gerar
mais pensamento
até me sufocar,
me afogar.
Poetisa
vem até mim
por favor
a cantar
velhíssimas romanças.
Fala-me brando
diz-me que sou o teu amor
para que eu possa adormecer
e por fim
nada mais ser
e nada mais
pensar
assim, assim.
Geraldes de Carvalho



Aonde estás, ó ar


Dentro de casa
não posso estar
preciso de ar.

Saí para a rua
mas não achei
caminho meu

Cá nesta rua
há muita gente
anda despida
é indecente.

E mesmo eu
estou sem chapéu
estou sem gravata

por isso estou
aqui sentado
envergonhado.

Vesti gravata
pus um chapéu
já não sou eu.

Pus-me a andar
e a respirar
isto é bem giro
ó pistotiro.

Ó pistotiro
grabato eu
o eu que eu fui
está no céu.

Vim num andor
recomendado
pelo prior.

Encontrei deus
que foi eleito
pelos seus

disse sou bom
eu não achei
e desandei

-O eu que fui
não me obriguem
a repetir
porque não rima-

Disse-lhe adeus
ao deus dos céus.

Precisei de ir
lá à privada
mas estava toda
emporcalhada.

Ó quem me dera
em casa estar
mas não me encontro
tenho só ar.
Ar não me falta
só falto eu.
Quem me perdeu ?

geraldes de carvalho






...não me comas

Não, não me comas
olhos de lua
essa é a minha alma
não é a tua.

Se me quiseres
fica emprestada
por três mil beijos
é quase dada .

Quando eu quiser
estás avisada
das-ma de volta
mas bem beijada.

Geraldes de Carvalho
de 33 ou 34 poemas de muito amor e pouca trivialidade




Assim, assim...-5

Ó terra

minha mãe
minha irmã
minha vida
minha amada
minha tudo
e nada
porque nada sou
porque não sou nada.

E porém
o nada de que sou
construido
é tudo à minha volta
e faz sentido.


Terra,
terra castanha escura
dos meus terrores
e verde ou amarela dos meus sonhos
e negra dos meus outros sonhos
de todas as cores.

Como me esqueço de ti
como me esqueço de mim.
Porque me esqueço de ti?
Porque me esqueço de mim.

De ti nasci
A ti beijei
e abracei
e engoli
até que em ti fiquei
até que tu ficaste
em mim.

Por isso é que te esqueço
por isso te esqueci.
assim, assim
assim, assim...



Geraldes de Carvalho


27-03-08

O nosso amor não é...não



O nosso amor não é como o sonhamos, não
nos arroja no chão.

O nosso amor não nos permite o céu
ele é o inferno, teu
e meu.

O nosso amor não nos dá paz
a guerra, é o que traz.

O nosso amor não é para cantar
é para gritar

de dor.
Assim é nosso amor.

O nosso amor à noite se serena.
Às vezes
ó por vezes,
muitas vezes,
a noite é tão pequena !

O nosso amor não nos deixa esquecer
o que não queremos ser
mas somos porque somos
somos, fomos, somos.

Por vezes, meu amor
não te conheço
nem te reconheço.

E no entanto amor
ó meu amor
meu amor,
meu amor
meu amor...

Diz-me quem sou
porque sem ti não sou.

Ensina o meu falar

Mostra-me como é olhar

Guia as minhas mãos

Afina o meu gostar

Aprende-me e ensina-me
a ouvir

Apura o meu cheirar

Mostra-me como é andar



Porque sem ti
não sou,
não estou
aqui,

nem quero
estar.

Geraldes de Carvalho



M E T A M O R F O S E









METAMORFOSE
DE MIM -com a câmara do computador
PARA MIM -com a ajuda do Grafhic Converter


Geraldes de Carvalho




Ó GENTE DA MINHA TERRA
- ASSIM, ASSIM...-
ou
UM PÉ NA PATA OUTRO NA POÇA



“Ó gente da minha terra
agora é que eu percebi”
que quem te cantava assim
pouco sabia de ti.

cantava porque soava,
e acompanhava,
o tlim-tlim .

Minha terra, minha terra
quem te conhece
hoje
a ti ?

Quem sabe das tuas gentes
que sofrem nos lodaçais
-ainda que não chova agora
parece que nunca mais-
e que apesar disso cantam
para não sofrerem mais .

-ora, ora...-

Quem sabe das tuas gentes
nunca chega a perceber
porque é que as tuas gentes
nunca param de sofrer

- não sofreríamos nós mais(?)
-se soubéssemos sofrer...-


Mulheres vestem casacos
de cambraia
e amam os aventais
mas por debaixo da saia
rodada ,
nada, nada têm mais.

E há quem diga que são lindas
assim...

Dançam de braços no ar
sorriem como quem tem
mas quem as conhece bem
sabe que vão a chorar

-porque já não têm mais...-

Não têm nada de seu
salvo sejam os seus filhos
que trazem como empecilhos
pendurados nos seus peitos

E há quem diga que são lindas
assim...

-E há quem diga que são jeitos...-

Vão aos superes comprar
compram o que não precisam
e que não podem pagar
pagam com cartão bancário
com os juros a dobrar,
juros que nós pagaremos
a somar...com o capital

-Ó bancos da minha terra
só agora percebi
como se ganha dinheiro
e nada parece mal .-

Quem é que nos manda a nós
-quem é que te manda a ti-
termos o que elas não têm ?

Bem sabem elas que a gente
tem o que não pode ter

Sofrem elas (?), indecente(!)
nós devíamos sofrer ...

-digo isto, mas não ouvi -.

E os homens?
Ó os homens são iguais
se não são ainda mais

Ó gente da minha terra
só agora percebi
como acabava a cantiga
que ela cantava
assim, assim...

Geraldes de Carvalho

...ou talvez a gente dela
ou talvez a terra dela
não seja a mesma de mim
E por ela, a gente dela,
e por ela, a terra dela,
canta ela,
chora ela
assim assim...

Geraldes de Carvalho




13-02-08
Simples lírica -

I
À beira da tua porta
há um assento de pedra
onde de noite me assento
à tua espera.
Mas se dentro, em tua casa
sinto falar ou bulir,
finjo estar adormecido
para não ter de fugir.



II

Sob o reverde cintilar
das árvores azuis
na manhã clara,
meu límpido olhar
de boas intenções
sabiamente isento,
nem olha nem não olha,
apenas olha
soberbas sombras
que, só de olhar, desdenha...

Geraldes de Carvalho
de "novos e velhos cantos" Évora 2006


Post. em 01-02-08 : Tenho a certeza que V.mcês não suportam a prosa abaixo -prosa, abaixo!- . Eu também não . Tenho a certeza -estas minhas certezas!- de que gostarão muito mais destes versos da minha juventude :


O segundo cântico da humilhação


De borco , caído
no chão da agonia,
a pó que eu mordia
que bem me sabia
a pó da agonia.

Chamei-te; chamava:
Maria! Maria!
Ninguém acordava
na noite
que ouvia
espantada.
Chamei-te; vieste
na pó que eu mordia
quando abria a boca ...

Que bem me sabia
o pó da agonia!

Deitei-me de costas
para ver se dormia.
Pela madrugada
o pó me cobria,
o pó me tragava,
o pó me mordia!

Chamei-te; chamava:
Maria! Maria!
O mundo acordava
ninguém se detia.
Chamei-te; vieste
no pó que eu vestia ...

Que bem que eu sabia
ao pó da agonia!


Geraldes de Carvalho
de "Sombras de Alma" Coimbra 1955




Post. em 28-01-08 :

Do conhecimento... - I -



A análise dispersa o nosso conhecimento no afã de o estender, de conhecer mais, de conhecer até ao fim; dispersa-nos. A síntese pelo contrário reúne-nos porque tomamos as pontas do conhecimento e as amassamos fazendo dele uma bola de concretude.
O problema é que para conseguirmos a síntese - a segunda, a final - temos de nos arriscar na análise para criar as pontas, a massa da amassadura em que, as mais das vezes, nos perdemos: Por causa disso a vida, a vida do pensamento é uma aventura tão perigosa.
E é por essa razão que muitas vezes, por preguiça e por medo, preferimos ficar na síntese inicial ou dispersos, na análise.
Há assim três tipos de pessoas :
As superficiais que tratam as primeiras sínteses, as meras percepções dos sentidos, como se fossem a realidade e as combinam em sínteses complexas afastando-se cada vez mais da verdadeira realidade . Aqueles que param na análise e combinam as pontas da realidade criando cada vez mais pontas em que, finalmente, se perdem e finalmente os que fazem as sínteses finais chegam ao conhecimento real o qual, porém, gera um conhecimento contraditório que precisa de ser superado por um novo processo de síntese análise e síntese, indefinidamente.
É claro que nenhum destes tipos de pessoas existe efectivamente. Existem apenas como possibilidades de ser. Se a percepção é simples podemos fazer a análise e a síntese final sem dar por isso . Se é um pouco mais complexa podemos parar na análise convencidos de que chegamos ao fim do processo do conhecimento. Mas, por vezes, já a sensação é tão complexa que, só ela, nos cansa e não nos animamos a ir mais longe.
O que distingue as pessoas é que algumas são capazes de passar à análise num caso em que outras se ficam pela primeira síntese e outras são capazes, por vezes, de ir até ao fim nos casos em que outras se ficam pela análise ou mesmo pela primeira síntese. Poucos são aqueles que ousam tentar ultrapassar as contradições até porque para isso precisam de voltar àquilo que parece ser o princípio se não se tiver um olho arguto capaz de perceber que esse princípio está num plano superior .

Que chatice ein ! Será que serei capaz de passar à análise...(?)

Geraldes de Carvalho



Do conhecimento - II -


Temo que tenham ficado com uma ideia errada -simplista, logo errada- sobre a maneira como concebo a génese do pensamento.
Na verdade expressei-me muito mal dando a impressão que penso que o pensamento é uma actividade individualista e que há “pessoas” que são capazes de levar o pensamento mais longe do que outras. E outras que são mesmo capazes de o levar até ao fim.
Isto pode ter sido verdadeiro até ao séc. 17 ou 18 mas, entretanto, deixou pouco a pouco de sê-lo -verdadeiro-.
O conhecimento é hoje uma actividade colectiva de maneira que sobre um determinado assunto -o pensamento, por ex. - alguns sábios -chamemos-lhe assim- formulam apenas as sínteses iniciais -ou seja dizem coisas- que depois os outros pegam -ou não- e analisam exaustivamente, análises que outras pessoas pegam, ou não, dedicando-se a construir as sínteses finais depois de se desfazerem da muita tralha em que a análise vem quase sempre envolvida.
E é claro que a ganga que inquina o conhecimento aparece muitas vezes logo na primeira síntese que pode revelar-se completamente imprópria para qualquer análise ou na síntese final que pode ser absolutamente não exigida pela análise. Acontece também que por vezes estes erros se revelam, mais tarde, ser falsos erros, erros que só foram entendidos como tais devido ao facto de um incompetente raciocínio ou de um raciocínio inquinado pelas incompletudes do conhecimento. Daí que se retomem muitas primeiras sínteses, análises e sínteses finais, antes indevidamente abandonadas algumas vezes por canhestrice -a palavra não existe mas gosto dela- outra vezes porque teve mesmo de ser assim.
Não falta por isso quem diga que a ciência é o estudo dos erros do processo de conhecer.
Algumas vezes os cientistas, filósofos e epistemólogos têm consciência da impossibilidade de se dedicarem ao estudo da realidade por completo principalmente quando trabalham em conjunto -num instituto científico ou filosófico ou lá o que seja. Outra vezes porém não se apercebem do fenómeno e tentam efectivamente realizar todo o processo o que na verdade só os faz perder tempo porque resulta muita coisa inútil ou já sabida, daquilo que tentam fazer .
E isto passou a ser assim devido à extensão desmedida do conhecimento e às relações estreitas que há entre um conhecimento e todos os outros de maneira que se chega à conclusão de que existe um conhecimento só, que ninguém consegue abarcar . O processo complica-se ainda mais para aqueles que conseguem ver as contradições que resultam das sínteses “finais” formulando assim novas primeiras sínteses que necessitarão de novas análises etc, etc.
É claro que actualmente já se não formulam as primeiras primeiríssimas sínteses porque o pensamento é uno não só em extensão mas também em profundidade, quero dizer -e não sei se digo- ao longo do tempo e dos tempos.
É também claríssimo que há sectores do pensamento que avançam mais rapidamente do que outros e por isso acontece muitas vezes que é preciso refazer esses sectores do conhecimento que avançaram sem atender às ligações necessárias com outros sectores como acima já dei a entender.
No entanto, desses sectores que é necessário deitar fora, fica sempre alguma coisa ; pelo menos a boa vontade dos que neles trabalharam.
É o que espero que fique deste meu esforço...

Geraldes de Carvalho




do conhecimento –III- ...e da realidade




Como se sabe- quem sabe- Sócrates, ou Platão por ele, ou ambos os dois -o tipo que 
inventou o pleonasmo não tinha a mínima sensibilidade literária- acreditavam na 
reencarnação -ou se quiserem, mais bonito, na metempsicose . Por isso é que o seu -de 
Sócrates - tipo de ensino consistia na ajuda ao parto de antigos saberes - e não julguem 
que eu não conheço o termo maiêutica : sei muito mais do que vós imaginais, ainda que 
não tanto como Vosmeçês, é claro.

Na verdade eles, com a cabeça cheia das estórias dos deuses, mal podiam acreditar que se 
pudesse avançar na ciência das coisas senão através de meios tão maravilhosos como elas 
- as estórias dos antigos deuses . Não podiam acreditar que a realidade estivesse mesmo 
em frente dos seus olhos. Essa realidade parecia-lhes demasiado mesquinha comparada 
com as histórias dos seus deuses . 
E tinham razão porque a realidade era demasiadamente mesquinha. E porquê ?

Porque eles não inventaram o microscópio para ver o infinitamente pequeno nem o 
telescópico para ver o infinitamente grande. E por que é que não inventaram, eles que 
eram tão infinitamente -gostei da palavra- dados à meditação ? Pois porque tinham a 
escravatura.

É preciso dizer aqui que a escravatura começou por ser uma boa coisa. No princípio dos 
princípios -do homem- quando duas tribos -chamemos-lhes assim à falta de melhor - 
também lhes podíamos chamar bandos -o que não sei se melhor seria- se encontravam, 
não se reconheciam como pertencentes à mesma espécie e por isso a vencedora eliminava 
a vencida e comi-a.
 Ai aconteceu que um génio -que abundavam muito naqueles tempos- percebeu que afinal 
eles -os vencidos-seriam capazes de trabalhar para os vencedores e passaram a capturá-
los para o efeito .Esta escravatura era portanto boa de acordo com os nossos valores 
actuais porque substituía a morte pela vida. 
Foi um belo progresso.

Nessa altura ainda não teriam percebido que os vencidos também eram homens - porque 
afinal eles já domesticava -agora estou a inventar - alguns animais para trabalhar para 
eles. De qualquer maneira eles descobriram a humanidade dos cativos quando estes 
aprenderam a sua -dos vencedores - linguagem . 
Só que, quando descobriram que os escravos também eram homens já tinham gozado 
muito os nefandos prazeres de terem quem trabalhasse para eles e não abandonaram a 
escravatura e isso foi uma autentica calamidade para o processo do conhecimento. E 
porquê ? 

Porque os homens que trabalhavam com o cérebro não eram os mesmos que trabalhavam 
com as mãos. Aí as mãos zangaram-se -porque tinham sido feitas pelo seu amigo 
cérebro e o cérebro zangou-se porque havia sido feito pelas suas amigas mãos. 
As mãos fizeram as guerras, de que as actuais são filhas directas -ou, podemos mesmo 
dizer, dilectas- e o cérebro...sem as mãos, deixou de inventar o microscópio e o 
telescópio... e passou a trabalhar no vago e no vácuo com a habilidade que lhe é própria e 
inventou a metafísica. -Espero que não tomem demasiado à letra estas minhas 
parábolas...- .

Ora quando alguns homens perceberam isto -a ratoeira em que havia caído o 
conhecimento- começaram a utilizar o cérebro e as mãos e as mãos e o cérebro e 
inventaram o microscópio e o telescópio. Descobriram então que a realidade era tão 
maravilhosa como o mundo dos deuses, começaram a abandonar estes e a olhar cá para 
baixo e lá para cima -para os astros- e começaram-apenas começaram- a ver que afinal 
o conhecimento seguia a mesma via da realidade. Também a realidade é, ao princípio, a 
primeira síntese do que nos parece que é. Deve ser sujeita a uma análise que nos mostra 
que afinal as coisas são bastante diferentes e por fim a uma segunda síntese que acaba 
por nos mostrar que a realidade já não é o que era, precisa de um segunda análise e 
assim sucessivamente.
Não quero que fiquem a pensar que penso nestas coisas como se elas acontecessem 
cronologicamente. Mesmo na antiga Grécia já nasceu Heráclito -gosto mais da palavra 
esdrúxula - só que não vingou, imediatamente pelo menos - porque o terreno não lhe era propício .
Ó caraças, já estou cansado.
Vossas mercês -meus queridos dois leitores- também...suponho.

Geraldes de Carvalho

28-01-07

Quarta-feira, Janeiro 16, 2008

Mulheres e outras coisas da vida


Existe aí
numa daquelas casas particulares
muito decentes
onde só se é admitido por apresentação
como na alta sociedade,
existe uma rapariga meiga e boa.
Posso dizer-vos que é meiga e pudica
e não gosta que olhem para ela enquanto se despe
repreendendo-nos mansamente, assim:
Também não podias deixar de olhar ?
com um sorriso nos olhos
que é uma plena entrega antecipada.
Olhos pestanudos, de vaca
como diria o velho Homero
que deus haja...
E eu sou amigo dela e confidente
travesseiro aonde vou chorar
meus sonhos e amores destroçados.
E dela ouço aquela velhinha estória
do pai capitão e desumano
que a pôs fora de casa
só porque ela teve uma fraqueza
- que me perdoem os senhores capitães
mas ela disse mesmo que era filha de um capitão
e acrescentou o pormenor de reformado-.
Ouço dela essa velhinha estória
que contam todas as raparigas meigas e boas
e acredito-a, sim senhor.
Pois não havia de acreditar
se ela me a conta
com lágrimas nos olhos
pestanudos, de vaca?
Pode ser que o pai não fosse bem capitão
ou apenas lhe chamassem assim
lá na terra,
mas que tem isso de essencial?
E não será a minha estória igualzinha
à de tantos rapazes tristes
como eu
que lhe têm passado pela cama?
Além de que ela não se queixa
do pai desumano e capitão
nem do malandro que a desonrou
quando ainda era uma criança .
Não, conta-me só aquilo por contar
só para me poder dizer, deixa lá isso
quando eu fico sentado na cama de pernas a abanar...
E fico sempre assim após...após.
“Deixa lá isso”
E escrevem-se tratados de filosofia,
longos tratados e aborrecidos
quando existe uma frase como esta
dita por uma rapariga meiga...
E eu deixo aquilo deixo.
E quando venho embora
já sei, são cinquenta escudos.
É carinho é mas se eu der cinquenta e cinco
apanho mais um beijo.


Geraldes de Carvalho

em “a outra luta de Jacob” - Beira-Moçambique 1964

Domingo, Janeiro 13, 2008


teu corpo




Teu corpo eu amo querida
teu corpo é minha vida.
Teu corpo não é estrela não,
é terra, é pão.
Teu corpo tem
o cheiro o odor
do teu,
do meu suor.
Nele eu cavo profundo
e chego
ao fim do mundo.
Nele ouço a ti, a mim 
como um gemido
fundo e descontinuado
que eu ouço com os dentes 
no outro lado.
Querido,
querido outro lado
que me arrepia e invade
e assola
e me deixa babado
e fica em mim
assim, assim.
Teu corpo nu
és, simplesmente, tu
revolvida
dorida
gritando em dor
de amor
no meu doente ouvido
que às vezes não entende
porque não sabe ouvir
e pretende
ouvir ódio,
porque ódio
ódio, ódio
é este amor.

Geraldes de Carvalho

Quarta-feira, Janeiro 09, 2008

Auto-análise


Assento-me no escabelo da minha consciência 
e assisto maravilhado
ao desenrolar de múltiplos e incondicionáveis acontecimentos.
Que espectáculo maravilhoso !
Mas é preciso não sofrer de vertigens para suportá-lo.
Nascem-me, não sei de onde nem como, 
ideias que borbulham ao princípio timidamente
para depois se imporem
e tudo ameaçarem inundar ;
e assim como vieram assim se vão
deixando é certo
uma impressão de imensa frescura
mas absolutamente nada de menos indefinido.
E as lembranças (?)
que assomam de buracos imprevisíveis
como ratos no cinema de Disney
e conforme encontram o terreno livre ou perigoso
assim se instalam, mas nunca tranquilamente,
ou passam correndo apenas reconhecíveis pelo sentimento ?
Também me enervam os ratos
mas não fujo para cima de nenhuma mesa.
Fico ali assistindo a cópulas monstruosas 
em que dois -ou mais- destes seres inominados 
se juntam e misturam impudicamente .
Pensamentos chamo eu
aos nascidos de partos de todas as categorias.
E, sempre sentado no escabelo da minha consciência
assisto ao crescimento dos meus pensamentos.
Sigo-lhes a vida a par e passo.
São milhares.
Discorrem ao princípio tranquilamente
a um lado e outro lado do conhecimento
e se encontram um pequeno obstáculo
fazem dele motivo de brincadeira.
Pequenos muros que saltam como cabritos contentes,
muros maiores que transpõem com galhardia
e maiores que transpõem com heroicidade.
São assim os meus pensamentos .
A sua vida é alegre mas não muito gloriosa
até que chegam ao último obstáculo.
É um muro grande grande de que se não vê o cimo
mas parece um muro deste lado.
Também podemos chamar-lhe o mistério
que é uma palavra para o que não tem palavras.
E depois que lá chegaram
e o enfrentaram
sem o conseguir ultrapassar
obstinam-se louca e encarniçadamente.
Empinam-se como cavalos generosos
e batem-lhe com as patas dianteiras.
Quando reconhecem a inutilidade dos seus esforços
quedam-se e reúnem-se para deliberar.
Então começam os desentendimentos.
Cada um tem a sua própria resolução
e engalfinham-se como galos estúpidos e barulhentos.
É aí que eu me levanto do meu escabelo
e cego pela ira -porque eu não admito violências- 
procuro separar os contendores.
Luto com eles sem lhes ver a face
- irado como estou -
É uma luta terrível e silenciosa
e, subitamente,
encontro-me a esbofeteá-los.
Então uma grande calma nos invade
e voltam para mim a minha face magoada.

É por isso, é por isso
que eu tenho esta face magoada.


Geraldes de Carvalho
de “a outra luta de Jacob” Beira-Moçambique 1964

Quinta-feira, Dezembro 27, 2007

Má !...


Não haverá sentidos
mas castigos
para as palavras
sem juízo
que não vêem
aonde põem os pés !

Ficas avisada ,
minha querida
palavra má.

Má !


Geraldes de Carvalho

Quarta-feira, Novembro 28, 2007







Uma amendoeira no meu quintal













Quadras...
( Algumas não são ) populares - por antífrase -

I
Tanto queria encontrar
Quem me quisesse a valer
Que até me deitava ao mar
Se o mar me quisesse querer.

II
De mãos dadas com quem passa
Fico-me olhando quem sou
Mas não me encontro a teu lado
Encontro-me onde não estou.


III
Quando me olhei no espelho
Eu só queria fugir
Fugi e vi-te a ti.

Antes queria não ver-te
que ver-te no meu espelho.

Geraldes de Carvalho

em 30 ou 31 poemas de muito amor e quase nenhuma trivialidade

Quarta-feira, Novembro 21, 2007

Sexta-feira, Novembro 16, 2007

Rimance moderno -não escrito como romança -



Estava D. Briolanja
Sentada à sua janela
Bordando a cor de laranja
Um lençol cor de canela.
Chega D. Beringela:
Deus vos salve, mana minha !
Sabei que D. Aldo Mendo 
Casou com a doce Dulce
Nossa prima.

D. Dulce D. Dulce
É filha de uma cadela
D. Aldo, um cão renegado 
E tu, irmã Beringela 
Vai dizer-lhes que me viste
Morta na minha janela.

Comeu o dedal de prata
Sobre o peito a branca mão
Com a fina agulha de oiro
Cravada no coração

Venha venha o Jaguar
Corra corra ao hospital...

Veio o Dr. Barnard
Fez-lhe uma transplantação
-o dedal não lhe fez mal -.

Logo no terceiro dia
Briolanja já comia
Sem sinais de rejeição

Casou com Fonseca-filho
De boa reputação

Vivem numa casa linda
No bairro de Summerschield
3-4-5-7 , 9-2-5-4
À vossa disposição.


Geraldes de Carvalho

de 29 ou 30 poemas de muito amor e quase nenhuma trivialidade

Sábado, Novembro 10, 2007

Eu sou,ai eu sou...(IV)



Eu sou um navio
navegando frio
só e sombrio,
neste mar, vazio
de estio e de amor.


Navego pouco
mas navego louco
mas navego mouco
ao gemido rouco
da raiva e da dor.
Navego certo
no mar inconcreto
fechado, secreto,
navego insurrecto
sem som nem vapor,
nem leme, nem vela
nem rumo, nem estrela
nem desejo dela,
navegando por...


Por ondas
por mares
por ventos
por ares
por montes altares
por vales de azares
voo, vou e sou.


Se eu fosse
se eu fosse,
se ser eu quisesse
se ser eu pudesse,
emissor remoto
de astrónomo louco,
estrela quasar,
navio do ar
ancorado em porto
que eu só conhecesse...

Geraldes de Carvalho

Do meu livrro Novos e Velhos Cantos -Évora 2006

Terça-feira, Novembro 06, 2007

Adolescente

Ah louca, ah louca...
Há uma voz que desce
que desce 
e que traz,
os limbos, os céus,
os gestos que faz.


Ah louca, ah louca...
Rosada, a menina
das tranças, diz:
Tenho os meus olhos no céu
na terra ponho o nariz.


Ah louca, ah louca...
Tens a vida
atrás de ti
não te mexas,
não te voltes,
a vida é um passarinho
não te mexas,
tens a vida atrás de ti
descuidada...
Agora, agora devagarinho
não te mexas...
desastrada !.


Ah louca, ah louca...
Toma lá 
dou-te um beijinho
mas não digas 
a ninguém
que os meus beijos,
meu carinho,
são só para ti...


E há deuses 
que vêm
descendo 
assim como as folhas,
assim, assim,
bailando,
trá-lá-lá, 
lá-lá , lá-lá ,
e chegando à terra dizem:
Eu cá, sou o deus tal,
e vão-se embora 
subindo
bailando
assim como as folhas
trá-lá -lá,
lá-lá, lá -lá.

Geraldes de Carvalho
De Novos e Velhos Cantos. Évora 2006


Aqui está a minha. E a tua?
gdec

Dos anjos...poema-prosa . Incompleto

Dos anjos e dos demónios

O que mais invejo nos anjos é a possibilidade de se tornarem demónios. Qual há aí, de entre vós, que não cobice o papel que os deuses deram a Mefistófeles? Pois não somos todos uma tentativa de demónio a fugir perpetuamente de uma cruz? Mas ela acaba sempre por nos apanhar, porque os seus braços só terminam no Infinito, e por isso o nosso fracasso como demónios. Vingamos mais como deuses, à maneira de Cristo, deixando-nos crucificar. Mas ainda aí nos apanha a nossa insuficiência, porque não somos capazes de morrer antes da hora nona, e vêem os soldados para nos esmigalhar os ossos!... Então lhes mandamos um pontapé pelos queixos e lá se vai o «perdoa-lhes ... »
Ressuscitar é o que custa menos. Todos os dias ressuscitamos de nós mesmos e parece que não nos admiramos pelo facto. E quem é que nos mata? - És tu. Sim, és tu. Quem te mandou a ti obrigar-me a olhar para o alto? Quem nos mostra o céu é sempre um assassino. O ferro entra-nos pelos olhos ... da alma e o ferro tem a forma de uma cruz. E porquê uma cruz? Só a cruz é tudo ...

Geraldes de Carvalho
de Sombras de Alma -Coimbra 1955

Sexta-feira, Novembro 02, 2007

Diz-me lá -em construção mas, se eu morrer, vale mesmo assim.-

Tu Platão, meu amigo
meu companheiro
velho
que vislumbraste o mundo
cheio de sombras 
do fundo da caverna
-e aqui ainda estás-
tu que trataste Dionísio como teu discípulo
mas era o teu captor,
tu que três vezes, três,
insististe em educar Siracusa
e das três vezes falhaste
permanecendo sempre
o educador
-sei bem que tu pensavas
em nós, quando dormias-
diz-me lá, meu sábio
amigo,
o que é que pensarias
se não tivesses visto sombras,
nem nada 
como eu(não) vejo.

Porque quero saber
o que pensar.


Geraldes de Carvalho
de 30 poemas de muito amor e alguma trivialidade

Quarta-feira, Outubro 31, 2007

Eu sou ai eu sou -VI-

Eu sou ai eu sou
um grito
perdido
na noite passada
na noite fechada

Ressoo e ecoo
Redobro o torpor
Desta noite antiga
em que eu não sou nada
Apenas um grito
na noite perdido
na noite perdida

Abro a boca
os olhos;
vou
por aqui - por onde? -
aclarando a voz
A noite está louca
pois só me responde 
um silêncio atroz


Não me reconheces?
Estou tão mudado?
Como é isso assim
se apenas sou nado?

Queres que me cale?
Mas como poder?
Estou vivo, não ves?.

O que eu digo é nada?
Bem sei, bem no sei
mas faz-te pequena
e assim me ouvirás.

Minha noite amiga
noite em que eu nasci
olha para mim.
Por que eu não sou eu
sou montes, montanhas
alcateias, bandos,
e bandos e bandos
que gritam assim...

Se eu fosse
se eu fosse
se ser eu pudesse
se ser eu quisesse
uma voz mansinha
que dissesse
à noite
à noite pequena
à noite, à noitinha
o que ela adivinha.
E se ela me ouvisse
e me acalentasse
como eu desejasse...

Se ser eu pudesse
se ser eu quisesse...

Geraldes de Carvalho

de NOVOS E VELHOS CANTOS Évora 2005

Terça-feira, Outubro 30, 2007


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Apaixonei-me pela tua fronte larga

Amo-te nas manhãs do meu maio generoso
e nas ruas brancas do teu silêncio. 
E a tua fronte larga, é o meu infinito 
é meu horizonte. 
Nela semeio as flores 
da minha fantasia 
e a poesia que colho 
és tu a desfolhar-se. 
Amo-te nas manhãs que não existem fora de ti
nas manhãs que constróis com as tuas auroras. 
Levou-me deus ao paraíso e disse: 
Escolhe. 
Este campo será o meu jardim! 
E foi. 
Anda ver a tua fronte semeada.
Tenho as flores aladas da maravilha céu 
e as flores prateadas da maravilha mar.
Escolhe o que quiseres. 
Enche de rosas rubras os teus cabelos negros
e de camélias brancas os teus rosados seios, 
tece grinaldas-sonho em forma de vestido
faz do teu corpo todo um arraial florido. 
E havemos de cantar ao deus da primavera 
«É bom viver e amar» 
que me ensinou a nossa estrela. 
E será sempre maio. 
e serás sempre bela.
E o teu cabelo preto 
há-de pedir um raio à nossa estrela . 
E será sempre maio 
e serás sempre bela. 
E o teu cabelo ... preto 
há~de pedir outro raio à nossa estrela ... 
E será sempre maio 
E serás sempre bela. 
E o teu cabelo ... lindo 
há-de pedir mais um raio à nossa estrela . 
E será sempre maio 
E serás sempre bela. 
Meu deus, que mimoso encanto 
as rosas vermelhas 
no cabelo branco! 
E será sempre maio 
e serás sempre bela! 

Geraldes de Carvalho
de Sombras de Alma - Coimbra 1955

Sábado, Outubro 27, 2007

Cantiga de amigo -que já foi americana -quando eu tinha medo da PIDE

Mãe, meu amigo vai
lá para as bandas do mar
lá para as bandas de