Terça-feira, Julho 14, 2009

Domingo, Julho 12, 2009


Amo-te tanto


Amo-te tanto, meu amor

com tanta concentração

que às vezes nem sei se existes

ou não.


O mundo desaparece

não distingo nada

não.


Então

meu eu

também me esquece

e ao esquecer-me

se relembra

de mim

de ti.


Vejo então

que estão

tu e eu

dentro de mim


e é bom.


Geraldes de Carvalho


Segunda-feira, Junho 29, 2009






foi ontem


Foi ontem que nos casamos

E meio século se passou

sem que o sintamos.


Ontem éramos meninos

hoje somos ainda

mais pequeninos.


Ás vezes nos zangamos, é verdade

mas depois nos beijamos

de felicidade .


Outro meio século viveremos

eu e tu

depois virá uma estrela

ou uma simples quasar

e ficaremos eternamente

no ar.


Geraldes de Carvalho







Quase

E foi então que
quando a tua boca se aproximava
me esqueci de ti
-de quanto queria
beijá-la-.

Quando a tua mão se estendia
me esqueci do que sentia
-de quanto queria apertá-la-.

Quando os nossos olhares se cruzaram
me esqueci
de que sabia olhar
-de quanto queria abraçá-los
e afundar-me neles-.

Quando a palavra soou
me esqueci
de que sabia ouvi-la
-de quanto queria guardá-la
e cantá-la também-.

Por que será meu amor
que quase quero
quase te quero
quase te abraço
e te beijo
quase te ouço
e te vejo
quase te guardo
e te amo
meu amor!

Geraldes de Carvalho

Quinta-feira, Junho 11, 2009

Ninguém se impressionou com o meu sétimo penduricalho .
Talvez o 8º ?


8º evento -que é o mesmo que dizer 8º penduricalho-


O meu penduricalho mais barulhento começou hoje a queixar-se de que não lhe dou atenção alguma e que assim, disse, desisto, vou-me embora, deserto, abandono-te, deixo-te...

Espera aí, espera aí , disse eu : Vais-te embora como ? Como é que vais viver sem mim, tu que és apenas um pedacinho desprezível da minha mente ?

Ai, desprezível ? E esta dor, aguentas ?

Ai, ai, aiiii

E esta angústia aguentas ?

Aaaaaaiii...Pára com isso, pára com isso, por favor .

Vou hoje contar aquela coisa horrível que me fizeste tresanteontem , mas depois não te queixes.

Coisas horríveis eu gosto mesmo .

E foi assim que...Logo que me deitei comecei a sonhar uma coisa disparatada de que me não lembra nadinha mesmo .

Não me digam que vou ficar toda a noite nisto e vou acordar estourado de todo e, ainda por cima, sem saber porquê?

Não, não, disse a garota que estava a passear ao meu lado e ligeiramente à frente . Sabemos que és um rapazinho muito bem comportado mas isso será de dia, quando estás acordado , disse ela cantando e perlongando aquela vogal que rimava, assim: acordaaaaaaado.

Ó, ó parece que vou ter sorte, pensei eu e fui-me chegando . A verdade porém é que parece que nunca mais chegava junto dela embora me aproximasse cada vez mais.

Não me digam, meditei que estou aqui a encontrar aquele absurdo paradoxo da lebre que não pode agarrar a tartaruga porque ... ( bem . V.cês conhecem o paradoxo, ou não? ).

Apressei o passo e ela começou a rir . Era um riso de gozo, indecente e debochado . Reparei nos seus dentes podres que soltavam um cheiro insuportável.

Apesar de tudo continuava muito excitado a procurar apanhá-la e estava quase a tocar-lhe no braço quando o mesmo se desfez escorrendo para o chão com aquele mesmo cheiro que provinha dos dentes podres . Estava quase a apanhar-lhe o ombro mas aconteceu a mesma coisa. E foi acontecendo o mesmo enquanto eu estava quase a apanhar-lhe as mais diversas partes do corpo. Por fim ficou apenas a boca e os dentes podres com os quais ela conseguia continuar com aquele descarado riso. E eu, excitado e enojadíssimo, procurava agarrá-la pelos dentes quando acordei todo assarapantado, todo excitado, todo molhado.


ugsugsrrrsss...

Geraldes de Carvalho




Quarta-feira, Junho 10, 2009


7º evento

Esta noite não me deitei. Tinha muito que fazer no meu escritório . Faço muitas vezes estas directas e sinto-me bem . A questão é que possa dormir bastante nos dias seguintes.

Mas esta noite por volta das três horas deu-me um sono terrível. Procurei lutar contra ele mas foi impossível e acabei por por a testa em cima do teclado. Algumas das letras do dito começaram a fazer-me cócegas . O pior foi que o R começou a arranhar-me. Ele é nitidamente onomatopaico . Basta-nos olhar para ele para começarmos a coçar-nos . O meu azar foi que fiquei com o olho esquerdo mesmo encostado ao dito R e como não tinha premida a tecla das maiúsculas fiquei efectivamente encostado ao r , um r que, por ser pequenino, faz ainda uma comichão mais irritante . 

Comecei a pensar como é que devia livrar-me daquilo . Uma solução seria a de desfazer-me do computador e voltar a escrever à mão com um lápis ou uma caneta e foi isso que imediatamente pus em prática

para descobrir, com o desgosto que imaginam, que dessa maneira já não sei escrever nada que uma pessoa normal possa ler. 

Também podia tentar escrever ignorando propositadamente o r mas verifiquei que então se me tornava impossível escrever a palavra amor e ficaria com o meu pior ar de tonto escrevendo amo, amo . Ora sem amor nem vale mesmo a pena escrever. Sem amor nem mesmo somos nós mesmos mas um outro que inteiramente desconhecemos e com o qual até nos podíamos dar muito mal . Não não, concluí . Sem amor não, vale mais a comichão. E fiquei muito contente com esta rima involuntária que embora seja uma rima da mais baixa categoria me deixou tão satisfeito que até esqueci a comichão.

 A comichão, concluí exultante não é senão a falta de amor. E fiquei a cantar : A falta de amor, a falta de amo..r..r..r.

A chatice toda foi que acordei enquanto esfregava o olho esquerdo, furiosamente.


Geraldes de Carvalho

Terça-feira, Junho 09, 2009


alma fugida


O que tenho de mim menos

é a alma.

Ela não aparece

quando eu estou.

Meus olhos não a vêem

nem é sensível 

à minha apalpação.

Teus olhos não a vêem

nem é sensível

à tua apalpação.

Se um amigo se afasta

chora às vezes

mas logo se retrai se é apanhada.

Finge não existir

quando eu a quero.

Só no silêncio da noite me incomoda

Murmura aos meus ouvidos

sentidos indecisos

que me fazem acordar sobressaltado

pensando que sonhei,

não a senti.

Mas, alma minha

quando eu morrer

tu ficarás

na lembrança dos que me conheceram

dos que ouviram falar de mim

dos que me leram.

E ali viverás eterna

imorredoura

um ano, pelo menos...


Geraldes de Carvalho



Quinta-feira, Maio 21, 2009


...a perna e o quadril.


És tu, és tu ainda ?

És tu que estás aqui ?

És tu que me não larga ?

O que queres de mim. ?

Não te basta meu peito?

A perna e o quadril ?

e a mão que era guardada

no fundo do redil?

Queres também a alma 

que eu fingia não ter ?

queres comer-me o olhar ?

a voz queres comer ?

talvez o meditar

também queiras comer

talvez tu queiras mesmo 

comer o meu sonhar (?)


Estou aqui mulher

de ti não vou fugir

Vem mulher, estou aqui

brilhando

a refulgir.


Geraldes de Carvalho

Terça-feira, Maio 19, 2009



As palavras são ou não são ...?



Sim, 

as palavras são demais

quando há amor.

Deixam sempre um resquício 

um depósito

que não podemos aproveitar

nem para queimar

e aquecer-nos no inverno.


O amor necessita viver nas profundezas

de nós

lá onde não chega o som

nem, dos seres sonorosos, o vibrar 

lá onde tu estás estática 

como deusa ebúrnea

que todos nós 

beijamos sem tocar

beijamos, assim, no ar

para não soar

e distrair-nos de amar .  


Amar...?

Mas amar a quem ?

A uma deusa ebúrnea?

Bem...

Prefiro amar a ti

-um outro a ti-

de sangue quente

e vibrante

ainda que o meu amor

não seja puro

e o teu

não seja puro também.

Beijar-nos-emos assim

impuramente

tocar-nos-emos com nossos dedos

impuros

zangar-nos-emos às vezes

para podermos

beijar-nos e tocar-nos

mais

quando fizermos as pazes

que não serão cerúleas

não;

nos arrojarão 

no chão.

Ali no chão

onde as nossas, muitas 

palavras,

jazerão.


Geraldes de Carvalho

(de 41 poemas de muito amor e pouca futilidade)

Sexta-feira, Maio 15, 2009

Mesmo correndo o risco de ser considerado em estado de senilidade, apresento-vos aqui a minha bisneta...

Domingo, Maio 10, 2009

A tragédia da alegria -nova versão muito aumentada e modificada


A tragédia da Alegria




Quando o meu coração se enche de amor

a alegria extravasa pelos meus olhos

arrepanha-me os lábios 

enche de sons a minha garganta

dilata-me o peito .

As minhas pernas saltam

os meus pés dançam

e eu me extasio.


Discretamente caminho pelas ruas

fazendo um enorme esforço

para não disparar.

O meu céu fica cheio de pássaros cantantes

as árvores cheias de frutos suculentos

e cada folha é uma flor.


Serão elas que eu ouço cantar

por todo o céu?

Elas as folhas-flores

As aves-frutos ?


As pessoas olham para mim 

com olhar prazenteiro

Alguns desconhecidos 

chegam a cumprimentar-me

Como está? Está bem ? dizem-me.

As crianças brincam comigo seus jogos prazerosos 

Os velhos oferecem-me os seus últimos sorrisos

As mulheres... ó as mulheres, as mulheres.



Meu coração está cheio a rebentar.

A quem é que eu devo dar o meu amor ?


Aonde estás tu 

aquela que eu amei sonhar

e amar ?


Como penteias os teus cabelos ?

Como desenhas o teu riso ?

O que pensas ?

como caminhas ?


Porque não vens ?


Devias vir 

e dar sentido à minha alegria.

Devias vir 

e dar a voz a este canto

Devias vir 

comer os frutos suculentos na minha boca

Devias vir morder meus lábios arrepanhados.



Devias vir encher meu peito

apertar minhas pernas

beijar meus pés

cocegar minha barriga.

Devias vir

ameigar as aves

que adejam à minha volta

mas não pousam.

Devias vir

brincar comigo

feita como eu

uma criança.

Devias vir

aparar o riso dos avós

não os deixar dizer adeus.

Devias vir

devias vir

tu mulher

mulher

mulher.


Talvez assim

a minha alegria

não fosse

a tragédia

alegria.


Geraldes de Carvalho








foi ontem




Foi ontem que nos casamos

E meio século se passou

sem que o sintamos.




Ontem éramos meninos

hoje somos ainda

mais pequeninos.




Ás vezes nos zangamos, é verdade

mas depois nos beijamos

de felicidade .




Outro meio século viveremos

eu e tu

depois virá uma estrela

ou uma simples quasar

e ficaremos eternamente

no ar.




Geraldes de Carvalho  






foi ontem


Foi ontem que nos casamos

E meio século se passou

sem que o sintamos.


Ontem éramos meninos

hoje somos ainda

mais pequeninos.


Às vezes nos zangamos, é verdade

mas depois nos beijamos

de felicidade .


Outro meio século viveremos

eu e tu

depois virá uma estrela

ou uma simples quasar

e ficaremos eternamente

no ar.


Geraldes de Carvalho 

Domingo, Maio 03, 2009


6º evento

Quando hoje me levantei ainda estava com muito sono. Que é isto ? Parece que as noites não me servem para dormir mas sim para encher a cabeça de coisas atabalhoadas . 

Calculem que esta manhã tinha uma quantidade de ideias na cachimónia que lutavam umas com as outras para conseguir assomar à borda da tampa e conseguir respirar um pouco. 

Com estas ideias, vermelhas, congestionadas com o ar já respirado, não me admira que me sinta como se prestes a morrer afogado . 

Mas havia uma ideia que parecia ter um pouco mais de fôlego do que as outras e as suplantava a todas. Era ela a ideia da minha importância no contexto social em que vivo. Que parvoíce ! Que importância pode ter um sujeito que nem sabe precisamente aonde põe os pés ? 

Que importância pode ter um sujeito que nem sabe se os vizinhos o conhecem bem ou mesmo se o conhecem apenas ? 

Ora aí é que tu te enganas, respondi-me. Quando penso em importância não quero dizer que seja muita . Pode ser muito pouca e até nenhum.Mas bem mostras que és homem porque importância só tem para ti o valor de IMPORTÂNCIA.

Mas que importância é que isso pode ter? 

Pronto, já estás a sair pela esquerda baixa, pelo caminho dos jogos de palavras.

Não, não se trata precisamente de um jogo de palavras mas da constatação de que tenho de ser importante porque sou único. Já pensaste tu, eu, que estas ideias tontas que estás a ter são tontas mas são únicas de maneira que havendo, como há, biliões de pessoas nenhuma delas está a escrever as mesmas ideias neste momento . 

E como é que tu sabes isso ? 

É claro que tem de ser assim porque senão não teríamos importância nenhuma.

Lá isso é verdade, concluí antes de morrer sufocado.


Sábado, Abril 18, 2009


1º evento

Tenho a minha cabeça tão cheia destes acontecimentos nocturnos que vivo no terror de que rebente se não os despejar aqui neste papel que por sinal nem é muito apropriado .

Devia ter começado este relato já há mais tempo porque na verdade me esqueci já de muitos pormenores dos  acontecimentos que me acontecem e aconteceram , de maneira que é perfeitamente natural que alguns deles, por que truncados , vos pareçam inverosímeis mas a verdade é que quanto menos consigo discernir os pormenores mais os acontecimentos me perturbam parecendo até que não estão dentro da minha cabeça mas fazem apenas parte dela assim como penduricalhos que apenas lhe entravam os movimentos .

De maneira que eu pareço eu e mais tantos, quantos os penduricalhos que arrasto na minha mente alguns do quais são tão diferentes dela mesma que ela mesma os estranha e tenta repeli-los  o que não parece possível pois não só tais penduricalhos estão agarrados à minha mente como parecem ter raízes nela o que não me permite por vezes distinguir o que é a mente, o que são os penduricalhos e o que é cada um deles e o que é a minha cabeça. 

Como isto me dói !

No entanto será necessário que eu comece por algum lado. Vou então começar pelo lado mais extremo de um desses penduricalhos para ver se não vem algum pedaço da minha mente agarrado a esta minha descrição .

Lembro-me perfeitamente de que esta complicação toda começou precisamente há vinte anos mas não me lembro se este episódio se deu há vinte anos ou vinte dias ou até, sei lá, há vinte horas.

Foi o caso que logo que me deitei ouvi uma voz a chamar-me que parecia vinda de debaixo da cama . Mas como sei muito bem que não tenho qualquer sentido de orientação levantei-me e dirigi-me para a porta da rua a qual no entanto, não me lembro de ter abrido ; não me lembro de ser aberta por mim -é assim que eu engano o meu computador que não sabe português e por isso marca a palavra abrido com um sublinhado vermelho o que é bem feito para a palavra abrido que é horrorosa - .

A verdade verdadeira porém é que me encontrei face a face com o meu velho professor da instrução primária, na pequena sala de estar dele. Ajeitava na mão a sua pequena mas grossa régua e queria saber se eu sabia o que era um advérbio. Ainda bem que o Sr. me pergunta isso porque ando há mais de meio século com ela entalada; desde que me perguntou o mesmo quando o visitei depois de entrar no liceu. Mas então diz-me lá o que é , insistiu ele batendo com a régua na própria palma da mão. E eu pensei : Vou-lhe dizer que é um adjectivo de um verbo para ver como é que ele se amanha com esta.

 Apareceu porém por ali a linda mulher dele que trazia um prato de biscoitos na mão os quais me souberam tão bem que me esqueci  do professor e dos seus advérbios os quais, bem lá no fundo do meu penduricalho, continuei a pensar que eram os adjectivos com que os verbos gostavam de brincar . Mas isso eu gostaria era de dizer ao ouvido da linda mulher do professor e parece que ele percebeu porque se retirou elegantemente deixando-me só com ela o que muito me surpreendeu porque sabia que ele não era grande amante de tais delicadezas.

Procurei então aproximar-me dela, a linda mulher do professor, mas a verdade é que quanto mais andava para ela mais me distanciava Olhei então para mim mesmo e descobri que isso era devido ao facto de que a cada passo que dava me encolhia de maneira que já estava mais pequenino do que quando entrei para a escola a primeira vez . Que chatice. Desta maneira se não me precato ainda entro na barriga da minha mãe -não pensei eu, porque não tinha, então, idade para pensar tal coisa - 

A linda mulher do professor parecia-me agora era uma linda senhora, muito distante, à qual só me apetecia beijar os pés. Também era verdade que com a minha altura não lhe poderia chegar a outro lado do corpo que merecesse ser beijado, pensei eu muito admirado como é que, com tal altura, conseguia ter pensamentos tão marotos. 

Comecei por isso a tentar afastar-me dela e a crescer à medida que me afastava . Tive por isso o desprazer de voltar a ver o professor que dizia qualquer coisa que eu não podia compreender . Também eu lhe respondi qualquer coisa que na verdade me saia da boca do fim para o princípio e da mesma maneira se processavam os meus pensamentos os quais só pude supor que não eram amigáveis . Em breve cheguei à porta da rua que se fechou à minha frente quando eu já estava dentro de casa . Muito me admirava como é que não tropeçava num dos muitos móveis que tenho na sala e no corredor embora o meu andar fosse ao para trás. 

Em breve me encontrei deitadinho na minha cama e muito contente por  estar a dormir tão profundamente que era um regalo.





Catrapaz...(corrigido)





Paz paz paz

ratapaz paz paz

catrapaz paz paz !

É assim

no nosso mundo

a paz.

Contradiz-me

se és capaz.

- não a mim...-

Nisto me fundo

porque  o papa

papa papa

rapa rapa

e tudo esconde

em sua alva saca.

Porque o rei

o rei é roque

ou nem é rei

nem é roque

(talvez escroque)

E o presidente-ministro

não preside não ministra

insisto

não ministra não preside

catrapisca pro seu bolso

pro seu bolso

fundo e falso.

O banqueiro

é um senhor

que se amanha

com o suor

de outras testas

sim senhor .

E os outros

mercantilistas

capitalistas

pois então

são artistas

da rapinagem

ladroagem

é o que são.

Tu és branco?

Ratrapaz.

Amarelo?

Catrapaz.

És vermelho ?

Catrapaz.

Tu és preto ?

Ratrapaz, paz, paz-

Trazes cruz ?

Raprapaz, catrapaz.

Trazes lua ?

Catrapaz, ratrapaz.

Tu vens livre ?

Livre estás ?

Catrapaz e ratrapaz ...

E querem vocês a paz

ratapaz ?

É o que querem 

catrapaz,

paz, paz e paz ?


Geraldes de Carvalho


 







Quinta-feira, Abril 16, 2009

2º evento


Meu sono, porém não durou tanto como eu queria.

Voltei a acordar surpreendido por um som que parecia mesmo o chorar de uma criança. Este sim, que vem mesmo de debaixo da cama, pensei eu.

Levantei-me e introduzi-me num alçapão que sem surpresa, encontrei ao lado dos meus sapatos.

Andei um bom bocado por um terreno bastante árido até que encontrei ali o Rodrigues que parecia vir de um encontro com um grupo de terroristas . Arfava ruidosamente como se estivesse a ter um ataque de asma e produzia um som que agora me parecia mais semelhante ao miar de um gato. Pedi-lhe que me contasse o que lhe acontecera. Ele fez-me um gesto que significava que não podia falar porque não tinha ar suficiente no peito.

Esperei um bom bocado até que finalmente se tranquilizou ao mesmo tempo que a sua cara se transformava de maneira que me parecia ser o Guedes . 

Como podia ter-me enganado tanto, pensei, uma vez que o Guedes não é nada parecido com o Rodrigues . Mas quando abriu a boca reparei que o seu tom de voz era mesmo o do Rodrigues . Não importa cogitei eu então. Tanto me faz que seja o Guedes como que seja o Rodrigues . A questão é que me conte rapidamente o que lhe aconteceu, antes que me aconteça também a mim . 

Tal pensamento pareceu-me muito engraçado e tanto que comecei a rir descontroladamente fechando os olhos . Acabei de rir ainda com os olhos fechados e, na verdade, sem saber porque me rira e comecei a ficar com o medo de que o Guedes-Rodrigues tivesse desaparecido. 

Depois de um grande esforço consegui abrir o olhos e mesmo na minha frente estava o Guedes-Rodrigues que com a voz deste me disse, ao mesmo tempo que me abraçava, que estava vindo da festa da nossa anual reunião de curso. Que eu fora muito indecente por não ter querido ir apesar da insistência dele mas que afinal ninguém reparara na minha falta nem perguntara por mim. Nem mesmo, disse, a tua antiga namorada, que engordou brutalmente.

Aquilo irritou-me sobremaneira de modo que o sacudi firme mas disfarçadamente . Foi então a vez dele começar a rir fazendo uma cara muito feia com a boca aberta e os olhos fechados. Fiquei a olhar para ele como que fascinado com aquele esgar e demorei a perceber que ele não saía dele. Óh diabo, pensei, isto é um bocado perigoso o melhor é eu ir-me deitar na minha caminha. 

E assim fiz . Adormeci rapidamente e dormi tão profundamente que era, foi, um regalo.


Geraldes de Carvalho

 

Terça-feira, Abril 14, 2009

3º evento


Acordei de manhãzinha cedo e ainda cheio de sono não percebo porquê pois dormi quase nove horas e não tive, que me lembre, sonho algum. Deve ser por isso mesmo porque ouvi dizer que os sonhos nos fazem muito bem.

Pus-me depois a meditar sobre o penduricalho que devia usar na minha próxima descrição.

E resolvi utilizar um que pende demasiadamente do lado direito do coração, direito para quem esteja dentro dele, é de ver.

Vejamos pois o que o penduricalho diz:

Que estou enganado sobre tudo o que escrevi até agora. Que nada daquilo é o sonho que eu, sub-repticiamente, queria que vomecês julgassem que era. Que nenhum sonho se processa daquela maneira . Que em todos os sonhos nós matamos a nossa mãe ou, pelo menos, o nosso pai ou um tio ou uma tia se eles é que fizeram de pai ou mãe . Que na nossa descrição nem a mãe nem pai, nem o tio nem a tia sofreram a mais leve beliscadura e que por tanto, por conseguinte, o nosso texto não passava de uma droga, que era, na verdade, um texdroga ou uma drogtexta . 

Não me zanguei com aquilo . Efectivamente eu mesmo, ou seja o lado monolítico do meu cérebro, concordava com cada palavra, ponto por ponto.

Como é que eu ia descalçar aquela bota ? A verdade é que eu não matara nenhum dos meus progenitores nem tinha tios ou tias que pudesse matar e não podia dizer o contrário porque a verdade acima de tudo, acima de tudo a verdade. 

Bom, se é preciso matar alguma coisa vou contar como é que, com a ajuda do penduricalho, tive de matar o gato da minha vizinha. Foi o caso que o mesmo, maldito, resolveu vir parir os seus gatinhos dentro do meu quintal. Descobri-o infelizmente já muito tarde quando ele, ela, já tinha parido meia dúzia de gatitos . Estava enfiada no meio da lenha que tenho amontoada a um canto do quintal e mal me tentei aproximar começou a bufar como uma danada . Afastei-me prudentemente mas naquilo que na altura me pareceu o dia seguinte voltei lá. Ela afastara-se certamente para procurar comida em algum lado e eu aproveitei para me aproximar do gatinhos, peguei um deles e pû-lo, por cima da parede, no quintal do vizinho que era onde eles pertenciam. 

Voltei ao monte de lenha e peguei outro gato. Foi então que a gata apareceu e se atirou a mim enraivecida.  

Opus-lhe o braço direito que sacudi violentamente e foi bater com força no muro do jardim que estava perto.

Ficou um bocado assarapantada e eu aproveitei esse facto para me desfazer do gatinho que tinha na mão esquerda e apanhar um pau que estava ali à mão de semear.

Ainda antes que a gata se levantasse mandei-lhe uma bordoada que a imobilizou definitivamente.

Peguei então nela e nos outros gatitos todos e foi tudo para o quintal do vizinho aonde pertenciam.

Vejamos o que dizer desta descrição :

Em primeiro lugar usei por engano um penduricalho do coração em vez de um penduricalho da mente . 

Surpreendentemente o penduricalho do coração foi mais violento do que os penduricalhos da mente .

Este evento não aconteceu à noite mas de dia, embora num dia bastante chuvoso, deve dizer-se.

O evento deixou-me com uma fome de morrer .


Geraldes de Carvalho

Sábado, Abril 11, 2009

O

4º evento
Hoje adormeci muito cedo
E muito cedo acordei sentindo que alguém mexia no meu computador que está no escritório vizinho do meu quarto . Vou lá e dou uma ensinadela àquele metediço, pensei.
Aproximei-me pé ante pé e vi o bisbilhoteiro sentado à secretária com um pijama exactamente igual ao meu . Era estranho porque não uso pijamas iguais aos dos outros transeuntes . 
O tipo não só bisbilhotava no meu computador como também no meu guarda roupa . 
Iria de volta e havia de surpreendê-lo tanto mais que estava concentrado, observando não sei o quê e escrevendo no teclado. Assim fiz, mas quando estava quase a ver-lhe a cara o tipo voltou-se ocultando-me novamente aquele rosto descarado . 
Perdi o cuidado com que até então me deslocara e corri no sentido contrário. Ele voltou-se calmamente para o computador e parecia tão encantado com o que observava que nada ligou ao barulho que eu fazia . 
Tentei aproximar-me dele mas não consegui. 
À sua volta desenhava-se um halo que embora fracamente visível era tão impenetrável como uma rocha . 
Agora entendo que afinal nada ouve do que se passa fora dele mesmo, magiquei.
Serei eu quem está ali(?), me perguntei tal como Vomeçês também já se perguntaram. Mas a mim não me parecia que fosse eu quem estava ali uma vez que poderia estar bem melhor dormindo como um anjinho . 
Concentrei a minha atenção no computador e consegui ver que ele estava a escrever um poema e vi que era exactamente o mesmo que eu escrevia quando me deu aquele sono terrível ontem à noite. Parece que afinal sou eu mesmo e está explicada a razão pela qual, por vezes, me parece que não fui eu quem escreveu aquelas coisas . 
É bom que tal aconteça. Escuso de sofrer como acontece quando escrevo acordado . 
Escrever é o demónio pensei aproximando-me devagar como quem não quer a coisa. À medida que me aproximava o eu que estava ali ia-se extinguindo e eu via as minhas pernas, os joelhos e todo o corpo a sentar-se na cadeira em frente do computador . Só não vi foi o meu rosto mas a verdade é que ninguém o vê salvo se tiver um espelho coisa que há uns tempos para cá detesto cada vez mais.

Quinta-feira, Abril 09, 2009

O 5º evento

5º evento
Quando acordei a meio da noite apenas vi um olho. Duvidei que fosse o meu próprio e suspeitei que era do outro, esse tal que me espreita todo o dia. Que estaria ele a espiar ?
Daí a pouco comecei a perceber porque me vi a curta distância nu e deitado de barriga para baixo. O que é que eu estarei ali a fazer, me perguntei .
Esperei que me mexesse e esperei muito
mesmo e tanto que acabei por adormecer. Ainda bem porque logo me apercebi de que estava a espreitar, atentamente, a terra à frente do meu nariz . Que poderia eu encontrar ali . Só terra ou algum bicho insignificante.
E tinha razão porque depressa comecei a ver um bichito que se movia decididamente mas sem direcção definida.
Interessante aquele bicho, porque parece mover-se com a desenvoltura de um homem .
Afinei melhor a vista daquele olho e vi que na realidade aquele bicho era um homem que crescia à medida que eu sintonizava o olho para aquela imagem.
Aonde vai ele, o homenzarrão ? Na verdade parecia que eu andava por ali sem nenhuma razão . Andava por aqui e por ali.
Óh assim não! pensei. Para me ver assim, não preciso de dormir e acordar e adormecer outra vez. A minha desorientação é apenas aparente. Há muitos lugares para ir desde o céu até ao inferno.
Mas quê? Que céu ? Mas quê ? Que inferno?.
Que mania aquela, daqueles bichitos. Não se contentam com menos. Só palavras grandes é que têm naquelas cachimónias.
O céu é aquele pedaço de terra que tem em frente dos
olhos e o inferno, idem, idem, aspas, aspas.
Como eu gostaria de dizer isto, aquele bichinho. Mas não podia, não senhor. Eu estava dormindo atrás daquele olho que pertencia aquele outro.
E continuei ali deitado de borco a contemplar um bicho que andava por ali bastante às aranhas procurando pelo céu.
Ou seria pelo inferno ?


Geraldes de Carvalho

Sábado, Abril 04, 2009

Germina na minha cabeça


Germina na minha cabeça um poema
que não semeei .

Talvez saia uma monstruosidade
ou qualquer outra coisa,
que não sei.

Talvez saia uma estrela do mar
ou uma estrela
que seja quasar
ou aquela que tenho no peito
e se demora muito a mostrar .

Talvez saia apenas uma flor
que solicite chorando
ser regada

antes que, meu amor,
se desfaça
em puro olor .

Mas seria, amor, uma pena
porque não lembraria
o poema.

Geraldes de Carvalho

Quinta-feira, Março 26, 2009

Foder é dialéctico

Foder é uma exaltação
é uma festa no fim deste mundo
do mundo que começa e acaba
nas nossas cabeças .

É a foder que nos conhecemos a nós mesmos .
Não nos é permitido fingir ou disfarçar
porque é o momento de morrer,
o momento da última seriedade .

A foder nos desfazemos de nós
de tudo o que está velho
e mesmo podre
para nos reinventarmos
e morremos velhíssimos
e renascemos menininhos.

Foder não é metafísico
não.
É dialéctico
como tudo o que é são .


Geraldes de Carvalho

Quarta-feira, Março 25, 2009

lindo amor

Queria esquecer, amor
que me esqueceste...

O nosso amor foi lindo, amor.

Andamos numa roda gigante
e fomos do inferno para o céu
apenas num instante.

E eu ao ouvir apenas
a tua voz
fiquei logo a saber
que eras tu
o feiticeiro de Oz.

Um feiticeiro diferente
porque senhor
verdadeiro
de feitiços de amor
e, além disso,
vidente.

E só de olhar apenas
os lábios teus
me ajoelhei ouvindo-te
como se fosses deus.

E é por isso
que eu queria esquecer
que fui esquecido
assim .

Embora eu sempre diga
que tu não és ruim.

Quem é ruim
sou eu
que te deixei esqueceres-te
de mim

Geraldes de Carvalho

Domingo, Março 22, 2009

A quase tragédia da Alegria
             -ode-



Quando o meu coração se enche de amor
a alegria extravasa pelos meus olhos.
Arreganha-me os lábios
até ao céu.
Enche de sons a minha garganta.
O meu peito rebrilha, como uma estrela.
As minhas pernas saltam.
Os meus pés dançam
e eu me extasio .

Discretamente caminho pelas ruas
fazendo um enorme esforço
para não disparar .
O meu céu fica cheio de pássaros cantantes .
As minhas árvores cheias de frutos suculentos
e para cada folha há uma flor.

Serão elas as que eu ouço cantar ?

As pessoas reparam em mim com olhar prazenteiro .
Alguns desconhecidos chegam mesmo a cumprimentar-me.
As crianças brincam comigo seus jogos esfuziantes .
Os velhos oferecem-me os seus últimos sorrisos .
As mulheres ... ó as mulheres as mulheres...

A quem é que eu devo dar o meu amor ?
Meu coração está cheiinho a rebentar.

Aonde estás tu aquela que eu sonhei amar ?
Como penteias os teus cabelos ?
Como é o teu sorriso ?
O que pensas ?
O que sonhas, tu ?
Como caminhas ?

Por que me não ouves ?
Porquê ?

Será que até a minha alegria
terá de ser mesclada de tristeza
quando o meu coração se enche de amor ?

Geraldes de Carvalho
Quase

E foi então que
quando a tua boca se aproximava
me esqueci de ti
-de quanto queria
beijá-la-.

Quando a tua mão se estendia
me esqueci de que sentia
-de quanto queria apertá-la-.

Quando os nossos olhares se cruzaram
me esqueci
de que sabia olhar
-de quanto queria abraçá-los
e afundar-me neles-.

Quando a palavra soou
me esqueci
de que sabia ouvi-la
-de quanto queria guardá-la
e cantá-la também-.

Por que será meu amor
que quase quero
quase te quero
quase te abraço
e te beijo
quase te ouço
e te vejo
quase te guardo
e te amo
meu amor!

Geraldes de Carvalho

Sexta-feira, Julho 25, 2008

...é luz

Você responde como se fosse carne, mas é luz.
E a luz não se esgota quando a pensamos. Ela dá mil voltas ao universo e continua luz. Assim todo o universo será um dia luz. Nesse dia os sonhos serão a realidade e nós nos sentiremos grandes perante ela. Porque ela seremos nós.
E que será então feito das palavras? Ó as palavras se extinguirão porque elas não conhecem a luz. Persistirá apenas a Palavra . Não a de qualquer deus mas a nossa, depurada pela luz, feita luz.
E como será a poesia então ? A poesia seremos todos nós porque a nossa vida será um cântico perpétuo.
E vem longe, essa tua visão ?
Não. Perto. Não mais do que um milhão dos teus anos . Será apenas um sonho. Podes vivê-lo numa só noite.

Geraldes de Carvalho



Peço muita desculpa mas retirei todas as fotografias iniciais porque produziam a ilusão de que nada fora publicado depois delas .
E se bem que seja verdade que nada do que foi publicado vale mais do que elas a verdade é que o que foi publicado precisa por isso mesmo mais do blog do que elas.
Entenderam ? Eu não...

Domingo, Janeiro 27, 2008






A edium tem o prazer de anunciar a edição da Antologia Poética 2008, Amante das Leituras, para o próximo dia 31 de Maio.
Este ano, a Antologia contará com as participações dos seguintes autores:
Alexandra Oliveira, Ana Maria Costa, Carlos Alberto Roldán (Argentina), Carlos Luanda, Denilson Neves (Brasil), Geraldes de Carvalho, Jorge Vicente, José-Augusto de Carvalho, José Dias Egipto, José Gil, Manuel C. Amor, Maria João Oliveira, Maria Rita Romão, Mónica Correia, Paulo Themudo, Samuel Gomes, Túlio Henrique Pereira (Brasil) e Vera Carvalho






Sou eu, sou eu...
( 3ª ou 4ª correcção)

Sou eu
o anjo ou o demónio
ou a serpente
que a Eva ofereceu
o fruto da ciência
e, por isso,

 ou outra coisa igual,

o tal deus
me
castigar.


-E não é erro não

porque deus não tem tempo

e é, por isso

o verbo inconjugado

no infinito eterno...-

 
Que homem, esse deus!
Certamente queria

ficar com todo o saber
para vos manobrar
como, se ,lhe apetecer.

 


E também
me é difícil entender
porque é que o tal deus

me castigou 

se conhecia

que o homem
apenas mastigou
o fruto que, de verde, mal sabia

-e, se bem bonito parecia

era, afinal bichado-
e o cuspiu no rosto da mulher.



-Pobre mulher cuspida
por dar a maçã e a vida-

Apenas engoliu,
o homem bruto,
um pouco desse sumo
que lhe ficou na boca
da maçã mastigada
que nascera na árvore
mal formada

desse mundo
que o tal deus criara.


E o pior foi que com esse sumo

ainda engoliu

- e é com isso que me nutro-

o bicho que ali vivia

e a viver continuou

lá -cá- dentro

do homem bruto.


E foi assim, posso afirmar

que foi criado o mundo

para o homem habitar


Mundo horroroso enfim
em que todos os animais
se comem uns aos outros
e também a mim
assim, assim...

Geraldes de Carvalho

PS.
Melhor fora, talvez
que a deus comessem
e acabassem
com a criação
de vez.

gdec





Lá longe

Estamos aqui tão longe
tão quentinhos.
Nem ouvimos as bombas
os morteiros
os gritos
os urros
os lamentos
os estertores.
Poderemos achar
que uns têm razão
e os outros não.
E o que é bom
é nós podermos
saborear
e engolir mesmo
a nossa poesia
com palavras bonitas
e difíceis
plenas de fantasia
sem horrores
que credo !
Jesus !
são lá longe
tão longe...
bem longe...
lá longe.

Geraldes de Carvalho


Queria dormir para sonhar
(melhorado)



Queria dormir para sonhar
que isto não aconteceu .

Que não foste tu
quem me não amou não


Não foi o meu vizinho
nem foi o meu amigo
nem foi o meu irmão.

Nâo foi o meu parente

nem este

nem aquele
qualquer,

nem o outro
que é homem

ou a outra
mulher.

Que não foi nenhum de vós
quem me não, não amou .

Nenhum deles, ó céus !

Foi o que vivi eu
enquanto não sonhava
que isto
não
aconteceu.

Geraldes de Carvalho







...é velho




Meu coração é velho . 

Não como são velhas as coisas e mesmo as ideias mas como são velhos os sentimentos, as sensações.

Ele é velho.

Às vezes custa-me bastante carregá-lo porque ele pende de todos os lados, escorre e fica-se pelos caminhos .
É preciso voltar para trás, apanhá-lo, aconchegá-lo, moldá-lo naquela forma que é característica, só dele, coração .

Ele não chora, não sussurra, não pede. Grita, exige como se fora novo, como se fosse novo . Mas

é velho, muito velho.

Meu pobre coração é velho.

Meu coração não cabe dentro de mim . Extravasa para ti, por ti, para o outro para a outra para toda a gente. Tu não o queres, eu sei, mas ele extravasa e

é velho.

Meu coração estranha-se de ti em ti e entranha-se também em ti e estranha-se nele mesmo como nele mesmo se entranha.

Onde estarás tu, meu coração?

Meu coração é velho.

Perdi-te nos labirintos do meu não ser, coração.

Quem te encontrará, meu coração ? Quem perscrutará os arcanos do seu sentimento em busca de ti, meu coração ?

Sendo grande como é
meu coração
cabe bem
na palma da minha mão

mas é velho.


02-12-08
Geraldes de Carvalho






Vem, ó vem 



Vem, vem, vem

minha senhora poesia.

Vem

estou aqui

nu

pronto para te receber

e celebrar contigo

os secretos mistérios

da desencarnação.

Vem, vem

minha querida

ninguém perturbará

os sonhos

que são nossos

e temos de sonhar.

Vem vem

dormir

nos meus braços

ouvir o doce acalanto

que desde o princípio do tempo

te estou a sussurrar,

no vento.

Vem

meu amor

meu coração te espera

com doces palpitações

que se ouvem

em todo o universo,

cá perto

lá longe.

Quero sentir-te

aqui

junto do peito

aninhada

como se fosses

a lobazinha

que é minha

porque me está destinada.

Vem e toma-me

sou teu

já não sou meu

já não sou eu.


Geraldes de Carvalho
(de 48 poemas de muito amor e pouca futilidade)












Aos que não entendo


Ó como gostaria entender-te, meu bom amigo
descobrir nas tuas palavras um sentido lógico
ou, pelo menos, discernível
que me revelasse um pouquinho do teu pensamento
e também, se possível , dos teus sonhos .
Não ficar a olhar para elas como um tolo ignorante
de boca aberta.
Descobrir o teu sentido da vida
dessa vida que só posso imaginar
que será como um palácio do Sec. XVIII
e próxima dos deuses que habitam na tua mente,

suponho eu .

Mas não
não consigo senão ler um amontoado de palavras
que na maior parte das vezes nem rimam com a música que ouço no universo
e muito menos me dizem o que quer que seja que se passa nas tuas ruas
e ainda menos o que late no teu coração
o qual, no entanto, me parece sincero
e morto por dizer qualquer coisa que eu entenda.
Um coração que apesar de não o entender
me apetece acariciar
porque suspeito que é bom e honesto
e cheio de compreensão por um homem como eu
que não sabe exprimir-se sem se dar a conhecer.

Ficaremos condenados meu amigo,
meu bom amigo,
a passarmos um ao lado do outro
como se não pertencêssemos à mesma espécie
como um burro que sou eu
ao lado do homem que tu és
fazendo o favor de não me cavalgar
e mostrando-me mesmo um sorriso que é bom
e amistoso,

eu suponho.

Geraldes de Carvalho






Soneto -que não cheguei a escrever-



Hoje vou escrever um bom soneto

uma bandeira contra a obscuridade

soneto onde lampeje a claridade

nas coisas que sabemos em secreto.



Um soneto em que só diga a verdade

desta mentira a que me não submeto.

Um soneto que seja tímido e discreto

mas que se ouça bem alto na cidade.



Mas, meu amor, para escrever assim

seria necessário -ó meu amor-

que eu fosse O que não quero acreditar.



Sou apenas poeta e sou, enfim

que o meu amor e os céus, maior,

maior que deus, igual ao meu sonhar.


Geraldes de Carvalho






perdi meu eu

(poema em obras)


Meu  eu

já não é meu

meu eu

morreu.


Agora o que é que sou ?

Não sei.

Talvez seja 

o que ficou

do que foi

e morreu...



Meu eu

não choraremos, não

viveremos assim

como se nunca

o tivéssemos conhecido

pois então.



Ele não nos amava

-pobre de mim-

Às vezes arremedava

gostar de nós

é bem verdade


Era um intrometido

disfarçado

de amigo

mas quando lhe cheirava 

a esturro

olhava outro lado

como se não

nos conhecesse

e era tudo.



Ora assim não importa,

ora assim não interessa,

vá bater a outra porta

que está fechada,

esta.



Bem sei

que fiquei pobre

eu

mas que hei-de fazer

É bem melhor

ser pobre

do que viver emprestado

com o que é nosso

mas nunca nos foi dado.



E se alguém nos olhar

nos nossos olhos

saiba, de vez,

que não estão a chorar



embora lhes apeteça



...talvez.


Geraldes de Carvalho



...amarelou
ou
o outro canto do cisne

O cisne quando cantou
amarelou.

Ele sabia que era
um cisne
e não podia cantar
por isso teve de amarelar
para se disfarçar.

Cantava assim :
Quem me dera não ser cisne
negro ou branco
não queria...

Sei que sou belo é verdade
mas não canto
nem parece que sou ave
esta é a realidade.

Posso pensar
já se sabe
mas pensar
não é próprio
de mim
que sou ave
assim, assim
mas não canto...

Posso exibir
meu pescoço
longo
flexível
esguio
próprio de deusa
...e cantar

mas não canto.

Seria bom existir

mesmo no fundo do poço
sem que ninguém o soubesse
se eu ali pudesse estar
a cantar

-cantava ele
sem que, porém, o soubesse-.

E amarelou
sem saber que amarelava.

E pensou
mas não sabia
que pensava.

Era cisne
e lhe bastava.

Mas como não parecia
e tinha uma graça tanta
espantava
e encantava
quem o via
quem o ouvia.

Será que ainda hoje espanta?

Será que ainda hoje encanta?

Geraldes de Carvalho




Espasmo ôntico

Como um tal
meu pensamento tremula
quase desmaia
e eu no meio
ali sem nada saber.

Ó, quem dera não o ter!

Melhor fora
ser saudável
e gostar do futebol
ir às festas e bailar

que, como um louco, pensar

em coisas que nem eu sei
me deixam assim parado
como doente espasmado
a pensar se existo ou não

se sou homem se sou cão.

Cão eu deveria ser
gosto dos ossos que tem
meu pensamento
meus dentes são fortes são
cadelinhas são meu fito...

Cadelinhas são meu rito.

Podem os homens morrer
nas guerras que organizam
e as crianças padecer
cheias de fome nas pontes
-quando há rio...-

Eu cá por mim não me importo
enquanto estou a sofrer
enquanto estou a gozar
como um bônzio

neste meu espasmo ôntico.

Que merda, ein!

Geraldes de Carvalho
(de quarenta e tantos poemas de muito amor...Jul./08)



Vento verde. Assim,assim...


Perguntam se há vento verde...
O tenho dentro de mim.

Vento verde é desespero
de viver sem ti.
Vento verde é amargura
de ter-te a ti
mas não ter-te
dentro de mim.
Vento verde é esperança
de um dia chegar-me a ti
dizer-te
te quero muito.
-Tu não me queres a mim-

Vento verde, verde vento
porque não mudas de cor ?
Só se fosses amarelo
é que serias pior.

Se fosses branco
meu vento
podia passar por ti
e nem te ver
e no entanto
te ter
escondido
aqui,
aqui.

Vento azul
vento no ar
vento azul não quero não
não me apetece voar
-também não sei
é de ver.

Vento negro
é o que corre
não dentro mas sobre mim
vai-te embora vento preto
não te quero a ti, aqui.

O vento vermelho é luz
e para a ter
a gente vai a voar
de encontro a ela
e quando está a chegar
apaga-se
ficamos cegos
no ar...
Vento vermelho não quero
tenho muito que aprender
para o poder
ter.

Vento magenta
é carmim
é o que quero
mas não
não gosta de mim.
Não julguem que é porque rima
porque é mesmo assim
assim.

Vejamos
que outra cor há
que o vento possa ter ?

Cor de burro?
pode ser.
É cor de menino infante
como sou
ou gostaria ...
Mas cor de burro não quero
é burra
e eu sou esperto
ou era
quando menino...
agora não posso ser
penso demais
aí está.
Quem demais pensa
embrutece
é claro.
E se for o vento
motivo do pensamento
emburrece
e voa, aboa
não vai parar a Lisboa.
-Mas se fosse?-

Que pena que o vento verde
não mude de cor e assim
não mude
não mude
a mim
Assim, assim...
assim, assim...

Geraldes de Carvalho


Será ?


Platão, meu sábio amigo
meu velho companheiro velho,
senta-te aqui
ao pé de mim
e responde-me só
a uma pergunta
que é simples
para ti :

Agora,
neste tempo
nesta hora
em que a tua caverna
cresceu até à lua ,
...e um tanto para lá .
Agora, que as sombras que vislumbraste,
e vislumbrar podemos,
estão para além dos confins impossíveis do universo
aonde não nos perdemos,
não vestem de preto e branco
mas desfilam vaidosas,
preciosas,
caprichosas
enfeitadas
com todas as cores do photoschop
e parecem,
como aparecem,
quando aparecem
estrelas, quasares
planetas , nebulosas e buracos negros...

Será que ainda acreditas
que é tudo fantasia
e que a verdadeira realidade
está dentro da tua cabeça,
que é necessário abrir
com o martelo da instrução elaborada
para aí a descobrir
maravilhosa
mas, também ela
-digo eu, ó meu!-
fantástica
fantasiosa .

Será , Platão

...ou não ?

Geraldes de Carvalho
(de 42 poemas de muito amor e pouca futilidade)




Eu escrevo cão...

Eu escrevo cão
ele mia
se escrevo gato ladra
já se sabe.
Nada é como pensei
Mesmo eu sou
um tanto desencontrado
porque se quero sonhar
penso nisso
e no pensar
lá se vai o meu sonhar
Se pensar é o que quero
já sei ponho-me a sonhar
e no sonhar
não penso nada que preste
lá se vai o meu pensar.
Mas construo um outro mundo
que não vos posso mostrar.
Mesmo se quero dormir
penso como deve ser
dormir é bom,
deve ser,
porém dormir não consigo
fico acordado, é de ver.
Também quando quero amar
não sei a quem
mas amo quando não quero
amo
mesmo que não tenha
ninguém.
Para amar eu não preciso
de ter um outrem a quem
- podemos mesmo amar-Nos
ainda que não seja bem-
...ou será?
Mas amar quando não quero...
e quando te tenho a ti
é uma mania chinfrim
digo assim
assim...assim.
Geraldes de Carvalho
(de 40 ou 41 poemas de muito amor e bastante promiscuidade)



Está tudo louco. Assim, assim...
Saí agora
do estaminet
- que palavrão
congeminei -
e encontrei
o mundo louco
Pois é :
Minha mulher
já não tem boca
para eu beijar
ela está louca.
Pode não estar?
E as loucas pedras
do em..empedrado
põem-se em frente
de mim, coitado.
Os transeuntes
trocam os passos
trocam os pés
trocam as pernas
e cada um
vai com as dos outros.
- estão todos loucos -
Minhas palavras
já não se entendem
umas co...com as outras...
Só me apetece
mais um copinho
mas vinho é, é... louco
e louco é, é... vinho.
E até a lua
ó minha mã...mã e
julgo que está
louca também.
Estava ao sul
ali ao fundo
daquele paul
-lin...linda palavra
aquela ao sul -
Estava ao norte
ali no cimo
daquele porte
...porta.
Aonde está?
Está louca, sim
mas para mim
já tanto dá
já tanto importe
...importa.
Olho para ela
não posso olhar
seu brilho louco
vai-me cegar
E te encontrei
a...migo meu
anda práqui
que pago eu.
Mas quem és tu
a...migo meu
não te conheço
serás um louco
que me encontrou?
Loucos não quero
ao pé de mim
foge. Ttrim-trim
É a sirene
não toca bem
creio que está
louca também
Vem-me buscar
a ambulância
toca trim- trim
assim, assim...
Geraldes de...de...Carvalho
( de quarenta –ou coisa assim- poemas de muito amor e pouca promiscuidade )


peixe no poço

Lá no meu poço
havia havia
um peixe obscuro
que não mexia.
E tão obscuro
era esse peixe
que parecia...
Que parecia
nem peixe ser
até que um dia
senti mexer.
Peixe tão belo
não pode haver.
Queria vê-lo.
Fui lá ao fundo
do poço meu
mas nenhum peixe
apareceu.
Ó, onde estás
meu peixe amado ?
quero-te aqui
bem a meu lado.
E o peixe disse
-isso ouvi eu-:
Também a mim
me pareceu
que havia um homem
aí no céu.
E fui lá ver
mas nenhum homem
apareceu
Voltei aqui...
Homem é sonho
no mundo meu.
Geraldes de Carvalho
Ps.:
Se fosses peixe
bem te comia
mas tu és sonho
que eu bem sabia,
respondi eu.
Geraldes de Carvalho
(de quase quarenta poemas de amor e alguma fantasia)


Aves,aves,aves

Aves azuis
que mal se vêem
no céu azul
são minhas marcas de ser.
Vermelhas fossem
era melhor.
E se eu me alegro
as minhas aves
mudam de cor
Voam rasteiro
pousam em mim
de que cor são?
Se me entristeço,
aves que são,
bicam-me aqui
no coração.
Por isso voo
ao fim do mundo
bicando aqui
bicando ali
com bico agudo
pois ave sou
do coração.
Mesmo ave sendo
medo lhes tenho
se são escuras
e barulhentas
como são, são.
Geraldes de Carvalho
(de trinta e nove -ou coisa assim- poemas de muito amor e pouca promiscuidade)


Assim, assim...

Meu louco pensamento
cresce cresce e arrebenta.
Espalha esporos
dos limítrofes para o centro.
Esporos que hão-de germinar
e gerar
mais pensamento
até me sufocar,
me afogar.
Poetisa
vem até mim
por favor
a cantar
velhíssimas romanças.
Fala-me brando
diz-me que sou o teu amor
para que eu possa adormecer
e por fim
nada mais ser
e nada mais
pensar
assim, assim.
Geraldes de Carvalho



Aonde estás, ó ar


Dentro de casa
não posso estar
preciso de ar.

Saí para a rua
mas não achei
caminho meu

Cá nesta rua
há muita gente
anda despida
é indecente.

E mesmo eu
estou sem chapéu
estou sem gravata

por isso estou
aqui sentado
envergonhado.

Vesti gravata
pus um chapéu
já não sou eu.

Pus-me a andar
e a respirar
isto é bem giro
ó pistotiro.

Ó pistotiro
grabato eu
o eu que eu fui
está no céu.

Vim num andor
recomendado
pelo prior.

Encontrei deus
que foi eleito
pelos seus

disse sou bom
eu não achei
e desandei

-O eu que fui
não me obriguem
a repetir
porque não rima-

Disse-lhe adeus
ao deus dos céus.

Precisei de ir
lá à privada
mas estava toda
emporcalhada.

Ó quem me dera
em casa estar
mas não me encontro
tenho só ar.
Ar não me falta
só falto eu.
Quem me perdeu ?

geraldes de carvalho






...não me comas

Não, não me comas
olhos de lua
essa é a minha alma
não é a tua.

Se me quiseres
fica emprestada
por três mil beijos
é quase dada .

Quando eu quiser
estás avisada
das-ma de volta
mas bem beijada.

Geraldes de Carvalho
de 33 ou 34 poemas de muito amor e pouca trivialidade




Assim, assim...-5

Ó terra

minha mãe
minha irmã
minha vida
minha amada
minha tudo
e nada
porque nada sou
porque não sou nada.

E porém
o nada de que sou
construido
é tudo à minha volta
e faz sentido.


Terra,
terra castanha escura
dos meus terrores
e verde ou amarela dos meus sonhos
e negra dos meus outros sonhos
de todas as cores.

Como me esqueço de ti
como me esqueço de mim.
Porque me esqueço de ti?
Porque me esqueço de mim.

De ti nasci
A ti beijei
e abracei
e engoli
até que em ti fiquei
até que tu ficaste
em mim.

Por isso é que te esqueço
por isso te esqueci.
assim, assim
assim, assim...



Geraldes de Carvalho


27-03-08

O nosso amor não é...não



O nosso amor não é como o sonhamos, não
nos arroja no chão.

O nosso amor não nos permite o céu
ele é o inferno, teu
e meu.

O nosso amor não nos dá paz
a guerra, é o que traz.

O nosso amor não é para cantar
é para gritar

de dor.
Assim é nosso amor.

O nosso amor à noite se serena.
Às vezes
ó por vezes,
muitas vezes,
a noite é tão pequena !

O nosso amor não nos deixa esquecer
o que não queremos ser
mas somos porque somos
somos, fomos, somos.

Por vezes, meu amor
não te conheço
nem te reconheço.

E no entanto amor
ó meu amor
meu amor,
meu amor
meu amor...

Diz-me quem sou
porque sem ti não sou.

Ensina o meu falar

Mostra-me como é olhar

Guia as minhas mãos

Afina o meu gostar

Aprende-me e ensina-me
a ouvir

Apura o meu cheirar

Mostra-me como é andar



Porque sem ti
não sou,
não estou
aqui,

nem quero
estar.

Geraldes de Carvalho



M E T A M O R F O S E









METAMORFOSE
DE MIM -com a câmara do computador
PARA MIM -com a ajuda do Grafhic Converter


Geraldes de Carvalho




Ó GENTE DA MINHA TERRA
- ASSIM, ASSIM...-
ou
UM PÉ NA PATA OUTRO NA POÇA



“Ó gente da minha terra
agora é que eu percebi”
que quem te cantava assim
pouco sabia de ti.

cantava porque soava,
e acompanhava,
o tlim-tlim .

Minha terra, minha terra
quem te conhece
hoje
a ti ?

Quem sabe das tuas gentes
que sofrem nos lodaçais
-ainda que não chova agora
parece que nunca mais-
e que apesar disso cantam
para não sofrerem mais .

-ora, ora...-

Quem sabe das tuas gentes
nunca chega a perceber
porque é que as tuas gentes
nunca param de sofrer

- não sofreríamos nós mais(?)
-se soubéssemos sofrer...-


Mulheres vestem casacos
de cambraia
e amam os aventais
mas por debaixo da saia
rodada ,
nada, nada têm mais.

E há quem diga que são lindas
assim...

Dançam de braços no ar
sorriem como quem tem
mas quem as conhece bem
sabe que vão a chorar

-porque já não têm mais...-

Não têm nada de seu
salvo sejam os seus filhos
que trazem como empecilhos
pendurados nos seus peitos

E há quem diga que são lindas
assim...

-E há quem diga que são jeitos...-

Vão aos superes comprar
compram o que não precisam
e que não podem pagar
pagam com cartão bancário
com os juros a dobrar,
juros que nós pagaremos
a somar...com o capital

-Ó bancos da minha terra
só agora percebi
como se ganha dinheiro
e nada parece mal .-

Quem é que nos manda a nós
-quem é que te manda a ti-
termos o que elas não têm ?

Bem sabem elas que a gente
tem o que não pode ter

Sofrem elas (?), indecente(!)
nós devíamos sofrer ...

-digo isto, mas não ouvi -.

E os homens?
Ó os homens são iguais
se não são ainda mais

Ó gente da minha terra
só agora percebi
como acabava a cantiga
que ela cantava
assim, assim...

Geraldes de Carvalho

...ou talvez a gente dela
ou talvez a terra dela
não seja a mesma de mim
E por ela, a gente dela,
e por ela, a terra dela,
canta ela,
chora ela
assim assim...

Geraldes de Carvalho




13-02-08
Simples lírica -

I
À beira da tua porta
há um assento de pedra
onde de noite me assento
à tua espera.
Mas se dentro, em tua casa
sinto falar ou bulir,
finjo estar adormecido
para não ter de fugir.



II

Sob o reverde cintilar
das árvores azuis
na manhã clara,
meu límpido olhar
de boas intenções
sabiamente isento,
nem olha nem não olha,
apenas olha
soberbas sombras
que, só de olhar, desdenha...

Geraldes de Carvalho
de "novos e velhos cantos" Évora 2006


Post. em 01-02-08 : Tenho a certeza que V.mcês não suportam a prosa abaixo -prosa, abaixo!- . Eu também não . Tenho a certeza -estas minhas certezas!- de que gostarão muito mais destes versos da minha juventude :


O segundo cântico da humilhação


De borco , caído
no chão da agonia,
a pó que eu mordia
que bem me sabia
a pó da agonia.

Chamei-te; chamava:
Maria! Maria!
Ninguém acordava
na noite
que ouvia
espantada.
Chamei-te; vieste
na pó que eu mordia
quando abria a boca ...

Que bem me sabia
o pó da agonia!

Deitei-me de costas
para ver se dormia.
Pela madrugada
o pó me cobria,
o pó me tragava,
o pó me mordia!

Chamei-te; chamava:
Maria! Maria!
O mundo acordava
ninguém se detia.
Chamei-te; vieste
no pó que eu vestia ...

Que bem que eu sabia
ao pó da agonia!


Geraldes de Carvalho
de "Sombras de Alma" Coimbra 1955




Post. em 28-01-08 :

Do conhecimento... - I -



A análise dispersa o nosso conhecimento no afã de o estender, de conhecer mais, de conhecer até ao fim; dispersa-nos. A síntese pelo contrário reúne-nos porque tomamos as pontas do conhecimento e as amassamos fazendo dele uma bola de concretude.
O problema é que para conseguirmos a síntese - a segunda, a final - temos de nos arriscar na análise para criar as pontas, a massa da amassadura em que, as mais das vezes, nos perdemos: Por causa disso a vida, a vida do pensamento é uma aventura tão perigosa.
E é por essa razão que muitas vezes, por preguiça e por medo, preferimos ficar na síntese inicial ou dispersos, na análise.
Há assim três tipos de pessoas :
As superficiais que tratam as primeiras sínteses, as meras percepções dos sentidos, como se fossem a realidade e as combinam em sínteses complexas afastando-se cada vez mais da verdadeira realidade . Aqueles que param na análise e combinam as pontas da realidade criando cada vez mais pontas em que, finalmente, se perdem e finalmente os que fazem as sínteses finais chegam ao conhecimento real o qual, porém, gera um conhecimento contraditório que precisa de ser superado por um novo processo de síntese análise e síntese, indefinidamente.
É claro que nenhum destes tipos de pessoas existe efectivamente. Existem apenas como possibilidades de ser. Se a percepção é simples podemos fazer a análise e a síntese final sem dar por isso . Se é um pouco mais complexa podemos parar na análise convencidos de que chegamos ao fim do processo do conhecimento. Mas, por vezes, já a sensação é tão complexa que, só ela, nos cansa e não nos animamos a ir mais longe.
O que distingue as pessoas é que algumas são capazes de passar à análise num caso em que outras se ficam pela primeira síntese e outras são capazes, por vezes, de ir até ao fim nos casos em que outras se ficam pela análise ou mesmo pela primeira síntese. Poucos são aqueles que ousam tentar ultrapassar as contradições até porque para isso precisam de voltar àquilo que parece ser o princípio se não se tiver um olho arguto capaz de perceber que esse princípio está num plano superior .

Que chatice ein ! Será que serei capaz de passar à análise...(?)

Geraldes de Carvalho



Do conhecimento - II -


Temo que tenham ficado com uma ideia errada -simplista, logo errada- sobre a maneira como concebo a génese do pensamento.
Na verdade expressei-me muito mal dando a impressão que penso que o pensamento é uma actividade individualista e que há “pessoas” que são capazes de levar o pensamento mais longe do que outras. E outras que são mesmo capazes de o levar até ao fim.
Isto pode ter sido verdadeiro até ao séc. 17 ou 18 mas, entretanto, deixou pouco a pouco de sê-lo -verdadeiro-.
O conhecimento é hoje uma actividade colectiva de maneira que sobre um determinado assunto -o pensamento, por ex. - alguns sábios -chamemos-lhe assim- formulam apenas as sínteses iniciais -ou seja dizem coisas- que depois os outros pegam -ou não- e analisam exaustivamente, análises que outras pessoas pegam, ou não, dedicando-se a construir as sínteses finais depois de se desfazerem da muita tralha em que a análise vem quase sempre envolvida.
E é claro que a ganga que inquina o conhecimento aparece muitas vezes logo na primeira síntese que pode revelar-se completamente imprópria para qualquer análise ou na síntese final que pode ser absolutamente não exigida pela análise. Acontece também que por vezes estes erros se revelam, mais tarde, ser falsos erros, erros que só foram entendidos como tais devido ao facto de um incompetente raciocínio ou de um raciocínio inquinado pelas incompletudes do conhecimento. Daí que se retomem muitas primeiras sínteses, análises e sínteses finais, antes indevidamente abandonadas algumas vezes por canhestrice -a palavra não existe mas gosto dela- outra vezes porque teve mesmo de ser assim.
Não falta por isso quem diga que a ciência é o estudo dos erros do processo de conhecer.
Algumas vezes os cientistas, filósofos e epistemólogos têm consciência da impossibilidade de se dedicarem ao estudo da realidade por completo principalmente quando trabalham em conjunto -num instituto científico ou filosófico ou lá o que seja. Outra vezes porém não se apercebem do fenómeno e tentam efectivamente realizar todo o processo o que na verdade só os faz perder tempo porque resulta muita coisa inútil ou já sabida, daquilo que tentam fazer .
E isto passou a ser assim devido à extensão desmedida do conhecimento e às relações estreitas que há entre um conhecimento e todos os outros de maneira que se chega à conclusão de que existe um conhecimento só, que ninguém consegue abarcar . O processo complica-se ainda mais para aqueles que conseguem ver as contradições que resultam das sínteses “finais” formulando assim novas primeiras sínteses que necessitarão de novas análises etc, etc.
É claro que actualmente já se não formulam as primeiras primeiríssimas sínteses porque o pensamento é uno não só em extensão mas também em profundidade, quero dizer -e não sei se digo- ao longo do tempo e dos tempos.
É também claríssimo que há sectores do pensamento que avançam mais rapidamente do que outros e por isso acontece muitas vezes que é preciso refazer esses sectores do conhecimento que avançaram sem atender às ligações necessárias com outros sectores como acima já dei a entender.
No entanto, desses sectores que é necessário deitar fora, fica sempre alguma coisa ; pelo menos a boa vontade dos que neles trabalharam.
É o que espero que fique deste meu esforço...

Geraldes de Carvalho




do conhecimento –III- ...e da realidade




Como se sabe- quem sabe- Sócrates, ou Platão por ele, ou ambos os dois -o tipo que 
inventou o pleonasmo não tinha a mínima sensibilidade literária- acreditavam na 
reencarnação -ou se quiserem, mais bonito, na metempsicose . Por isso é que o seu -de 
Sócrates - tipo de ensino consistia na ajuda ao parto de antigos saberes - e não julguem 
que eu não conheço o termo maiêutica : sei muito mais do que vós imaginais, ainda que 
não tanto como Vosmeçês, é claro.

Na verdade eles, com a cabeça cheia das estórias dos deuses, mal podiam acreditar que se 
pudesse avançar na ciência das coisas senão através de meios tão maravilhosos como elas 
- as estórias dos antigos deuses . Não podiam acreditar que a realidade estivesse mesmo 
em frente dos seus olhos. Essa realidade parecia-lhes demasiado mesquinha comparada 
com as histórias dos seus deuses . 
E tinham razão porque a realidade era demasiadamente mesquinha. E porquê ?

Porque eles não inventaram o microscópio para ver o infinitamente pequeno nem o 
telescópico para ver o infinitamente grande. E por que é que não inventaram, eles que 
eram tão infinitamente -gostei da palavra- dados à meditação ? Pois porque tinham a 
escravatura.

É preciso dizer aqui que a escravatura começou por ser uma boa coisa. No princípio dos 
princípios -do homem- quando duas tribos -chamemos-lhes assim à falta de melhor - 
também lhes podíamos chamar bandos -o que não sei se melhor seria- se encontravam, 
não se reconheciam como pertencentes à mesma espécie e por isso a vencedora eliminava 
a vencida e comi-a.
 Ai aconteceu que um génio -que abundavam muito naqueles tempos- percebeu que afinal 
eles -os vencidos-seriam capazes de trabalhar para os vencedores e passaram a capturá-
los para o efeito .Esta escravatura era portanto boa de acordo com os nossos valores 
actuais porque substituía a morte pela vida. 
Foi um belo progresso.

Nessa altura ainda não teriam percebido que os vencidos também eram homens - porque 
afinal eles já domesticava -agora estou a inventar - alguns animais para trabalhar para 
eles. De qualquer maneira eles descobriram a humanidade dos cativos quando estes 
aprenderam a sua -dos vencedores - linguagem . 
Só que, quando descobriram que os escravos também eram homens já tinham gozado 
muito os nefandos prazeres de terem quem trabalhasse para eles e não abandonaram a 
escravatura e isso foi uma autentica calamidade para o processo do conhecimento. E 
porquê ? 

Porque os homens que trabalhavam com o cérebro não eram os mesmos que trabalhavam 
com as mãos. Aí as mãos zangaram-se -porque tinham sido feitas pelo seu amigo 
cérebro e o cérebro zangou-se porque havia sido feito pelas suas amigas mãos. 
As mãos fizeram as guerras, de que as actuais são filhas directas -ou, podemos mesmo 
dizer, dilectas- e o cérebro...sem as mãos, deixou de inventar o microscópio e o 
telescópio... e passou a trabalhar no vago e no vácuo com a habilidade que lhe é própria e 
inventou a metafísica. -Espero que não tomem demasiado à letra estas minhas 
parábolas...- .

Ora quando alguns homens perceberam isto -a ratoeira em que havia caído o 
conhecimento- começaram a utilizar o cérebro e as mãos e as mãos e o cérebro e 
inventaram o microscópio e o telescópio. Descobriram então que a realidade era tão 
maravilhosa como o mundo dos deuses, começaram a abandonar estes e a olhar cá para 
baixo e lá para cima -para os astros- e começaram-apenas começaram- a ver que afinal 
o conhecimento seguia a mesma via da realidade. Também a realidade é, ao princípio, a 
primeira síntese do que nos parece que é. Deve ser sujeita a uma análise que nos mostra 
que afinal as coisas são bastante diferentes e por fim a uma segunda síntese que acaba 
por nos mostrar que a realidade já não é o que era, precisa de um segunda análise e 
assim sucessivamente.
Não quero que fiquem a pensar que penso nestas coisas como se elas acontecessem 
cronologicamente. Mesmo na antiga Grécia já nasceu Heráclito -gosto mais da palavra 
esdrúxula - só que não vingou, imediatamente pelo menos - porque o terreno não lhe era propício .
Ó caraças, já estou cansado.
Vossas mercês -meus queridos dois leitores- também...suponho.

Geraldes de Carvalho

28-01-07

Quarta-feira, Janeiro 16, 2008

Mulheres e outras coisas da vida


Existe aí
numa daquelas casas particulares
muito decentes
onde só se é admitido por apresentação
como na alta sociedade,
existe uma rapariga meiga e boa.
Posso dizer-vos que é meiga e pudica
e não gosta que olhem para ela enquanto se despe
repreendendo-nos mansamente, assim:
Também não podias deixar de olhar ?
com um sorriso nos olhos
que é uma plena entrega antecipada.
Olhos pestanudos, de vaca
como diria o velho Homero
que deus haja...
E eu sou amigo dela e confidente
travesseiro aonde vou chorar
meus sonhos e amores destroçados.
E dela ouço aquela velhinha estória
do pai capitão e desumano
que a pôs fora de casa
só porque ela teve uma fraqueza
- que me perdoem os senhores capitães
mas ela disse mesmo que era filha de um capitão
e acrescentou o pormenor de reformado-.
Ouço dela essa velhinha estória
que contam todas as raparigas meigas e boas
e acredito-a, sim senhor.
Pois não havia de acreditar
se ela me a conta
com lágrimas nos olhos
pestanudos, de vaca?
Pode ser que o pai não fosse bem capitão
ou apenas lhe chamassem assim
lá na terra,
mas que tem isso de essencial?
E não será a minha estória igualzinha
à de tantos rapazes tristes
como eu
que lhe têm passado pela cama?
Além de que ela não se queixa
do pai desumano e capitão
nem do malandro que a desonrou
quando ainda era uma criança .
Não, conta-me só aquilo por contar
só para me poder dizer, deixa lá isso
quando eu fico sentado na cama de pernas a abanar...
E fico sempre assim após...após.
“Deixa lá isso”
E escrevem-se tratados de filosofia,
longos tratados e aborrecidos
quando existe uma frase como esta
dita por uma rapariga meiga...
E eu deixo aquilo deixo.
E quando venho embora
já sei, são cinquenta escudos.
É carinho é mas se eu der cinquenta e cinco
apanho mais um beijo.


Geraldes de Carvalho

em “a outra luta de Jacob” - Beira-Moçambique 1964

Domingo, Janeiro 13, 2008


teu corpo




Teu corpo eu amo querida
teu corpo é minha vida.
Teu corpo não é estrela não,
é terra, é pão.
Teu corpo tem
o cheiro o odor
do teu,
do meu suor.
Nele eu cavo profundo
e chego
ao fim do mundo.
Nele ouço a ti, a mim 
como um gemido
fundo e descontinuado
que eu ouço com os dentes 
no outro lado.
Querido,
querido outro lado
que me arrepia e invade
e assola
e me deixa babado
e fica em mim
assim, assim.
Teu corpo nu
és, simplesmente, tu
revolvida
dorida
gritando em dor
de amor
no meu doente ouvido
que às vezes não entende
porque não sabe ouvir
e pretende
ouvir ódio,
porque ódio
ódio, ódio
é este amor.

Geraldes de Carvalho

Quarta-feira, Janeiro 09, 2008

Auto-análise


Assento-me no escabelo da minha consciência 
e assisto maravilhado
ao desenrolar de múltiplos e incondicionáveis acontecimentos.
Que espectáculo maravilhoso !
Mas é preciso não sofrer de vertigens para suportá-lo.
Nascem-me, não sei de onde nem como, 
ideias que borbulham ao princípio timidamente
para depois se imporem
e tudo ameaçarem inundar ;
e assim como vieram assim se vão
deixando é certo
uma impressão de imensa frescura
mas absolutamente nada de menos indefinido.
E as lembranças (?)
que assomam de buracos imprevisíveis
como ratos no cinema de Disney
e conforme encontram o terreno livre ou perigoso
assim se instalam, mas nunca tranquilamente,
ou passam correndo apenas reconhecíveis pelo sentimento ?
Também me enervam os ratos
mas não fujo para cima de nenhuma mesa.
Fico ali assistindo a cópulas monstruosas 
em que dois -ou mais- destes seres inominados 
se juntam e misturam impudicamente .
Pensamentos chamo eu
aos nascidos de partos de todas as categorias.
E, sempre sentado no escabelo da minha consciência
assisto ao crescimento dos meus pensamentos.
Sigo-lhes a vida a par e passo.
São milhares.
Discorrem ao princípio tranquilamente
a um lado e outro lado do conhecimento
e se encontram um pequeno obstáculo
fazem dele motivo de brincadeira.
Pequenos muros que saltam como cabritos contentes,
muros maiores que transpõem com galhardia
e maiores que transpõem com heroicidade.
São assim os meus pensamentos .
A sua vida é alegre mas não muito gloriosa
até que chegam ao último obstáculo.
É um muro grande grande de que se não vê o cimo
mas parece um muro deste lado.
Também podemos chamar-lhe o mistério
que é uma palavra para o que não tem palavras.
E depois que lá chegaram
e o enfrentaram
sem o conseguir ultrapassar
obstinam-se louca e encarniçadamente.
Empinam-se como cavalos generosos
e batem-lhe com as patas dianteiras.
Quando reconhecem a inutilidade dos seus esforços
quedam-se e reúnem-se para deliberar.
Então começam os desentendimentos.
Cada um tem a sua própria resolução
e engalfinham-se como galos estúpidos e barulhentos.
É aí que eu me levanto do meu escabelo
e cego pela ira -porque eu não admito violências- 
procuro separar os contendores.
Luto com eles sem lhes ver a face
- irado como estou -
É uma luta terrível e silenciosa
e, subitamente,
encontro-me a esbofeteá-los.
Então uma grande calma nos invade
e voltam para mim a minha face magoada.

É por isso, é por isso
que eu tenho esta face magoada.


Geraldes de Carvalho
de “a outra luta de Jacob” Beira-Moçambique 1964

Quinta-feira, Dezembro 27, 2007

Má !...


Não haverá sentidos
mas castigos
para as palavras
sem juízo
que não vêem
aonde põem os pés !

Ficas avisada ,
minha querida
palavra má.

Má !


Geraldes de Carvalho

Quarta-feira, Novembro 28, 2007







Uma amendoeira no meu quintal













Quadras...
( Algumas não são ) populares - por antífrase -

I
Tanto queria encontrar
Quem me quisesse a valer
Que até me deitava ao mar
Se o mar me quisesse querer.

II
De mãos dadas com quem passa
Fico-me olhando quem sou
Mas não me encontro a teu lado
Encontro-me onde não estou.


III
Quando me olhei no espelho
Eu só queria fugir
Fugi e vi-te a ti.

Antes queria não ver-te
que ver-te no meu espelho.

Geraldes de Carvalho

em 30 ou 31 poemas de muito amor e quase nenhuma trivialidade

Quarta-feira, Novembro 21, 2007

Sexta-feira, Novembro 16, 2007

Rimance moderno -não escrito como romança -



Estava D. Briolanja
Sentada à sua janela
Bordando a cor de laranja
Um lençol cor de canela.
Chega D. Beringela:
Deus vos salve, mana minha !
Sabei que D. Aldo Mendo 
Casou com a doce Dulce
Nossa prima.

D. Dulce D. Dulce
É filha de uma cadela
D. Aldo, um cão renegado 
E tu, irmã Beringela 
Vai dizer-lhes que me viste
Morta na minha janela.

Comeu o dedal de prata
Sobre o peito a branca mão
Com a fina agulha de oiro
Cravada no coração

Venha venha o Jaguar
Corra corra ao hospital...

Veio o Dr. Barnard
Fez-lhe uma transplantação
-o dedal não lhe fez mal -.

Logo no terceiro dia
Briolanja já comia
Sem sinais de rejeição

Casou com Fonseca-filho
De boa reputação

Vivem numa casa linda
No bairro de Summerschield
3-4-5-7 , 9-2-5-4
À vossa disposição.


Geraldes de Carvalho

de 29 ou 30 poemas de muito amor e quase nenhuma trivialidade

Sábado, Novembro 10, 2007

Eu sou,ai eu sou...(IV)



Eu sou um navio
navegando frio
só e sombrio,
neste mar, vazio
de estio e de amor.


Navego pouco
mas navego louco
mas navego mouco
ao gemido rouco
da raiva e da dor.
Navego certo
no mar inconcreto
fechado, secreto,
navego insurrecto
sem som nem vapor,
nem leme, nem vela
nem rumo, nem estrela
nem desejo dela,
navegando por...


Por ondas
por mares
por ventos
por ares
por montes altares
por vales de azares
voo, vou e sou.


Se eu fosse
se eu fosse,
se ser eu quisesse
se ser eu pudesse,
emissor remoto
de astrónomo louco,
estrela quasar,
navio do ar
ancorado em porto
que eu só conhecesse...

Geraldes de Carvalho

Do meu livrro Novos e Velhos Cantos -Évora 2006

Terça-feira, Novembro 06, 2007

Adolescente

Ah louca, ah louca...
Há uma voz que desce
que desce 
e que traz,
os limbos, os céus,
os gestos que faz.


Ah louca, ah louca...
Rosada, a menina
das tranças, diz:
Tenho os meus olhos no céu
na terra ponho o nariz.


Ah louca, ah louca...
Tens a vida
atrás de ti
não te mexas,
não te voltes,
a vida é um passarinho
não te mexas,
tens a vida atrás de ti
descuidada...
Agora, agora devagarinho
não te mexas...
desastrada !.


Ah louca, ah louca...
Toma lá 
dou-te um beijinho
mas não digas 
a ninguém
que os meus beijos,
meu carinho,
são só para ti...


E há deuses 
que vêm
descendo 
assim como as folhas,
assim, assim,
bailando,
trá-lá-lá, 
lá-lá , lá-lá ,
e chegando à terra dizem:
Eu cá, sou o deus tal,
e vão-se embora 
subindo
bailando
assim como as folhas
trá-lá -lá,
lá-lá, lá -lá.

Geraldes de Carvalho
De Novos e Velhos Cantos. Évora 2006


Aqui está a minha. E a tua?
gdec

Dos anjos...poema-prosa . Incompleto

Dos anjos e dos demónios

O que mais invejo nos anjos é a possibilidade de se tornarem demónios. Qual há aí, de entre vós, que não cobice o papel que os deuses deram a Mefistófeles? Pois não somos todos uma tentativa de demónio a fugir perpetuamente de uma cruz? Mas ela acaba sempre por nos apanhar, porque os seus braços só terminam no Infinito, e por isso o nosso fracasso como demónios. Vingamos mais como deuses, à maneira de Cristo, deixando-nos crucificar. Mas ainda aí nos apanha a nossa insuficiência, porque não somos capazes de morrer antes da hora nona, e vêem os soldados para nos esmigalhar os ossos!... Então lhes mandamos um pontapé pelos queixos e lá se vai o «perdoa-lhes ... »
Ressuscitar é o que custa menos. Todos os dias ressuscitamos de nós mesmos e parece que não nos admiramos pelo facto. E quem é que nos mata? - És tu. Sim, és tu. Quem te mandou a ti obrigar-me a olhar para o alto? Quem nos mostra o céu é sempre um assassino. O ferro entra-nos pelos olhos ... da alma e o ferro tem a forma de uma cruz. E porquê uma cruz? Só a cruz é tudo ...

Geraldes de Carvalho
de Sombras de Alma -Coimbra 1955

Sexta-feira, Novembro 02, 2007

Diz-me lá -em construção mas, se eu morrer, vale mesmo assim.-

Tu Platão, meu amigo
meu companheiro
velho
que vislumbraste o mundo
cheio de sombras 
do fundo da caverna
-e aqui ainda estás-
tu que trataste Dionísio como teu discípulo
mas era o teu captor,
tu que três vezes, três,
insististe em educar Siracusa
e das três vezes falhaste
permanecendo sempre
o educador
-sei bem que tu pensavas
em nós, quando dormias-
diz-me lá, meu sábio
amigo,
o que é que pensarias
se não tivesses visto sombras,
nem nada 
como eu(não) vejo.

Porque quero saber
o que pensar.


Geraldes de Carvalho
de 30 poemas de muito amor e alguma trivialidade

Quarta-feira, Outubro 31, 2007

Eu sou ai eu sou -VI-

Eu sou ai eu sou
um grito
perdido
na noite passada
na noite fechada

Ressoo e ecoo
Redobro o torpor
Desta noite antiga
em que eu não sou nada
Apenas um grito
na noite perdido
na noite perdida

Abro a boca
os olhos;
vou
por aqui - por onde? -
aclarando a voz
A noite está louca
pois só me responde 
um silêncio atroz


Não me reconheces?
Estou tão mudado?
Como é isso assim
se apenas sou nado?

Queres que me cale?
Mas como poder?
Estou vivo, não ves?.

O que eu digo é nada?
Bem sei, bem no sei
mas faz-te pequena
e assim me ouvirás.

Minha noite amiga
noite em que eu nasci
olha para mim.
Por que eu não sou eu
sou montes, montanhas
alcateias, bandos,
e bandos e bandos
que gritam assim...

Se eu fosse
se eu fosse
se ser eu pudesse
se ser eu quisesse
uma voz mansinha
que dissesse
à noite
à noite pequena
à noite, à noitinha
o que ela adivinha.
E se ela me ouvisse
e me acalentasse
como eu desejasse...

Se ser eu pudesse
se ser eu quisesse...

Geraldes de Carvalho

de NOVOS E VELHOS CANTOS Évora 2005

Terça-feira, Outubro 30, 2007


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Apaixonei-me pela tua fronte larga

Amo-te nas manhãs do meu maio generoso
e nas ruas brancas do teu silêncio. 
E a tua fronte larga, é o meu infinito 
é meu horizonte. 
Nela semeio as flores 
da minha fantasia 
e a poesia que colho 
és tu a desfolhar-se. 
Amo-te nas manhãs que não existem fora de ti
nas manhãs que constróis com as tuas auroras. 
Levou-me deus ao paraíso e disse: 
Escolhe. 
Este campo será o meu jardim! 
E foi. 
Anda ver a tua fronte semeada.
Tenho as flores aladas da maravilha céu 
e as flores prateadas da maravilha mar.
Escolhe o que quiseres. 
Enche de rosas rubras os teus cabelos negros
e de camélias brancas os teus rosados seios, 
tece grinaldas-sonho em forma de vestido
faz do teu corpo todo um arraial florido. 
E havemos de cantar ao deus da primavera 
«É bom viver e amar» 
que me ensinou a nossa estrela. 
E será sempre maio. 
e serás sempre bela.
E o teu cabelo preto 
há-de pedir um raio à nossa estrela . 
E será sempre maio 
e serás sempre bela. 
E o teu cabelo ... preto 
há~de pedir outro raio à nossa estrela ... 
E será sempre maio 
E serás sempre bela. 
E o teu cabelo ... lindo 
há-de pedir mais um raio à nossa estrela . 
E será sempre maio 
E serás sempre bela. 
Meu deus, que mimoso encanto 
as rosas vermelhas 
no cabelo branco! 
E será sempre maio 
e serás sempre bela! 

Geraldes de Carvalho
de Sombras de Alma - Coimbra 1955

Sábado, Outubro 27, 2007

Cantiga de amigo -que já foi americana -quando eu tinha medo da PIDE

Mãe, meu amigo vai
lá para as bandas do mar
lá para as bandas de lá
e nem me deixam chorar
e nem me deixam chorar...

Lá para as bandas de lá
do outro lado do mar
vestido de verde e terra
e a terra fica a chorar
e a terra fica a chorar...

Vestido de verde e terra
nem sabe o que vai fazer
vestido de verde e terra
vai matar para não morrer
vai matar para não morrer...

Vestida de verde e terra
quem me dera acompanhá-lo
escondida no seu peito
e antes que mate, matá-lo
e antes que mate matá-lo
e antes que mate, matá-lo...

Geraldes de Carvalho

de 28 ou 29 poemas de muito amor e etc.
escrito em 1969 na cidade que, então, se chamava Lourenço Marques -agora chama-se Maputo-.

Quarta-feira, Outubro 17, 2007

Eu chovo sobre ti...

Eu chovo sobre ti minhas angústias
meus desalentos minhas desventuras.

O teu coração é grande
e tudo nele se desfaz
como se fosse neve no verão
um pecado mortal no paraíso
ou no inferno, uma boa acção.

Meu amor, minha querida
como consegues ser assim
para além dos meus sonhos,
meus anseios ?
Como consigo imaginar-te tanto
que não és o que és ?

Dentro de mim estás
e, como do oceano Vénus, nasces 
tão pura tão etérea no primeiro momento
que se assim permanecesses morrerias
porque eu contigo estou
feito deste mortal egoísmo
de que sou .

Por isso amor, vivamos 
nossa humanidade pequenina
e soframos as angústias,
os desalentos e as desventuras
mas vivamos.

Geraldes de Carvalho
de 27 poemas de muito amor e também muita trivialidade

Assim...assim...(4)

E hoje?...


Hoje te vi
como te vejo sempre
desde que existe o tempo
desde que eu existi
desde os tempos do principio
desde o princípio dos tempos
porque tu és
em mim
e eu sou em ti
olhos nos olhos
assim, assim
assim, assim...


Geraldes de Carvalho

de 27 ou 28 poemas de muito amor...

Domingo, Outubro 14, 2007

Hiperligação : Novos cantos (clic)

AE

Olhos de mar alto

A minha ciência ou filosofia, ou o que raio seja, deve ter-vos enfastiado. A mim também.
Para V. compensar vai aí um poema dos meus tempos de quase criança.
Espero que com ele se sintam crianças como eu e todos iremos para o céu..
Vai tal como o escrevi . Apenas lhe retirei quase toda a pontuação porque eu abusava muito dela, naquela altura.

Olhos de mar alto


Trazes nos olhos o chorar dos mundos
dois mares ansiosos de ser céu. 
Meus olhos são mil mundos de tormentos
e o teu olhar, já não cabe no meu. 
Eu já não sou aquele cujos ventos 
faziam tempestades nos teus olhos; 
estou reduzido à condição de escolhos
batidos pelas ondas ansiosas 
de vogar pelos céus 
abraçar novamente as nebulosas 
e conversar um pouco sobre deus. 
Quem me dera ser gota dessa onda,
aprender com teus olhos a voar 
e a perguntar belezas que ninguém responda.

***

Teus olhos são dois braços de uma cruz
e nesse gesto largo que fizeste 
para abarcar o mundo, 
o mundo contiveste .

Geraldes de Carvalho 

do meu livro "sombras de alma" Coimbra 1955

Quarta-feira, Outubro 10, 2007

Ciencia -em termos latos-

Demos agora lugar à ciência -em termos latos-.
Para entender o texto não é preciso saber nada de Direito. É preciso saber um pouco de filosofia mas isso toda a gente sabe, apesar do nome pomposo que tem . É que a filosofia é apenas uma reflexão sobre a arte de viver.



PREFÁCIO DE INTENÇÃO EPISTEMOLóGICA

1. _ A Ciência Jurídica: Proposta de noção. Seu objecto:
O direito.

A Ciência Jurídica é o conjunto sistematizado de estudos e conhecimentos acerca da específica estrutura social (1) cuja função é a tutela de determinados tipos de interesses humanos através da coerção organizada e exercida por um poder de classe que, nos limites em que se acha constituído, age como soberano (2).
Na base da estrutura jurídica situam-se as relações
económicas-sociais. No topo, um sistema de concepções -uma super-estrutura ideológica - que são a transposição da matéria social para o nível da consciência social. Esta ideologia, como qualquer outra, tende a devolver-se à sociedade material realizando, na história, a sua concepção da realidade.
Os interesses humanos - objectos da tutela - estão



(1) A estrutura social em causa é o Direito.
(2) O poder de classe de que falo é o Estado.
(3) A realização de um juízo de ser é, em contrapartida, mediada não por uma
norma mas sim por uma regra, um comando hipotético ou seja um preceito de arte.





presentes no todo da estrutura jurídica; na base, como matéria das relações sociais e na super-estrutura, como ideia, sob a forma de juízos de valor.
O juízo de valor, enquanto componente de uma ideologia, não é, cabe adverti-lo, o simples conhecimento do interesse na sua existência objectiva, mas a assumpção do interesse, a sua subjectivação. Daí que só os interesses assumidos pela entidade tuteladora - a classe reinante - possam ser objecto da tutela. Ideologia é pois igual a consciência de classe.
A objectivação da ideologia - a sua devolução à realidade material- porque realização de juízos de valor, é, necessariamente, normativa (3).
A norma, nexo entre a ideologia jurídica e a sua base material, mediadora da acção que a super-estrutura exerce na realidade empírica, compartilha assim o seu modo de ser ideológico com o da matéria social a que se refere: é um ser cultural. Torna-se por isso objecto privilegiado da ciência jurídica.
Na verdade a norma, sendo, por um lado, valor mas objectivado - comando - permite tomá-lo -ao valor- como objecto de conhecimento e, sendo, por outro lado, matéria mas referida, nominada, ou seja num primeiro grau de conhecimento, permite um conhecimento teorético ou de segunda - ou ulterior - intenção.






2. - A Ciência Jurídica é possível em diversos planos de intenção e níveis de abstracção.
No plano da intenção devemos distinguir:

2.1. - Os estudos e conhecimentos que se ocupam de Direito como sendo um objecto específico que é necessário classificar dentro da ordem geral das realidades afins e em relação ao qual importa determinar a função que cumpre nos diversos contextos a que pode ser referido. Teremos assim, por exemplo: uma antropologia do Direito, uma história ou uma sociologia do Direito, etc.

2.2. - Os estudos que se propõem o Direito enquanto problema prático a resolver, ou seja, que se ocupam dos problemas suscitados pela «vida jurídica», pelo Direito no acto de se realizar. Neste plano de intenção o Direito não é propriamente o objecto do estudo mas um dado. O objecto será o caso - problema - jurídico, real ou hipotético, a resolver. Este é o plano dos juristas, o pensamento jurídico, um pensamento de Direito e não sobre o Direito. Resta saber se tal pensamento pode ser considerado uma ciência (da prática jurídica) ou se não é apenas um pensamento de intenção (método?) científica.

3. - No que respeita ao nível de abstracção que se propõe alcançar poderemos, talvez, considerar na ciência jurídica três planos fundamentais:

3.1. - O da análise exegética, lógico-dedutiva, através da qual apreendemos o que já é conhecimento, realidade mentada ou cultural; por ex.: o que comandam as normas ou qual o modelo formal de uma relação jurídica abstractamente nelas regulamentada.

3.2. - O da formulação dos conceitos através dos quais ordenamos um conjunto de fenómenos significantes, já nomeados, num sistema unitário de significações, sistema cuja coerência interna assim nos é dado compreender - é o nível das teorias.

3.3. - Finalmente poderemos considerar a formulação dos juízos - ou hipóteses - mais gerais e englobantes sobre o Direito, na base dos conhecimentos obtidos nos estudos jurídicos e sobre o jurídico nos seus diversos planos de intenção e níveis de abstracção e também a partir de uma posição sobre o sentido geral da vida e das sociedades humanas. É o nível filosófico.

4. - Do método em Geral.
A Ciência Jurídica é, na actualidade, um empreendimento colectivo. Os estudos aos diferentes níveis de intenção e abstracção só podem ser considerados como tarefas parcelares daquele mesmo empreendimento. Os resultados obtidos dependem da interacção dialéctica que entre tais estudos se estabelece. Assim por ex.: a conceitualização sistematizada a partir das normas, e mesmo a validade de tal forma de conhecer o Direito, é, desde o início, determinada pelo estatuto ontológico que o estudioso fixa ao direito - ideia objectivada (?) simples fenómeno empírico no acto de acontecer (?) realidade histórica plasmada em juízos de valor (?). Por outro lado a validade dos conceitos obtidos depende de se ter tomado em conta e se ter operado conjuntamente com os elementos funcionais que só a história e a sociologia podem fornecer. O pressupor da função é condição indispensável do conhecimento de uma estrutura a realizar-se, do movimento que é o modo de ser da sua existência real.
A interacção dialéctica de todas as formas e níveis de conhecimento de Direito e sobre o Direito, multiplica-se infinitamente pois é necessário não considerar a ciência jurídica isolada de todas as outras formas de conhecimento. Da mesma maneira se deve ver a relação entre a ciência jurídica com a prática que ela vai, por sua vez, modificar. E isto, quer essa prática seja a realização da ciência do Direito quer seja a realização do Direito ele mesmo.

5. - O objecto deste trabalho: Ciência prática e método.
O pensamento jurídico, como ciência prática, segue metodologicamente o movimento da própria formação e realização do Direito.
O juízo de valor jurídico, construído sobre a matéria dos interesses humanos concretos que se digladiam na sociedade real, nega esses interesses transmutando-os em ideia social, abstractizando-os e generalizando-os. A norma, por sua vez, nega o juízo realizando-o na vida material. Esta negação da negação é um regresso...progresso dialéctico pois a realização do Direito é uma tutela de interesses concretos mas no plano mais elevado da assimilação pela via genérica.
Como, porém, o juízo de valor não é pura ideia mas ideologia - existente na contingência da realidade histórica - a sua realização não pode impor-se com a força da necessidade, antes tem necessidade da força para se impor. Força que, para a classe que a actua, é uma exigência da própria existência - a classe existe quando objectiva a sua consciência de classe - e para a classe que a sofre é uma negação que exige ser superada - e é - por uma nova ideologia, a qual, no esforço de realizar-se, faz o movimento da história.
O jurista puro seria um instrumento da classe titular do Direito para a tarefa da sua realização formal (1) e também da sua realização material objectiva (2) - a realização subjectiva dos valores é moral-. No processo da formação do direito, ou seja da sua realização formal, caber-lhe-ia organizar os materiais: objectivar os juízos de valor sob a forma de proposições normativas, deduzindo; referi-los a matéria dos interesses que tipifica, induzindo.
No processo da realização material executaria operações análogas: «subir» do caso para a norma - subsumir -e «descer» da norma para o caso- interpretar; subida e descida que um mesmo processo comporta muitas vezes e que é, por isso, mais propriamente, um movimento de vai-vem. Porém nenhum destes processos lógicos permite, por si só, realizar o que quer que seja - são processos de conhecer e não de realizar.
Na verdade a ideia, sendo formada a partir da matéria


(1) É o papel do jurista
legislador.
(2) É o papel do jurista
juiz, do jurista advogado, etc.


em perpétuo movimento - e o devir da matéria social é particularmente fluído - não pode reflectir um ser que já não é no momento em que é pensado; reflecte antes um vir a ser, um tornar-se. Ora, se é certo que todo o tornar-se se nos apresenta, à posteriori, como determinado, à priori - e portanto na ideia - já assim não é, antes de mais porque toda a ideia é abstracção, mutilação da realidade material. Esta apresenta-se-nos pois como um vir a ser indeterminado, um feixe de probabilidades. Actuar é intervir para realizar uma das possibilidades de ser - é assim verdadeiro que todo o real é racional mas não é verdade que todo o racional seja real; venha a ser realizado. Desta maneira uma actividade, como é a prática jurídica, jamais se pode reduzir a qualquer forma de processo cognitivo dada a relativa indeterminação de todos os conceitos.
Assim o jurista puro é uma pura abstracção. O jurista real é ele mesmo homem, membro de uma sociedade e de uma classe e por isso chamado a constituir ele próprio o Direito nos limites da indeterminação dos conceitos com que trabalha. Daí a sua responsabilidade.

Geraldes de Carvalho
Do meu livro "Introdução ao método de aplicação científica do Direito"
Foi também a minha contribuição para o Congresso de Ciência Jurídica em Haia-1977

Quando ela me deixou. Assim, assim...7

Quando ela me deixou,
ou me pensou deixar,
deitou-me um longo olhar.
Olhar que eu recebi
estóico como o aço
mas que não devolvi.
Era um olhar estranho
intenso, magoado,
contendo a dor actual
e a dor do passado.
E nesse olhar eu vi-me
e nesse olhar eu vi-a
porque esse olhar trazia
a nossa vida
tal como ela a queria
ver,
talvez como ela era,
mas não como eu a sentia
ser.
Foi um olhar nostálgico,
um olhar do passado
que ela me fez presente
e que ficou mordendo aqui,
no coração da alma,
assim, assim...

E hoje não sei
se ainda a tenho,
ou não,
ao pé de mim.

Geraldes de Carvalho
de "24 ou 25 poemas de muito amor e pouca particularidade"

Terça-feira, Setembro 25, 2007

Dicionário...ou dois poemas num só

Tenebroso é o que apascenta 
as nuvens negras no céu.
Não é um Deus nem um Anjo,
é um demónio,
sou eu.
Não é o meu pensamento,
sou eu.
Não é o meu sentimento,
sou eu.
Não é o que sinto
neste momento,
sou eu.
Não é o que tento
ser,
sou eu.
Eu
eu
eu 
que não inspiro
e expiro
em chama,
a arder,
até não mais
eu ser;
não mais
tenebroso,
não mais.

Geraldes de Carvalho

E o que é que fica de mim (?) 
assim, assim...? 

Geraldes de Carvalho
de 25 ou 26 poemas de muito amor e quase nenhuma trivialidade

Domingo, Setembro 16, 2007

de SORTILETEJO

Pequenino trecho do meu próximo livro


Tacitamente o Mário e a Adélia tinham combinado que a menina não os trataria por pai e mãe antes de ser adoptada de maneira que não conhecia tais palavras tratando-os pelos nomes próprios, como eles lhe ensinaram.
A Adélia levava-a sempre que saía e fazia-o, pelo menos uma vez por dia, por volta das seis horas da tarde, de modo que a criança contactava com muita gente uma vez que a Adélia conhecia todos os vizinhos e dava-se bem com eles. Mimavam a Elsa mas sempre sob o olhar atento da Adélia pois que, na verdade, alguns deles procediam de uma maneira tão desastrada, ora semelhando estar muito atentos ora distraindo-se logo a seguir porque outro motivo lhes chamara a atenção, que mais parecia serem também crianças do que pessoas adultas.
Continuava a gostar muito de passear junto ao Tejo e agora nunca via as águas encapeladas e da cor do chumbo.
Enquanto caminhava tagarelava com a Elsa:
Estás a ver, querida menina, este grande rio que se chama Tejo.
Trás a água de Espanha e recolhe também a desta parte, central, de Portugal. E nota que embora muita dela, venha da terra espanhola, nunca constou que tivesse havido alguma aljubarrota entre essa água e a que nasce no solo português. Pelo contrário, junta-se aqui toda de maneira que ninguém será capaz de distinguir a espanhola da portuguesa e parece um mar - ainda que seja possível ver, bastante bem, as casas que ficam daquele lado, acrescentou decorrido um longo momento.
E quando chegam aqui as águas do rio, as sereiazinhas, que nascem lá para riba, em Vallermoso perto da longínqua Serra de Albarracin e em Villalba e cerca de Aranjuez, junto daquele belo concerto, e em Aldeanueva de Barbarroya e em Alcântara, mesmo por debaixo da majestosa e velhíssima ponte e perto do Rosmaninhal e em Belver e no belíssimo Zêzere em Maxial de Além e em Vila Nova da Barquinha e ali mesmo dentro do misterioso castelo de Almorol, vêm já grandinhas e aqui crescem até ocuparem toda a nossa imaginação.
Há também quem fale em monstros; mas quem acredita nisso neste princípio do terceiro milénio?, não me saberás dizer ?
Os edifícios ganharam novas cores e gostava especialmente daqueles que tinham mazelas no reboco porque lhe pareciam reflectir múltiplos arcos íris.
E continuava a falar:
Repara, querida Elsa, nestas casas que já parecem velhinhas de tão derrocadas que estão. Mas se fores ver por dentro, a maior parte delas são ainda bastante confortáveis mesmo que tenham salas pequeninas e muitas escadas bastante empinadas.
Estás a ver aquelas cortinazinhas, arrendadas e tão bonitas? Pois toda ela deve ser assim no interior. Cheia que nem um ovo com cadeirinhas, mezinhas, caminhas e aparadorzinhos tudo muito arrendado e bonitinho.
Muitíssimo interessante seria conhecermos as pessoas que habitam nelas porque algumas têm maniazinhas tão arrendadas como as suas cortinas. Não acreditas?
A ponte velha ao longe, semelhava um grito, vermelho.
E ela dizia:
Estás a ver ali, ao longe, a velha ponte? Ela ficou velha de um dia para o outro quando construíram a outra que agora é a nova. Mas não te deixes enganar. Ela é muito grande e, principalmente, muito alta. Mas nota que daqui podes brincar com os automóveis que passam por cima dela ainda que só com os teus queridos olhinhos.

Geraldes de Carvalho

de SORTILETEJO

Domingo, Setembro 09, 2007

... a hora

Estou aqui
perdido em dor
nos labirintos do ser
do meu ser tão pequenino
mas infinito...

Aqui chega a vossa voz
tão deformada
pelas curvas do meu destino
que eu já não sei
se é uma voz
ou nada.

Só sei que sofro, e mói
esta dor,
talvez fingidamente
mas que dói, dói. 

Deuses em que eu não creio
valei-me agora
que eu estou nascendo
e morrendo,
...é a hora .

Geraldes de Carvalho

de 24 ou 25 poemas de muito amor e alguma circunstância

Sexta-feira, Agosto 24, 2007

Epitáfios

Hoje estou um pouco tétrico . Deixo por isso, aqui, um projecto para o meu Epitáfio.

Assim -com maiúsculas e tudo-:

AQUI VIVEU O GRANDE POETA GERALDES DE CARVALHO . TINHA UM METRO E SESSENTA E SEIS DE ALTURA E NÃO SABIA NADA DE NADA .

E aí vai também outro epitáfio que escrevi há muitos anos e coloquei agora no livro "Novos e velhos cantos"

Epitáfio para um herói 



Nada,
nem frio nem quente;
água, ferro, cálcio, fósforo, etc.
à temperatura ambiente;
mas dele, nada...
Aos poucos decompõe-se.
Cada elemento é o que é:
Os gases são gases
e se se movem, vento
-pai do som,
filho que as prenhes velas têm dentro -
Água é água
e se se move, rio
-ar de peixe,
rua de navio -
Sal é sal,
fogo que abrasa o mar
-nem toda a água do mundo
o poderá apagar -
O ferro é ferro,
cristaliza,
impurifica,
é purificado,
malhado,
moldado,
para carris,
para panelas,
para desenhar nas forjas
perfis de estrelas...
Eu sei lá, é ferro.
Quanto ao fósforo
ser indeciso,
amorfo,
assim...
Presa da combustão
-frio a querer ser clarão-
é fósforo, enfim.
Não terá muita aplicação
mas é importante
-não para ele,
para mim-
Mas dele, nada.

Geraldes de Carvalho

de "novos e velhos cantos " Évora o6 -este era dos velhos cantos

Domingo, Agosto 19, 2007

Pequena parte do meu novo romance : SORTILETEJO

Por essa altura o Mário costumava sonhar muito e recordava muito bem os sonhos que tinha, talvez porque tinha mau dormir e, assim, acordava muitas vezes logo depois de sonhar.
Eram sonhos bastante interessantes que ele gostava de recordar e que algumas, poucas, vezes contou aos amigos. Deixou porém de fazê-lo porque notava que eles não acreditavam que ele tivesse efectivamente sonhado com todos os pormenores de que se lembrava.
Recorda que uma das vezes um amigo comentou: Tens uma imaginação efectivamente prodigiosa, mas fê-lo com tal acento de admiração que o Mário não teve coragem de se zangar.
Deixou então de se interessar por esses sonhos, que por isso depressa esquecia e parecia-lhe mesmo que deixara de os sonhar.
Ultimamente, porém, os sonhos que deixara de ter transformaram-se pouco a pouco em pesadelos que na verdade se repetiam até à exaustão ainda que com ligeiras alterações...
Num deles antecipava o parto da Adélia . E havia duas coisas que o afligiam muito naquele sonho . Uma delas era que ele assistia ao parto dissimuladamente sem que a Adélia soubesse e desse por ele . A outra questão inquietante era que, por mais que tentasse, nunca conseguia ver a criança que nascia e ele dava-se a pensar, no meio do pesadelo, se ela seria realmente uma criança . Se não seria já um adulto, ou mesmo outra monstruosidade qualquer .
A Adélia, no sonho, parecia não sofrer nada com tudo aquilo. Ria-se mesmo. Umas risadas esganiçadas, a avaliar pelos esgares que fazia, o que não era nada dela. Pareciam de outra pessoa e, reparando bem, também ela não era ela, por vezes.
E este pesadelo nocturno transformava-se em pesadelo de dia pois não podia contá-lo a ninguém nem o esquecia porque quando isso estava prestes a acontecer voltava a sonhá-lo.
Outro pesadelo era bastante mais estranho porque não parecia ter nada a ver com as suas preocupações, no momento.
Via ele um homem que não reconhecia sabendo, embora, que era seu amigo, conduzindo um velho acorrentado que sabia ter sido condenado à morte. E ao mesmo tempo que sabia que o seu amigo – que, no entanto, não identificava - era obrigado, por dever...oficial, digamos assim, a conduzir aquele homem, não deixava de achar muito estranho que o fizesse pois sabia-o contrário a tal penalização.
Entretanto verificava-se uma altercação entre aquele par que ele contemplava a uma certa distância. Via então o seu amigo conduzir nervosamente o homem para o encostar a uma parede . Retira uma pistola do bolso e aproxima-lha agitadamente da têmpora. Não atira porém. Coloca-se ele próprio no muro, ao lado do homem acorrentado e encosta agora a pistola à sua própria têmpora.
O Mário não ouve o tiro – todos estes pesadelos são completamente mudos - nem vê cair o seu amigo porque acorda sufocado de angústia.

GERALDES DE CARVALHO

Terça-feira, Agosto 14, 2007

Como me perdi

Não suportei essa ideia 
que breve se desmoronou 
nos mil pequeninos factos
de que era feita
-e noutras mais 
pequenas coisas, 
que na ideia,
clandestinamente
se abrigaram-
e me mostrou 
como é que eu era
nem tão nobre 
nem tão belo 
como ela -a ideia-
era
ou parecia ser.
E parecia
por ser tão grande
que eu
não a podia
ver.
Dei-me a rearma-la por isso
sem os espúrios acrescentos
que ela não podia ter
nem teria.
Mas por fim
o que restou 
nem mesmo uma ideia era
mas um lixo que fedia
e afastava
quem se dela 
aproximava.

E foi assim que perdi
aquela bonita ideia
que era eu.

Aconchega-me 
por isso
minha mulher
minha amiga
minha irmã
e parente,
minha amada...

Se é que não és uma ideia
ou nada. 


geraldes de carvalho

de 25 ou 26 poemas de muito amor e muito pouca circunstância

Domingo, Agosto 12, 2007

Conversa de bêbado

Sem ti, meu co...companheiro tinto
eu não podia viver
porque tenho o coração... triste
e a alma a apodrecer !!!
desde que ela me deixou
ou..não sei se me deixou
ou apenas me deixar pensou
ou me pensou deixar
ou pensou me deixar...
ou deixar pensou me...
Sei que não sei se sou eu
ou quem sou.
Porque eu julgava, coração...
que era ela e -vírgula- por isso
sabia bem quem eu era
não me podia perder.
Até que um dia ela olhou
e esse olhar nos separou
e agora não tenho mão 
para poder distinguir
se sou eu
ou quem eu sou
ou não
Só sei que estou repetindo
como um bêbado
ideias que importei
talvez da bóblia...da bíblia, 
não sei,
só sei que quero um copinho
mas do tinto 
porque o branco...o branco 
não é vinho !!!...
Isto assim porque quem tem
tanta emoção, 
só funciona com muitos muitíssimos pontos
de exclamação !!!!!!!!!!!!
e algumas reticências... ... ...

Ou não?

geraldes de carvalho

de 24 ou 25 poemas de muito amor e muito pouca cir...circunstância

Sexta-feira, Agosto 10, 2007

C O R A G E M

ENCHA-SE DE CORAGEM . LEIA A PROSA. NÃO SOU ASSIM TÃO MAU

geraldes de carvalho

Quarta-feira, Agosto 01, 2007

Sem palavras-poema novo sobre raízes velhas




Fechei sobre os meus olhos 
e os meus ouvidos
com força, as minhas mãos
para que nem uma sensação
cruzasse o prenhe rio
do meu humano pensamento puro.
Com força fechei as minhas mãos
e me concentrei 
até eu já não ter mãos 
nem olhos nem ouvidos.
Então vieram até mim, 
não invocadas,
todas as virtualidades do ser
que algum dia merecerá o nome de homem.
Vieram e escreveram 
sem palavras,
estas palavras
que vos traduzi como pude:

SIM foi a única palavra que aproveitámos
do léxico abstracto dos nossos antepassados
mas concretizou-se.
Apesar disso subsiste a diversidade
e não é o tédio o nosso estado
mas uma perene e perfeita harmonia.

Geraldes de Carvalho

1  (de 24 ou 25 poemas) de imensa circunstância e muito pouco amor.

Domingo, Julho 29, 2007




Vou publicar aqui o 1º capítulo e parte do 2º do meu livro "O caminho" . Estes textos já tinham sido publicados mas geralmente como imagens o que tornava um pouco difícil a sua leitura Consegui agora o OCR para o meu MAC e por isso já posso publicar os textos como...textos. Apaguei as imagens mas conservei os comentários.




PRIMEIRO CAPÍTULO



Feitos de nada. para nada idos.
Revestidos de nada caminhamos
Caminhar é que é ser, em todos os sentidos;
Só andando é que estamos.








I. Caminhava e caminhava indefinidamente.
Devo dizer, em abono da verdade, que caminhava bem. É certo que ao princípio, me limitava, como os outros, a avançar sem curar de conhecer as regras e os métodos. Tal sistema, se a isto se pode chamar sistema, dava fracos resultados. Não é, evidentemente, apoiando todo o corpo sobre o solo e avançando, ao acaso, mãos e pés, procurando firmar-se ou agarrar, que conseguimos progredir. O que se consegue, às vezes, são espinhos pelo corpo e pedaços de terra nos olhos e na boca. Por isso eu costumo dizer que foi mais pelos inconvenientes de tal sistema - supondo que é permitido dar-lhe esse nome- do que pelas vantagens que o novo me oferecia, que, pouco a pouco, me decidi a abandoná-lo.

2. Mas poderei eu dizer que o abandonei?
Não será por acaso verdade que desde o princípio fiz todos os esforços para me libertar dos espinhos e da terra, esquivando como podia o corpo os olhos e a boca? Que era pois o meu novo sistema, senão uma forma aperfeiçoada do anterior? Não é certo que muito caminhei ainda ao acaso, tendo apenas o cuidado de manter acima do solo, meu corpo, meus olhos e minha boca?

3. Desde quando soube eu realmente, aonde punha as mãos e os pés? Desde quando soube que devia avançar simultaneamente a mão direita e o pé esquerdo, e que bem apoiado nos quatro membros, devia então, com um único impulso do corpo contendido, impulso que me elevava ligeiramente, inverter a posição enquanto expirava? E que devia inspirar em repouso momentâneo, relaxando o corpo e deixando os membros flectir-se até ao ponto de dar a impressão que recuava, a tomar alento para o movimento seguinte?
Desde quando?

4. Para sabê-lo, seria preciso que eu tivesse a faculdade de parar para pensar ou pudesse olhar para trás. Nada disso me era permitido nem o desejava. Sabia, e bastava-me, que caminhava e caminhava bem. Embora não me pudesse ver, sentia que o meu corpo avançava ondulando ritmicamente, e a graciosidade deste movimento de modo algum me deixava indiferente; enchia-me de orgulho. Por vezes dava por mim a lamentar que não tivesse cauda; percorri longas distâncias imaginando como coordenaria então os movimentos; via-a caída no momento do salto, inclinada à esquerda quando o pé direito estivesse recuado e vice-versa. Percorri longas distâncias enlevado no pensamento inconsentido deste secreto desejo.

5. Pois em que poderia eu pensar? Empregava todo o corpo aproveitando ao máximo a capacidade de cada uma das partes; como aspirar a qualquer aperfeiçoamento senão imaginando-me diferente e mais complexo?

6. Entretanto avançava, e posso dizer que avançava rapidamente. Não que eu perdesse o
meu tempo a procurar um ponto de referência na monotonia do caminho, mas bem via como os outros ficavam para trás, arrastando-se miseravelmente na terra e nos espinhos. Poderei descrever a alegria que me dava a constatação deste facto? Oh ! Como eu ia ligeiro e leve, deixando a perder de vista os que comigo haviam partido, e ultrapassando facilmente os que tinham saído mais cedo e mais cedo! ...

7. Deverei deter-me agora para contar como evitava tocá-los pois me produziam uma sensação de indizível repugnância'? E deverei dizer que nem sempre me era fácil deixar de passar por cima daqueles que mais directamente encontrava no meu caminho'? Não, não creio que tal relato possa despertar o mínimo interesse.

8. Talvez que se a meu lado alguém caminhasse como eu, ligeiro e leve, me sentisse tentado a estender-lhe amigavelmente um membro, ou talvez não. Muitas vezes me tinha feito esta pergunta:
Caminho só porque caminho assim, ou caminho assim, porque caminho só ?

9. Mentiria se dissesse que procurava resposta para esta ou qualquer outra das minhas muitas
interrogações.
Por exemplo:
Não seria certamente descabido que eu dissesse agora para onde caminhava; mas como, se eu próprio o não sabia? No entanto eu tinha uma boa razão para prosseguir por ali: Olhai a gota de água numa corrente caudalosa; será possível vê-la correr para montante ou mesmo imaginar-lhe semelhante desejo?

10. Não admira pois que eu não procurasse resposta para as minhas interrogações, e que estas fossem apenas uma espécie de jogo, com que procurava distrair-me de obsessões como
o desejo da cauda.

11. Mas poderão evitar-se as respostas quando se encontram atravessadas no nosso caminho? É preciso, porém, não exagerar. Poderá chamar-se realmente uma resposta àquilo que como tal se considerou, ainda que durante muito tempo? Poderei eu mesmo falar em respostas, se sempre caminhei ? - Esta é a verdade, diga eu o que disser, venha eu a dizer o que vier.

12. Mas vale mais que eu conte de uma vez o
que vi ou aonde cheguei e não fique aqui, como quem diz, às voltas sobre uma coisa de nada, atitude inconveniente, por certo, para quem como eu caminhava realmente numa direcção bem definida.

13. Antes porém, gostaria ainda de fazer uma pergunta: Será que poderei dizer que cheguei àquela cidade, ou mesmo que era uma cidade, só porque em determinado momento me dei conta de que os outros iam e vinham e se juntavam e dispersavam para se reagrupar de novo em grupos que ora se fraccionavam ora se fundiam para novamente se dispersar'? E outra: não estarei eu com palavras, procurando esconder o que quero dizer, o que devo dizer, o que não posso calar, o que realmente é importante, o que aconteceu de facto; enfim não estarei propositadamente a retardar, a protelar o momento em que terei de e serei obrigado a, sob pena de não poder prosseguir, revelar que estas pessoas avançavam mas avançavam mais lestas, mais gráceis, mais elegantes e mais ligeiras e leves do que eu ? Como poderia humilhar-me tanto, que dissesse sem rodeios, que aquela gente inconcebível conseguia caminhar assim, utilizando apenas os pés e reservando as mãos para conseguir uma série de efeitos surpreendentes e outras mirabolantes distracções. Oh ! Como os invejei e como os amei, porque me pareciam grandes e belos e porque iam depressa! Não que me tivesse imediatamente apercebido que o defeito estava na maneira de caminhar, não; procurei até aperfeiçoá-la; consegui músculos mais tensos, inspirações mais profundas, movimentos mais alongados, corpo mais maleável; mas logo reparei que tudo o que se passava ali, àquela altura do solo, estava praticamente fora do alcance de visão dos habitantes da cidade. Enquanto eu saltava e cabriolava no ar, eles passavam ao meu lado, à minha frente, sobre mim, longe de mim.




SEGUNDO CAPÍTULO


Alegro-me porque poderei agora vingar-me da humilhação relatada na última parte do pequeno capítulo anterior, contando como consegui pôr-me de pé:

1. Aconteceu que por acinte ou acaso alguém passou verdadeiramente junto de mim. Ferrei-lhe os dentes; Tentou sacudir-me batendo nervosamente com a perna enquanto caminhava, mas não o larguei. Parecia não me dar muita atenção. De quando em vez batia com mais força a perna no chão, e eu segurava-me. Numa segunda investida lancei-lhe as mãos. Desta vez, com os movimentos mais presos, parou para considerar; agarrei-o melhor. Pareceu decidido a livrar-se definitivamente de mim - tê-lo-ia conseguido pois dificilmente me equilibrava naquela crítica posição - desistiu porém deste intento e, inexplicavelmente, agarrou-me pelos cabelos e pôs-me de pé. Beijei-lhe as mãos.

2. Continuámos juntos.

3. Pouco a pouco adquiri maior segurança quer em manter o equilíbrio, quer na maneira de pisar. Constatei então que até ali andara errado - conquanto no único caminho, permita-se-me este pequeno paradoxo. A sabedoria não estava em aproveitar ao máximo as possibilidades de cada uma das partes do corpo e concentrá-las num esforço comum, mas em dar a cada uma o seu emprego mais adequado: as pernas e os pés para andar, as mãos para agarrar, e a espinha dorsal para dobrar usando todas as imensas virtualidades da sua maravilhosa articulação.

4. Tanto me aperfeiçoei que não tardei a verificar que não era já eu que me apoiava ao meu companheiro, mas ele que se apoiava em mim. Sendo assim era evidente que eu estava a avançar menos do que as minhas possibilidades me permitiam. Sacudi-o com facilidade.

5. Entretanto cheguei a uma das praças da cidade. Ali fiz um discurso, um discurso histórico ou mais precisamente, da história da minha vida. Comecei: Caminhava e caminhava indefinidamente - uma frase de lindo efeito - e continuei por ali adiante, omitindo apenas alguns pormenores de somenos importância.

6. Ninguém me ouviu como é costume, mas depois dos aplausos um velhinho aproximou-se e disse: Não tem razão, ao que respondi:
Evidentemente que não tenho, espero não ter afirmado o contrário. E ele: Alegra-me que saiba reconhecer um bom argumento. E assim nos tornamos amigos. Disse-me que tinha uma filha encantadora e convidou-me a conhecê-la.

7. Acompanhei-o a casa. Não quero faltar à verdade dizendo que fui com ele, e a própria palavra acompanhar necessitaria uma árdua exploração. Ainda julguei que talvez pudesse dizer que o segui, mas logo vi quanto andaria longe da verdade; pior seria se dissesse que fui seguido por ele. Bem, tudo se resume a pouco mais do que termos partido e chegado ao mesmo tempo, com breves e ocasionais contactos pelo caminho que ele aproveitava para me impingir, por sua vez, o seu discurso. Isto não significa que eu não tivesse tentado regular o meu passo pelo dele, observando-lhe minuciosamente todos os movimentos:

8. Avançava com passo miudinho e levantava o
pé preso ao que me parecia de preguiça tão irremediável, que era para suspeitar que não chegasse a pousá-lo, o que distraindo-me, me impedia de ver como o pousava realmente. Iludido por este pormenor, não admira que retraído, me deixasse ficar para trás ou que
reagindo, em vez de agir como devia, me lançasse numa cega perseguição ultrapassando-o sem vontade nem remédio. Mas o pior ainda é que como não sabia o caminho era então obrigado a parar, o que significava perder toda a vantagem adquirida e permitir-lhe que, alcançando-me, me despejasse nos ouvidos um parágrafo inteiro da sua oração.

9. E repetia-se este processo de retracção, reacção e paragem, enquanto me esforçava por surpreender o momento decisivo, em que ele pousava o pé, e assim desvendar o segredo daquela forma de caminhar. No entanto era bem claro que jamais o conseguiria enquanto não acreditasse que tal momento ocorria realmente. Que cegada !

10. À falta de melhor, dei-me a elaborar uma hipótese:
Creio já ter dado a entender que no difícil processo de caminhar, sempre cercara de especial cuidado e ponderação o acto de pousar os pés - ou as mãos -. Atira-se um membro para o ar sem medo e com alegria, mas é sempre mais difícil recolocá-lo no chão. Como poderemos saber o que iremos encontrar debaixo? Os perigos disfarçam-se sob a poeira do caminho e alguém que pisemos é bem capaz de nos ferrar à traição e sem dó, numa perna, os dentes agressivos. Jamais os que são sempre calcados se resignam à sua natural condição e uma vez ou outra, há um que nos faz lamentar amargamente qualquer descuido.
Tal pois foi a hipótese que a respeito do andar do velho elaborei: Por qualquer estranha razão ele pisava sem temor, como se estivesse seguro de ter o caminho limpo de obstáculos. E tal foi
o que cheguei a descobrir, confirmando a minha suspeita: Que servos devidamente ferrados o precediam por onde quer que fosse, reduzindo todo o caminho, ao mesmo pó uniforme e macio que ele gostava de pisar. Gostei daquela sabida técnica e eu mesmo a vim a aplicar, oportunamente, com assinalado êxito.

11. Enquanto pensava nisto e naquilo o velhinho estacou e eu, que iniciara então uma vigorosa perseguição, parei também, mas, é claro, não a tempo de ficar junto dele. Voltei-me surpreendido para saber que força poderia assim ter detido quem caminhava com tanta - diria bem, tão sábia - determinação. A causa de tamanho efeito era uma personagem aparecida.

12. Não perderei, por ora, tempo a descrevê-la. Gosto de descrever as pessoas pela forma como caminham - e julgo desnecessário explicar o porquê ? - e, por enquanto, sobre aquela forma de caminhar, tinha só uma indirecta indicação: não a pressentira chegar. Se vim depois a saber o motivo, não deverei revelá-lo agora para não ser acusado de usar precipitar-me sobre os meus próprios passos, defeito grave para quem, concretamente, pretenda avançar.

13. Recuei - que não se tome demasiado à letra esta palavra - a tempo de assistir a uma representação interessante : o velho estacara, mas ou fosse pela posição do corpo ou pela subcutânea palpitação muscular, adivinhava-se que continuava preso - como direi ? - por um fio, ao movimento.

14. Outro tanto acontecia com ela, a quem um impulso contido parecia dever arrastar dali para muito longe, de um momento para outro. Todavia nenhum deles conseguia avançar, porque animados de energia contrária na direcção, mutuamente se anulavam os efeitos; ou seja em termos mais correctos: cada um puxava para seu lado. Mas inadvertidos como estavam do equilíbrio das respectivas forças, nela por serem mais violentas e nele porque mais eficazmente comandadas, ambos se esforçavam por arrastar o outro consigo - o que não era senão uma forma de evitar ser arrastado - dando-se mútuas marradinhas na cabeça que procuravam, suponho, provocar-se pequenas libertações de energia ou uma espécie de relaxamento nervoso e assim, mais pela persuasão do que pela violência declarada, enfraquecer-se.

15. Esta técnica favorecia visivelmente o meu velhinho, a quem a perda de energia não afectava, excepto se viesse a descer abaixo do ponto crítico em que se tornasse inoperante qualquer utilização, por mais criteriosa que fosse.

16. Perante o momentâneo impasse é que eu intervim, a convite do velho, e com um subtil toque da minha mão na dela, decidi o prélio a nosso favor -o meu, o do leitor e o do velhinho

17. Passou então a gravitar à nossa volta como um satélite, o que é uma forma de dizer não muito distante da verdade. Mas o seu peso - dela - contrabalançando a minha indisciplinada energia, permitia-me agora acompanhá-los com satisfatória facilidade. E foi assim que chegámos, por milagre juntos, a casa deles, e ali nos dispersámos, pouco, por aqui e por ali.

18. Seria talvez agora altura de descrevê-la, porque já devia ter do seu andar alguma observação. Mas não tinha. Embora lhe sentisse muito impressivamente a constante presença, por alguma difícil razão, só vagamente a via. Matutando sobre o caso acabei por concluir que o que ma encobria era a própria proximidade. Eu explico: a força da sua atracção obrigava-me a reproduzir-lhe quase textualmente os movimentos e assim nunca me encontrava bastante distanciado para poder apreendê-la completamente. Aí está! Não obstante eram-me bem visíveis certas particularidades, o que, claro, pouco adianta para quem deseja saber sobre a forma de caminhar.

19. É certo que eu poderia subtrair-me-lhe voltando-lhe as costas. Mas pouco tempo permaneceria nessa posição, fosse pela instante necessidade de completar a observação das particularidades vistas ou, porque não confessá-lo?, pela atracção que aquela atracção sobre mim exercia.

20. Foi assim que me encontrei a executar uma série de movimentos incontroláveis, mas caracterizados pela riqueza rítmica de uma variada simetria, resultado simples, como vim a saber, de sermos dois a executá-los, sem que eu, então, disso me apercebesse.

21. O que com ela se passava de semelhante era diferente porque não movida por qualquer acção que sobre ela se exercesse mas por uma vontade má de exercê-la e uma secreta consciência de que só poderia consegui-lo se me mantivesse na ignorância dos seus processos; é simples! Por isso se me voltava e me afastava, se voltava e se afastava sabendo que não tardaria a segui-la para que me fugisse e me apanhasse.

22. Entretido como estava neste minucioso jogo, nem me apercebi de como os nossos movimentos se repetiam em ritmo que gradual e perigosamente se acelerava ...

23. Seria necessário que eu repetisse agora a descrição dos movimentos que melhor exprimem esta fase das nossas relações, para dar delas uma ideia mais perfeita, e voltasse a repetir antes de continuar. Veremos se aconselharei ao editor uma cópia e recopia sucessivas deste trecho da minha caminhada. Entretanto, antes que o termine, convém dizer que nem por um momento deixei de prosseguir - faço questão em insistir neste ponto. Fui até levado a assistir à lição pública de ginástica.

24. Começava na posição de pé concentrado e quieto alguns instantes compridos; a um sinal do instrutor avançávamos a perna esquerda ligeiramente (I." tempo); depois recuávamos a perna direita assentando apenas o bico do pé e nessa posição flectíamos ambas as pernas até ficar com o joelho direito assente no chão (2." tempo); por fim, num só movimento, o mais difícil, colocávamos o joelho esquerdo ao lado do direito (3." tempo), tendo o maior cuidado em não levar as mãos ao chão o que comprometeria a nobreza do exercício. Devíamos permanecer a maior parte do tempo nessa posição, mas o exercício repetia-se quatro ou cinco vezes. A instrutora - instrutora tanto quanto as vestes amplas permitiam distinguir - dirigia o exercício por gestos e palavras que só uma meia dúzia de privilegiados entendia; os outros limitavam-se a imitá-los. Simultaneamente ia comendo e bebendo, para poupar tempo, suponho. Era bastante frugal conquanto abastada a avaliar pela sumptuosidade da baixela a qual devia ter herdado dos antepassados, pois era de fino lavor como se costuma dizer.

25. A lição de ginástica permitiu-me conhecer muitas pessoas e fazer bons negócios. Aproveitava também os assistentes para ouvintes dos meus discursos, ou antes do discurso que eu teimava em repetir e aperfeiçoar e burilar tendo conseguido obter uma agradável variedade pela maneira como começava. ora no princípio, ora no meio da narrativa e mesmo no fim, fazendo múltiplas regressões ou adiantando-me de propósito à sequência dos factos para me permitir regressar de novo. Obtinha assim uma dicção rítmica e ondulante que me recordava o tempo em que trotava alegre e só, pelo caminho que ali me tinha trazido.

26. Tão rico de ensinamentos sobre a forma de caminhar, remédio para todas as aflições, solução para todos os problemas, o discurso guindou-me rapidamente ao primeiro lugar entre os meus concidadãos. Só eu tinha agora o privilégio e o direito de discursar na praça principal!

27. Este privilégio, criava-me no entanto alguns deveres que eu cumpria, digamos para não fugir à regra, gostosamente. Entre todos, a minha predilecção ia para as visitas de cortesia. E não irei adiante sem me referir muito secretamente à que fiz ao secreto Instituto de Pesquisas Científicas :

Quinta-feira, Julho 12, 2007

Se o mar a mim amasse





Se o mar a mim amasse 
como eu te amo a ti
então, oh meu amor
tu serias o mar.
Se o sol amasse a mim 
como eu te amo a ti
então, oh meu amor,
tu serias o sol.
Se o ar a mim amasse
como eu te amo a ti
então, oh meu amor,
tu serias o ar.
Se a flor amasse a mim
como eu te amo a ti
então, oh meu amor,
tu serias a flor.

Se tu a mim amasses
como eu te amo a ti
e o mar amasse o sol
e o sol amasse o ar
e o ar amasse a flor
e a flor amasse o mar
então, oh meu amor,
seria bom amar-te
seria bom amar.

Geraldes de Carvalho

de 20 poemas de muito amor e quase nenhuma circunstância

Sexta-feira, Junho 29, 2007

Aqui deixo para as pessoas que manifestaram interesse -e também para as pessoas que tenham interesse embora ainda o não tenham manifestado - e ainda para as pessoas que venham a ter interesse e ainda ...-basta !- o endereço onde podem adquirir o meu livro :
http//artesdoespectaculo.com.sapo.pt/ae410encomendas.htm

geraldes de carvalho

Quinta-feira, Junho 28, 2007

Eu sei





Eu e só eu
apenas eu
sei
como é difícil amar
e parecer
ao mesmo tempo,
não se importar.

Como é difícil viver
esperando o teu olhar
e parecer
não se importar.

Como é difícil viver
com toda a alma de bruços
a chorar
e parecer
não se importar.

Como é difícil viver
fingindo representar
um amor que se tem
e que nos faz doer
mas que não se quer mostrar
e parecer
não se importar.

Como é difícil viver
a falar, falar, falar
sem nada ter que dizer
aos outros, que não a ti,
e parecer
não se importar.

Como é difícil viver
a escrever, ler
e pensar
mas ter a mente vazia,
dos outros, que não de ti,
e parecer
não se importar.

Como é difícil viver
Com o mundo à nossa volta
a passar
e nunca te ver a ti
-nunca te ver nos teus olhos -
e parecer
não se importar.

Como é difícil viver
como quem vive a sonhar
mas tem a alma desperta
para poder adivinhar,
a ti, no modo de andar
e parecer
não se importar.

Como é difícil viver
sentindo o sangue a pulsar
como se fosse morrer
de tanto ser e amar,
e parecer
não se importar.

Como é difícil viver
e parecer
não se importar.


Geraldes de Carvalho

De 22 poemas de muito amor e quase nenhuma circunstância, Ó Grabato.

Quarta-feira, Junho 20, 2007

Minha poesia é




Minha poesia é
como a respiração
ela me dá alento
me levanta do chão.

(Do chão em que moro
e morro)

Ela me enruga a pele
e me deixa tremendo
quando respiro fraco
por causa do vento.

( Do vento que sopra
nas minhas cavernas)

Ela me deixa aflito
quase sem coração
quando respiro fraco
por causa do grito.

( do grito que grita
caído no chão)

Ela me deixa nu
quase que sem decoro
quando respiro fraco<